1964

Por Mario Drumond

Na direção do Estado, criaremos o caos e a confusão. De maneira imperceptível, porém ativa e constante, propiciaremos o despotismo dos funcionários, o suborno, a corrupção e a falta de princípios. A honradez e a honestidade serão ridicularizadas como desnecessárias e convertidas em uma sombra do passado. Cultivaremos a sem-vergonhice, a insolência, o engano, a mentira, o alcoolismo, as drogas, o vício e o medo irracional entre semelhantes; a traição, o fascismo, a inimizade entre os povos e, sobretudo, o ódio aos mais pobres, tudo isto é o que vamos fomentar habilmente até que se estilhace o sentimento nacional. Apenas uns poucos lograrão suspeitar e até compreender o que realmente sucede, porém, a estes lhes colocaremos em uma posição indefesa ridicularizando-os e caluniando-os a fim de desacreditá-los e apontá-los como párias da sociedade. Faremos parecer estúpidos os fundamentos da moralidade, destruindo-os. Nossa principal aposta será na juventude. Vamos corrompê-la, desmoralizá-la e pervertê-la. Nosso objetivo é conseguir que aqueles que agredimos nos recebam de braços abertos. Estamos falando de ciência, de uma ciência para implantar um novo cenário na mente das pessoas. Antes dos porta-aviões, dos mísseis, chegarão os símbolos que venderemos como universais e glamorosos, os modernos arautos da juventude e da felicidade ilimitada. O propósito final desta estratégia a escala planetária é derrotar as alternativas ao nosso domínio no campo das ideias mediante o deslumbramento e a persuasão, a manipulação do inconsciente, a usurpação do imaginário coletivo e a colonização das utopias redentoras e libertárias para obter um produto paradoxal e inquietante: que as vítimas cheguem a compreender e a aceitar a lógica de seus verdugos.” (Trecho do livro de Allen W. Dulles The Craft of Inteligence,1959/Ofício de Espião, trad. port.,1963. Dulles foi o primeiro diretor civil da CIA e, durante a Guerra Fria, foi uma das pessoas mais influentes e poderosas no governo/deep state dos EUA)*[i].

Extraí este prólogo do artigo Operación Desencanto será derrotada, de Henry Escalante, um bom ensaísta venezuelano, que demonstra como a Venezuela de Chávez e de Maduro, tal como a Cuba de Fidel e de Raul, vem derrotando o assédio imperialista contra as pátrias de Bolívar e de Martí. Mais que pelo conteúdo do texto, usei-o também como prólogo deste editorial por encontrar nele um documento valioso para a análise histórica do tema desta edição do ASOL. Publicado em livro no ano de 1959, quando o autor era um dos mais proeminentes “falcões” do chamado “estado profundo” (deep state) imperialista, é revelador e muito representativo do pensamento (se é que um texto desses possa ser assim qualificado) que, desde aquela época, orienta a ação política, ideológica e militar dos EUA, tanto interna como externamente (“em escala planetária”). É também um documento que antecede ao conceito de “Teoria da Conspiração”, termo criado pela CIA posteriormente ao assassinato de Kennedy (novembro/1963) para desqualificar ou neutralizar qualquer prova, documento, tese, argumento, ideia, pensamento ou opinião que divergisse da posição expressada pelo governo dos EUA que a própria CIA estabelecesse como a “oficial”.

Aqui, temos de pedir pela paciência do leitor pois a semântica “de guerra” sempre nos obriga a um uso abundante de aspas. A manipulação semântica para distorcer, confundir e, principalmente, ocultar a realidade já era denunciada naquela mesma época pelo pensador brasileiro Álvaro Vieira Pinto[ii] como tática de domínio imperialista sobre os povos dos países subdesenvolvidos e submetidos à sua espoliação. Usando e difundindo a palavra teoria por sua acepção mais simplória – a designação de algo que ainda não está ou não pode ser comprovado –, e ao mesmo tempo associando-a ao conceito depreciativo de conspiração, busca-se a banalização de uma das palavras mais nobres e mais importantes para a racionalidade humana: a que designa o princípio fundamental da filosofia científica.

Foi um dos “achados” imperialistas para impor sua versão dos fatos, ou a ficção que querem impor como realidade, e que muitas vezes requer desacreditar a própria Ciência como método de observação e conhecimento da realidade. Nem as leis da Física ficam imunes a este processo de negação e manipulação da realidade. Exemplo notório foi o do show mediático e terrorista de 11/09/2001, onde as “investigações oficiais” eludiram a evidente demolição controlada por alta tecnologia de três imensos edifícios (com pessoas dentro), facilmente verificável por perícia forense sustentada em leis elementares da Física – e que podia ser feita até nos registros audiovisuais que se produziram em abundância -, para concluírem pelas consequências dos choques e incêndios causados pelos impactos de duas pequenas aeronaves cujas estruturas assemelham-se à dos ovos de aves (em relação ao tamanho e à massa dos três edifícios). É como se três casas de alvenaria se dissolvessem pelo impacto de dois ovos de galinha que fossem atirados em duas delas, ainda que estivessem cheios de gasolina que se incendiasse, e a terceira casa teria caído (sobre si mesma) “de susto”. Mas é o que expressa a versão oficial do governo dos EUA e, portanto, é o que deve ser aceito como aquilo que “realmente” aconteceu. O resto, incluídas as leis da Física, é “Teoria da Conspiração”.

Voltando a Mr. Dulles, que, por sua vez, se jacta de estar “falando de ciência” em sua conspícua “obra”, é de se perguntar qual disciplina da Ciência possa ter relação com aquele escrito que não seja alguma do campo da Psiquiatria para o diagnóstico da psicopatia e do grau de demência em que padeceria o autor. Porém, ao invés de interná-lo para o devido tratamento, o alçaram a chefe dos operadores de armas nucleares imperiais! E sua “obra” passou a ser – e ainda é – obra de referência de seus epígonos nos países colonizados e que fazem parte do mundo a que eles chamam “Ocidente” (que inclui o Japão!?). E é nesta parte do mundo, o “mundo” de Mr. Dulles, que nós, brasileiros, fomos incluídos, contra a nossa vontade e na condição subalterna de colonizados, ou pior, segundo ele mesmo, “de vítimas que cheguem a compreender e a aceitar a lógica de seus verdugos”, desde 1964.

Passamos então a viver em um hospício de proporções supra continentais controlado pelos loucos e sem psiquiatras. Como em muitos casos de loucura que evolui ao delírio autodestrutivo em suas fases degenerativas e terminais, o mundo, o planeta, está vivendo hoje a situação de refém de uma quadrilha de gangsters terroristas psicopatas (conhecida como Bilderberg Group) que chantageia a humanidade com a extinção caso ela não se submeta à demência imperial capitalista que querem impor a todo custo.

Em 1930, em seu jornal O Homem do Povo (precursor do nosso HP), Oswald de Andrade já nos advertia de que no Brasil teríamos de optar “entre o ‘sistema’ de Capone e o sistema de Lenin”.  Repito, leitor, continuo sustentado em documentação anterior ao conceito da “Teoria da Conspiração”.

O sistema de Lenin é estruturado em sólida base científica cuja arquitetônica se alicerçou nas obras de Marx e Engels que demonstraram o processo social evolutivo da civilização na direção do socialismo e do comunismo como inevitável uma vez que os povos, em sua condição proletária e cujo trabalho é imprescindível aos novos contextos sociais e econômicos industrializados, assumiriam o protagonismo de sujeitos históricos de suas culturas e nações. Lenin, além de contribuir ao aprimoramento teórico do sistema, foi o primeiro a comprová-lo com sucesso, na prática, com a vitória da Revolução Russa, que liderou, e na realidade objetiva da União Soviética, que fundou. Ao contrário do que “pensa” Mr. Dulles, e apesar de suas sabotagens e agressões permanentes contra tudo o que considera como “utopias redentoras e libertárias” da humanidade, o sistema de Lenin é um processo histórico irrefreável, em plena vigência e em andamento acelerado, com algumas nações mais à frente, principalmente as que não fazem parte do tal “Ocidente”, como nos exemplos de Rússia e China, entre muitas outras que o socialismo retirou de condições sociais-econômicas primárias e espoliadas para as tornarem em poucos anos poderosas potencias mundiais.

No caso brasileiro, a tomada do poder por Getúlio Vargas, também em 1930, possibilitou ao povo brasileiro, pela primeira e única vez em toda a nossa História, assumir-se como sujeito histórico da nacionalidade e deu origem ao Brasil que romperia com a estagnação e o atraso em que vegetávamos para impulsionar um rápido desenvolvimento nacional com inúmeras conquistas sociais, políticas, econômicas e culturais que em pouco mais de três décadas tornaram o nosso país uma grande potência democrática e soberana. Getúlio não era marxista-leninista. Mas, além de ter lutado bravamente contra as poderosas forças imperialistas que nos acossavam – e de ter dado a vida nessa luta -, acreditou na História e no povo brasileiro como seu principal protagonista. Dois fatores que estão na essência e na base de sustentação do sistema de Lenin.

Já o que Oswald batizou com o nome do célebre gangster roliudiano, na época e ainda hoje um ícone do poder capitalista, não se constitui um sistema, a não ser que o caos possa ser aceito como um tipo de “sistema”. Mas um “sistema” com aspas, claro. Não há ciência nem pensamento e muito menos um processo civilizatório da humanidade. O que há é o bando de Capone/Mr. Dulles com metralhadoras e mísseis aterrorizando e matando a fim de tentar retroceder a humanidade para o tempo das cavernas e da lei do mais forte, quando reinavam (ou acreditam que reinavam). Na verdade, é uma síndrome psicótica derivada da megalomania burguesa levada ao estado de delírio. Ninguém precisa ser psiquiatra para perceber tal aberração. E apesar dos danos que vem causando e dos perigos com que vem ameaçando a humanidade, não é mais que um sintoma da fase terminal de decadência de uma ideologia cuja incidência histórica há muito decaiu na obsolescência. Daí o desespero demencial de seus poucos, obscuros e reacionários “fiéis” do evangelho do Capital.

o “sistema” de Capone (versão brasileira atualizada)

No caso brasileiro, o golpe de Estado de 1964, introduziu a “ciência” de Mr. Dulles em nosso país e o seu ingresso forçado e escravizado ao tal “Ocidente”. E nestas mais de cinco décadas de “corrupção, desmoralização e perversão” importadas da terra de Mr. Dulles, e de usurpação da soberania nacional, conseguiram nos impingir inúmeros prejuízos sociais, políticos, econômicos e culturais ao ponto de nos retrogradar a um quintal d’América exportador de matérias primas como nos idos colonialistas de mais triste memória.

Mas, ao contrário do que “pensa” Mr. Dulles, jamais se nos apagará a chama libertária que Tiradentes acendeu e que se propagou e brilhou em todo o território nacional entre 1930 e 1964. Tão logo nos livremos de Mr. Dulles e seus asseclas, nos bastará o primeiro sopro de soberania para que ela ressurja fulgurante da brasa dormida em que se encontra.

Então, teremos Pátria.

Esta edição do ASOL é dedicada ao projeto de nação que ficou estancado em 1964. Para nós, a seta que Niemeyer colocou na cúpula do memorial João Goulart quer nos dizer: “aqui está o Brasil que nós tínhamos e que agora temos de retomar e continuar a construir”. Um Brasil que íamos construindo, como dizia Darcy Ribeiro, “aos trancos e barrancos”, mas que era nosso e era, acima de tudo, um “Brasil brasileiro” (Ary Barroso).

Aqui publicamos, para a informação e análise do leitor, o manifesto de Cláudio Campos para o 3º Congresso do MR-8 (1982), duas grandes contribuições do editor do HP, Carlos Lopes, sobre o nosso último presidente e o golpe que o derrubou, e uma entrevista que fizemos recentemente com João Vicente Goulart.

Não estamos falando de passado; estamos falando do futuro. Mas sabemos que não temos futuro se não conhecemos bem o nosso passado. Hoje, depois de mais de 50 anos de degradação da soberania e da democracia brasileiras, estamos vivendo o futuro do que se tornou o Brasil logo depois do golpe de 1964. Pobre pátria esta que se dissolve na deterioração das instituições, na mediocridade política, na insolvência econômica, na desintegração cultural e social e no vil entreguismo de nossas riquezas pelos poderes públicos que nos são usurpados. Mas temos ainda, e como sempre, o que nunca perdemos nem perderemos: a esperança que nos alenta o melhor do nosso passado, antes e depois do do golpe. Temos de recuperar e por em prática os grandes legados da nossa História recente: o “socialismo moreno” e os CIEPS, de Brizola e Darcy Ribeiro, a dignidade de Tancredo Neves, as reformas de base de João Goulart, o desenvolvimentismo de Juscelino e o trabalhismo de Getúlio Vargas, fundador e mártir da República verdadeiramente brasileira. Soberana e nossa!

João Goulart Filho

Precisamos de uma nova constituição e de uma nova liderança política para resgatar o nosso projeto de nação. Eis, aqui e agora, João Goulart Filho, pré-candidato a Presidente da República, cujo nome por si mesmo dispensa maiores apresentações. Além dos inegáveis e preciosos atributos de berço, ele nos traz um passado de inabalável resistência patriótica e a proposta concreta de recuperação da nacionalidade (ver entrevista).

Nos traz também uma bandeira, um ícone que se faz necessário a esta luta libertária. Acreditamos que quando este projeto, pelo qual ele vem lutando com bravura e persistência, finalmente se concretizar, em Brasília ou em qualquer outro ponto do território nacional, se tornará um marco da retomada e do caminho da vitória para a nossa pátria: o Memorial João Goulart, com o ano de 1964 lançado na seta vermelha sobre a sua cúpula.

Pois o nosso Brasil, leitor, tem o nome de uma cor: a cor da brasa.

Capa do livro Pau Brasil, de Oswald de Andrade, com ilustrações de Tarsila do Amaral, publicado em 1925.

 

[i] Tradução livre do autor a partir do texto em espanhol no artigo citado, publicado no site Aporrea, em 28/03/2018 (https://www.aporrea.org/ideologia/a260965.html).

[ii] A sociologia dos países subdesenvolvidos; escrito entre 1960 e 1975, e publicado pela Contraponto em 2008.

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