Livro: Que fazer? de Vladimir Ilich Lenin

Editora Martins Fontes / 2006

Que fazer? de Vladimir Ilich Lenin

Mario Drumond

Obra antológica de Lenin que revela a extraordinária visão estratégica do autor na construção do projeto revolucionário que liderou na Rússia. Foi publicada no início de 1902 e desde então nunca deixou de ser considerada decisiva para a vitória do projeto que defendia, a qual se daria de fato 15 anos depois. Há quem considere esta obra tão importante para a Revolução Soviética quanto o próprio O Capital, de Karl Marx.

Podemos ousar compará-la, também, a O Príncipe, de Maquiavel, com as devidas substituições de épocas e destinatários. Talvez esteja nisto o tão propalado “maquiavelismo” de Lenin, em geral por seus detratores, que ademais não leram sua obra e nem a de Maquiavel.

Autores como Tucídides, Maquiavel, Marx, Engels e Lenin possuem uma qualidade comum: não mentem para si mesmos, não se deixam enganar e não enganam seus leitores. Isto exige postura semelhante por parte dos leitores, eis porque inicialmente são poucos estes e muitas são as mistificações e as maldições a tais autores e as obras que lavram.

Mas a verdade é munição poderosa, apesar do pouco impacto inicial perdura, motivo pelo qual esses poucos leitores iniciais valem por mil e se multiplicam ao longo do tempo consolidando e imortalizando os valiosos legados da genialidade, como é o caso do Que fazer? de Lenin.

Nele, o autor denuncia o atraso absurdo da intelectualidade pequeno-burguesa em relação ao proletariado no processo histórico revolucionário. Ao mesmo tempo, reivindica a necessidade dela para propiciar a consciência política da luta de classes ao operariado, o qual, por si só, não teria como lográ-la. Por se ocupar em tempo integral na batalha pelo pão de cada dia, às massas operárias só as alcançavam, e rapidamente, a consciência da exploração econômica. Apesar de fundamental tal consciência, inclusive do ponto de vista marxista, para Lenin era igualmente importante, para que fosse completa a consciência de classe, a consciência política, ou seja, a consciência do poder político de classe para, enfim, tomar o poder.

Sua metralhadora verbal dispara contra o entusiasmo juvenil da intelectualidade pequeno-burguesa, travestida de acadêmica e estudiosa – e revolucionária! -, mas na realidade amadorística e despreparada para conduzir o proletariado na luta de classes.

Isso de produzir materiais “acessíveis às massas”, moda de então (e ainda hoje), Lenin retruca dando voz à classe operária, da seguinte forma: “Por favor, senhores, parem de nos tentar ensinar o que já sabemos e o que aprendemos muito melhor nas fábricas. Queremos saber tudo o que os outros sabem. Produzam coisas que não podemos saber ou aprender na nossa condição proletária. Nos falem de Política! Senhores!”

Num conteúdo denso e só aparentemente prolixo, pois cada linha de texto está ali porque tem de estar, Lenin reporta as discussões que se travavam entre os principais jornais que difundiam teses marxistas onde, da tribuna do Iskra, pugnava pela aquisição de quadros profissionais e capazes para o necessário trabalho clandestino, quadros autossuficientes, discretos e competentes o bastante para aportarem ganhos reais ao processo revolucionário.

Acusava de reacionárias as táticas que propunham organizações burocráticas desnecessárias, que afinal resultavam em brigas internas e desunião, as manifestações “heroicas” e os amadorismos precipitados “a favor da classe operária”, que só ajudavam a polícia política, as atitudes individualistas, voluntariosas ou de grupos isolados sem conexão estratégica e tática com os demais, que só fragmentavam e criavam contradições destrutivas ao processo.

Ao mesmo tempo que combate e demole a situação negativa vigente, Lenin vai apresentando suas propostas ou contrapropostas de solução para os problemas que enfrentava a organização revolucionária do proletariado, quase todas concretizadas e transformadas em vitórias, até a tomada do poder em 1917, e muitas das quais se revelaram os alicerces das posteriores conquistas libertárias da Humanidade a partir da Rússia comunista.

Ali estão, ainda embrionárias, mas já com a nitidez que a História depois confirmaria, as teses vitoriosas de Lenin, como, por exemplo:

O poder das células proletárias organizadas como conselhos operários, que já em 1905 se constituiriam nos “sovietes” e ao final, sob a liderança do mesmo Lenin, se tornaram não somente as bases fundamentais da vitória de 1917 como da estruturação bem sucedida da própria Rússia Soviética e de todos os estados da URSS;

O Partido Bolchevique, que depois da publicação do livro se formaria como o vetor político para comandar a revolução, aglutinando os revolucionários leninistas em contraposição ao Partido Menchevique, que reuniria os que discordavam das teses leninistas ali publicadas;

O sistema de governo depois denominado pelo mesmo Lenin como Centralismo Democrático que consolidou a luta revolucionária, a tomada do poder, o próprio poder soviético e seria o alicerce da formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS);

A criação embrionária dos Centros de Documentação, instrumento este que se revelou de extrema importância para o rápido desenvolvimento científico, tecnológico e industrial da Rússia pós-revolucionária e também da URSS. Tal invenção, pioneira na Rússia e na URSS, fora identificada por uma comissão de investigação especialmente criada pelo Congresso dos EUA como a principal responsável pela vitória soviética na corrida espacial, e logo foi imitada em Washington com a criação da Biblioteca do Congresso dos EUA. Nas traduções do livro em nossa língua vem mencionada como “brochuras de documentação” que Lenin propunha editar para o compartilhamento das experiências positivas e negativas que fossem documentadas pelas células revolucionárias em todo o país evitando a repetição de erros e promovendo a propagação dos acertos;

A criação de um órgão de imprensa único para que as vozes do comando político e as orientações do Partido alcançassem a grande maioria dos quadros em nível nacional, proposta esta que enfrentou inúmeras disputas e uma repressão feroz, mas que dez anos depois se consolidaria no Zvyezda (Estrela) e depois no Pravda (Verdade) como principal órgão de imprensa da Revolução Soviética e, posteriormente, dos estados soviéticos da URSS.

Que fazer?

Ao final do livro, Lenin identifica três etapas distintas por que até então passara o movimento socialista na Rússia desde os primórdios, que ele data em 1884, até a publicação do livro (fevereiro de 1902), as primeiras das quais ele classifica de infância e adolescência, onde o movimento fez enormes progressos, mas encontrava-se ainda despreparado em sua terceira etapa, que deveria ser a da maturidade, para enfrentar o desafio histórico a que se propunha. Então, “Que fazer? Liquidar a terceira etapa” – concluiu o genial líder-escritor, em uma só linha, dando também o título a esta sua vasta e poderosa obra de escritura revolucionária.

Vladimir Ilyich Lenin (1870 – 1924)