Figuras e figurinhas em 1964: antes e depois do golpe contra o Brasil

Este é o capítulo final da série de artigos que publiquei, em 2014, sobre o golpe de 1º de abril de 1964.

Para os leitores interessados no conjunto do texto, ele está acessível em:

Figuras e figurinhas em 1964: antes e depois do golpe contra o Brasil (parte 1)

Figuras e figurinhas em 1964: antes e depois do golpe contra o Brasil (parte 2)

e

Figuras e figurinhas em 1964: antes e depois do golpe contra o Brasil (parte 3)

C.L.

Figuras e figurinhas em 1964: antes e depois do golpe contra o Brasil

CARLOS LOPES

Chegamos ao fim desta série. Faremos, aqui, apenas algumas considerações complementares, que, em alguma medida, possam minimizar as nossas falhas e limitações (somente conseguimos citar em pouca medida o material pesquisado, devido ao risco desta série tornar-se interminável).

A melhor coleção de documentos históricos sobre o golpe de 64 – inclusive sobre a intervenção militar norte-americana, a “Operação Brother Sam” – está no Volume VII de “Textos Políticos da História do Brasil”, preciosa obra organizada por Paulo Bonavides e Roberto Amaral, que teve a sua terceira edição publicada pelo Senado Federal em 2002. O sétimo volume é especialmente importante para a história do golpe de 64, pois reúne documentos do período 1956-1964, ou seja, dos governos Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart – e do golpe de Estado.

Muito importante para as questões que abordamos é a troca de cartas entre Jango e Kennedy, por ocasião da “crise dos mísseis”, em 1962. Em sua resposta ao presidente norte-americano, que tentava conseguir nosso apoio para a ação dos EUA contra Cuba e a URSS, diz o presidente brasileiro:

A defesa do princípio de autodeterminação dos povos, em sua máxima amplitude, tornou-se o ponto crucial da política externa do Brasil, não apenas por motivos de ordem jurídica, mas por nele vermos o requisito indispensável à preservação da independência e das condições próprias sob as quais se processa a evolução de cada povo.

É pois, compreensível que desagrade profundamente à consciência do povo brasileiro qualquer forma de intervenção num Estado americano inspirada na alegação de incompatibilidade com o seu regime político, para lhe impor a prática do sistema representativo por meios coercitivos externos, que lhe tiram o cunho democrático e a validade.

(…)

“… não escondo a Vossa Excelência a minha apreensão e a insatisfação do povo brasileiro pelo modo por que foi pleiteada e alcançada a decisão do Conselho da OEA, sem que tivesse preliminarmente realizado, ou pelo menos deliberado, uma investigação in loco, e sem que se tivesse tentado através de uma negociação, como a que propusemos em fevereiro do corrente ano, o desarmamento de Cuba com a garantia recíproca de não invasão.

Receio que nos tenhamos abeirado sem, antes, esgotar todos os recursos para evitá-lo, de um risco que o povo brasileiro teme tanto como o norte-americano: o da guerra nuclear.

(…)

Não quero encerrar, porém, esta carta, senhor presidente, sem acrescentar às considerações nela feitas a expressão de meus receios sobre o futuro imediato da OEA. Nos últimos tempos observo que as suas decisões vêm perdendo autoridade à medida que se afastam da correta aplicação das suas próprias normas estatutárias, e que são tomadas por maioria numérica com injustificável precipitação. A isso cabe acrescentar a tendência para transformar a Organização num bloco ideológico intransigente, em que, entretanto, encontram o tratamento mais benigno os regimes de exceção de caráter reacionário.

Permito-me pedir a atenção de Vossa Excelência para a violação do art. 2º da Carta de Bogotá, que se está correndo o risco de cometer para evitar a adesão de novos Estados por motivo de ordem ideológica. Permito-me ainda recordar a aplicação imprópria da Resolução II de Punta del Este sobre vigilância e defesa social, que não autoriza a Organização a encomendar investigações sobre a situação interna de nenhum país, para evitar que se firam os melindres de Estados soberanos, e que agora se pretende abusivamente invocar justamente para a execução de uma investigação dessa natureza. A esse caos acrescento o da criação do Colégio Interamericano de Defesa” (op. cit., p. 743-744).

A data dessa carta é 24 de outubro de 1962. Estendemos a citação, não somente porque a carta raramente aparece nos livros sobre a época (se é que aparece em algum), mas, sobretudo, porque esta citação economiza comentários adicionais.

JUDAS, O INFELIZ

Sobre o transformismo – que deixou não poucos perplexos – de um sujeito tão simpático e popular quanto César de Alencar num dedo-duro asqueroso, cabe acrescentar algo que demonstra o quanto Sônia Dutra estava certa.

Na apologia do dedo-duro escrita por um dos últimos produtores de seu programa, Jonas Vieira (um livro em que César de Alencar é retratado como uma vítima daqueles que delatou), é dito que ele tinha a “ambição legítima, pelo prestígio de que desfrutava” (sic) de ser diretor da Rádio Nacional e, em seguida: “Ele não escondia tal pretensão e pleiteou o cargo em mais de um encontro com o presidente João Goulart, que se decidiu por Hemílcio Fróes” (Jonas Vieira, “César de Alencar: A Voz Que Abalou O Rádio”, p. 158, Valda, 1993).

Pode parecer incrível, mas tudo indica que, realmente, o motivo consciente do suicídio público de caráter, às custas da pele alheia, de César de Alencar, tenha sido sua vontade – não satisfeita por Jango – de mandar e desmandar na Rádio Nacional.

O resultado foi aquilo que o apologista chama de “visível solidão de César de Alencar, lutando para romper o bloqueio em torno de seu nome”.

São coisas assim que dão esperança à Humanidade.

Certamente, nada como um dia depois do outro e a noite pelo meio.

Segundo Dante, aos bajuladores está destinado um lugar especial no Inferno:

Ali subimos; e além, na fossa

vi gente afundada no esterco

de humanas privadas recolhido

 

E enquanto eu olhava para o fundo

vi uma cabeça tão suja de merda

que não sabia se era leigo ou se era frade

(Inferno, Canto XVIII: “Quivi venimmo; e quindi giù nel fosso/ vidi gente attuffata in uno sterco/ che da li uman privadi parea mosso.// E mentre ch’io là giù com l’occhio cerco,/ vidi un col capo sì di merda lordo,/ che non parëa s’era laico o cherco.”).

 

Porém, os traidores têm destino ainda pior, dentro do nono círculo do Inferno.

Mas, deixemos de lado esse elemento.

O TIGRE

Algo ainda precisa ser dito sobre Eloy Dutra, que se tornou um dos mais influentes líderes nacionalistas, sobretudo depois que, com 52% dos votos (em uma eleição com três concorrentes e um único turno), vencera o candidato de Lacerda a vice-governador, em 1962. Era conhecido por seu estilo combativo e pelo vasto bigode, daí o apelido de “o tigre da Guanabara”.

Por exemplo, em 1961, na crise que sucedeu à renúncia de Jânio Quadros, quando um pronunciamento seu foi censurado nos registros da Câmara, com a extirpação dos trechos mais contundentes, Eloy exigiu a retificação, observando:

“… todos nós sabemos que o Presidente Ranieri Mazzilli, Presidente da República em exercício e Presidente desta Casa, é um homem de dotes intelectuais apreciáveis. Não vamos julgar, portanto, que Sua Exa tenha a imponência de um senador romano e a inteligência de um Primo Carnera”.

Para muitos ouvintes da época, Eloy cometia uma injustiça com Primo Carnera, um brutamontes italiano que foi campeão dos pesos-pesados na época de Mussolini…

O crime de Eloy, que era jornalista, foi ter escrito “IBAD, Sigla da Corrupção” e uma série de artigos nacionalistas – e derrotar os golpistas na eleição de 1962, no Estado governado pelo mais desavergonhado deles, Carlos Lacerda.

Eloy era tão odiado pelos entreguistas, que foi o último perseguido político, entre os que se asilaram em 1964 na embaixada do Uruguai, a receber salvo-conduto, um documento, como vimos, obrigatório pela Convenção de Havana (e necessário para que o asilado não fosse preso no caminho entre a embaixada e o aeroporto, ou antes que o avião deixasse o território e o espaço aéreo do país).

Eloy foi demitido da Caixa Econômica Federal, porém, ao fim do IPM da Caixa, por falta de provas, foi readmitido, embora aposentado compulsoriamente. O que não impediu a ditadura de prendê-lo, quando voltou ao Brasil, em março de 1965.

Diante de versões totalmente disparatadas, geralmente favoráveis a Lacerda, e injustas para com Eloy, somos obrigados a abordar a sua volta.

Na época, Lacerda apresentou-se como libertador de seu adversário – detido na escala que o avião em que viajava fez em São Paulo e depois transferido para o DOPS do Rio, chefiado por um torturador lacerdista, Cecil Borer. A pantomina aprontada por Lacerda na televisão, aparecendo ao lado do vice-governador cassado, e suas declarações (“não sou carcereiro de ninguém”), sem que pudesse haver nenhum contraponto de Eloy, não ajudaram a imagem deste.

Mas quem assistiu à cena pela TV pôde perceber que Eloy não estava à vontade – permaneceu sério, constrangido, e não declarou nada que negasse as convicções que esposara por tantos anos. Hoje, é difícil criticá-lo por não suportar o exílio.

A “libertação” de Eloy por Lacerda foi uma palhaçada. Como disse o editorial da “Última Hora” de 17 de março de 1965, para Lacerda “pouco importava a legalidade ou a ilegalidade da prisão do sr. Elói Dutra”, mas “a grande farsa teatral adrede preparada pelos agentes publicitários do Palácio da Guanabara. E ele, como uma Sara Bernhardt rediviva, montou a grande ‘mis-em-scène’”.

Talvez haja alguma superestimação dos talentos histriônicos de Lacerda – mas é compreensível, naquele momento.

O próprio Lacerda comentou que Eloy seria preso outra vez, o que ocorreu quatro horas depois de “libertado”, quando a casa de seu pai, onde repousava, foi cercada por “um jipe com dois soldados armados de metralhadora, um tenente e um sargento, e um caminhão com 11 soldados também armados de metralhadora”. Tudo isso para prender um homem (v. a fotografia desse contingente na primeira página da UH de 17/03/1965).

Até o líder udenista Adauto Lúcio Cardoso protestou contra o que chamou “ato de demasia, pois nada ficou provado, até agora, contra o sr. Eloy Dutra”.

Eloy ficaria incomunicável – sem contato nem com seu advogado – durante um mês, até 13 de abril.

EXPLICAÇÕES

Por último, algumas anotações pessoais.

Este texto começou a ser escrito como um ensaio sobre cultura nacional e política cultural. Em uma viagem para cumprir um compromisso familiar, tive uma conversa muito interessante sobre esse assunto com meu filho – que é um rapaz muito inteligente e perspicaz. (Aliás, a minha filha também é muito inteligente e perspicaz. De onde se conclui que eles podem ser diferentes dos filhos de outros, mas eu sou igual a todos os pais.)

No entanto, quanto mais eu tentava, no projetado ensaio, entender algumas coisas da época atual, mais eu sentia necessidade de melhorar meu conhecimento do período anterior ao golpe de Estado de 1964.

Para aumentar essa necessidade, ao mesmo tempo (ou quase, porque ao mesmo tempo é impossível), eu estava escrevendo um texto sobre as confusões entre conceitos como “nacional” e “local”, confusões que tornaram-se especialmente abundantes no governo Dilma, onde se considera que o “conteúdo local” (isto é, produzido ou montado, sobretudo, por qualquer empresa estrangeira instalada no país) é mais importante que o caráter nacional (a produção por empresas genuinamente nacionais). Daí a substituição, à moda tucana, do “nacional” pelo “local”, como critério de algumas compras estatais (veja-se, por exemplo, a lista de fornecedores “locais” que a presidente da Petrobrás nomeada por Dilma, citou logo após a sua posse: 19 empresas, das quais 17 são filiais de multinacionais – v. HP 04/07/2012).

A relação entre este problema e as vicissitudes da cultura nacional me parecia evidente.

A lista da senhora Foster seria considerada um escárnio antes de 1964.

A essência da questão era considerada óbvia para os pensadores nacionais-desenvolvimentistas. Por exemplo, quando se abordou o problema do consumo, nos países dependentes, de “produtos diretamente exportados das metrópoles ou indiretamente exportados, isto é, fabricados no local por empresas estrangeiras, que arrecadam, sob mil disfarces financeiros, o tributo da servidão econômica do vassalo subdesenvolvido” (cf. Álvaro Vieira Pinto, “O Conceito de Tecnologia”, V. 1, Ed. Contraponto, 1ª ed., Rio, 2005, págs. 269/270, grifo nosso).

Ou, na mesma obra, quando o autor se refere aos problemas ideológicos de grupos sociais de um país dependente “ao absorverem os produtos técnicos, direta ou indiretamente importados”, isto é, montados localmente por filiais de empresas externas (op. cit., pág. 271, grifo nosso).

Achar que as importações devem (ou podem) ser substituídas pela montagem das filiais de multinacionais, equivale à velha troca de seis por meia dúzia – tanto do ponto de vista estratégico (ou seja, sob o ângulo do desenvolvimento) quanto conjuntural: basta ver o pântano a que essa política nos conduziu.

Como consequência da necessidade de compreender esses problemas, acabei por abandonar os dois textos e escrever um – este – que não tinha, a princípio, intenção de escrever.

A conclusão que se pode tirar é clara: para que o nosso país cresça, econômica e culturalmente, é preciso recuperar inteiramente a ideia de que somos uma nação. Esta recuperação estava em processo acelerado – após a escolha de Tancredo como candidato popular à Presidência, a derrubada da ditadura e a Constituição de 1988 – quando as repercussões dentro do Brasil dos acontecimentos no Leste europeu provocaram uma desacelerada e mesmo uma travada.

Como nada está parado, o segundo mandato do presidente Lula demonstrou, ainda que parcialmente, que somos uma nação e devemos ser uma nação. O recuo do governo Dilma, com as consequências que se agravam cada vez mais, é, também, embora pelo lado negativo, uma demonstração dessa verdade.

Quanto ao passado, minha rememoração, especialmente atroz, daquela época é a de ver amigos separados, exatamente, pela amizade.

Deve ter sido em 1965 ou 1966: entrei com minha mãe em uma agência bancária – na memória, me parece ter sido a filial carioca do antigo Banco da Província do Rio Grande do Sul, mas pode ser uma confusão mnemônica, depois de tantos anos.

No banco, estava um amigo de meus pais, Mário Lago, que olhou para minha mãe, sorriu discretamente, e saiu do banco sem falar com ela – que teve a mesma reação. Mário, preso pela ditadura em 1964, temia complicar a vida da amiga, se estivesse sendo vigiado – o que, provavelmente, era verdade.

Pensei, inicialmente, em dedicar este texto aos que vieram depois da minha geração, para que conhecessem algo do que vivemos, um pouco ao modo de Brecht em “Aos que vão nascer”.

No entanto, algo me impede de fazê-lo – e as novas gerações compreenderão, certamente, que têm a vida pela frente, portanto, podem dispensar, por enquanto, uma dedicatória.

Em abril de 1985, depois do falecimento de minha mãe, eu estava no Rio quando recebi um recado, através de meu pai, da Drª Eline Mochel – a quem já me referi, ao relatar as perseguições ao seu cunhado, Masao Goto, no Instituto Oswaldo Cruz.

A Drª Eline era uma das melhores amigas de minha mãe, mas, desde a fundação de Brasília, saíra do Rio – ela era médica da Câmara dos Deputados.

Porém, em abril de 1985, logo depois da derrubada da ditadura, ela também estava no Rio. Conservara um apartamento em Copacabana – e foi lá que a encontrei, com o marido, Leopoldo.

Os móveis eram antigos – e eu ainda não tinha descoberto que os móveis tendem a envelhecer com os moradores da casa, pois ninguém muda de móveis de acordo com a moda.

Ela estava com mais de 70 anos e enxergava pouco. Foi um encontro muito triste.

Entretanto, depois de sair do apartamento, uma ideia veio-me à cabeça, algo que devia ter percebido, porém só naquele momento ficou claro: a minha geração, que sempre achei muito sacrificada pela instalação da ditadura – pois teve que, quase de repente, mudar seus planos e arriscar-se no combate pela liberdade, em que muitos tiveram de enfrentar as prisões, as torturas e a morte – não fora a principal prejudicada com aqueles acontecimentos.

Pelo contrário, a geração anterior – a dos meus pais – fora o alvo do golpe e da ditadura. Foi muito mais difícil para ela, gerada, formada, crescida no ambiente do nacional-desenvolvimentismo, enfrentar uma ditadura que era a negação dos valores que constituíam o seu patrimônio cultural e moral.

A derrubada da ditadura tinha, então, um significado especial para esses combatentes mais antigos, que fizeram o que puderam para resistir – nem que fosse, no caso de muitos, criar seus filhos com honra, humanidade e amor pelo país.

Portanto, é a esses que dedico este texto.

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