Álvaro Vieira Pinto, um pensador brasileiro universal

Por Mario Drumond

“Configura-se, assim, o quadro colonial imutável na essência, porém variado na aparência, conforme não podia deixar de ser. Não é mais a Coroa estranha que arrecada o dízimo, o quinto, o laudêmio, mas a grande empresa internacional, os gigantescos trustes, os portentosos bancos, alguns para efeito da mais disfarçada espoliação, revestidos de siglas que lhes dão o passaporte de ‘instituições internacionais’, aparentemente sem possuidor político declarado”. (Álvaro Vieira Pinto, in A Sociologia dos Países Subdesenvolvidos, Contraponto, Rio de Janeiro, 2008)

Estava este que aqui escreve, no início dos anos 2000, empenhado na criação de um software para nossa empresa de informática recém-fundada. Trata-se de um sistema de arquivamento computadorizado cuja base conceitual, teórica e científica é a Arquivologia, disciplina em que se sentia bem alicerçado por longa e atribulada experiência de editor e alguns trabalhos com a Biblioteca Nacional e, principalmente, numa série de monografias de autoria de Antônio Houaiss e seu grupo de trabalho às quais teve acesso graças a efêmera, mas muito profícua, conexão biográfica com aquele grande mestre.

Porém, para consolidar a arquitetônica de um sistema que se estruturaria em plataformas de tecnologia avançada, lhe faltava substância teórica de profundidade e específica ao tema da Tecnologia, uma vez que a pouca literatura então encontrada e disponível a pesquisa era – além de incipiente e banal em sua vasta maioria -, voltada para as necessidades comerciais e empresariais de quem as publicava ou do momento em que se publicavam, pelo que se tornavam rapidamente obsoletas e até caducas, em alguns casos, em menos de três anos de vir à luz.

Foi quando um outro dos seus mestres informais (como no caso de Houaiss, eles nem sempre sabem que este autor os tem por mestres e que tem suas dúvidas de que, se soubessem, o aceitariam por discípulo), Gilberto Felisberto Vasconcellos, o informa, por telefone, que acabava de receber os dois volumes recém publicados pela Contraponto da obra Conceito de Tecnologia, de Álvaro Vieira Pinto, e que, ao abrir o primeiro para “dar uma olhada” se viu tomado pelo conteúdo de tal forma que, quando se deu conta, já ia pela página 60.

O nome de Álvaro ia distante na minha memória, da época da militância nas décadas de 60/70, quando raramente era citado ou mencionado aqui ou ali, mas ainda não havia-me chegado sequer um fragmento daquela obra que hoje vejo não somente como grandiosa, mas magnífica.

O fato é que a leitura dos dois massudos volumes funcionara como poderosos holofotes na iluminação daquele tema até então completamente obscuro (e, ao que parece, ocultado) e acabou por fundamentar a almejada consolidação conceitual e arquitetônica do sistema, então em fase embrionária de criação e desenvolvimento, que era a parte que cabia a este autor na ousada empreitada em equipe de quatro profissionais, os quais nos sentimos hoje orgulhosos e gratificados pelos resultados das cada vez mais bem sucedidas aplicações do nosso empenho criador.

Conceito de Tecnologia foi escrita no final dos anos 1960 e seu conteúdo está inteiramente válido e atual. Não fossem umas poucas novidades reais surgidas a posteriori (sem, porém, perturbarem ou diminuírem o contexto da obra e, portanto, desprezíveis nesta análise) poder-se-ia dizer que havia acabado de ser escrita ontem. Não é pouca coisa quando se trata de um tema cuja aplicação industrial e comercial costuma ter uma obsolescência maldosamente “programada” para períodos entre 18 a 36 meses a fim de extorquir os “consumidores” de seus produtos. Entre as muitas de suas qualidades, a obra descoloniza magistralmente o conceito de tecnologia que vem associado a algo “muito complexo”, acessível apenas à realidade de “primeiro mundo” e mais afeita à certas “mentes superiores”. Demole também, e de maneira definitiva, os falsos e muito difundidos “conceitos” de “inteligência artificial” ou “máquina inteligente” aos quais destitui de qualquer base científica real e os relega aos argumentos de obras ficcionais e aos desejos capitalistas de se livrarem da incômoda e inevitável condição revolucionária do trabalho humano criador, produtivo e transformador da realidade.

A partir de então, passei a ficar atento e a buscar tudo o que encontrava a meu alcance da obra de Vieira Pinto.

Algum tempo depois (2008), a Contraponto publicou A Sociologia dos Países Subdesenvolvidos, em um espesso e denso volume que, como a anterior, quase não permite descanso ao leitor no desenrolar de suas fascinantes páginas escritas nos anos 1970, e que explicam com impressionante precisão o que nos está acontecendo neste exato momento, incluindo a questão da Previdência Social brasileira, que é o tema deste suplemento do século 21 (sobre isto, a epígrafe acima é um pequeno fragmento que nos serve de exemplo).

Logo em seguida, este autor logrou a sorte de encontrar à venda, pela internet, os dois preciosos volumes de Consciência e Realidade Nacional, obra da década de 1950, publicada pelo ISEB/MEC, que, por si só, é suficiente para elevar o autor à condição de mestre e pensador universal nas mais altas categorias que se possam estabelecer nesta rara, e a cada dia mais rara, qualificação autoral. Nela, Álvaro nos ministra uma pioneira “aula de anatomia” no ente indecifrável que chamamos “consciência”, algo que, além de imaterial e tido por não-objetivo (ou subjetivo), vem a ser extremamente complexo em sua definição mesma. Mas que o autor, situando a de cada indivíduo em algum ponto entre os polos opostos por ele estabelecidos como Consciência Crítica e Consciência Ingênua, e associando-a sempre à Realidade Nacional, consegue mais uma vez iluminar outro tão difícil e obscuro tema com nitidez cristalina, o que muito nos ensina a educar e disciplinar a nossa própria consciência no exercício mais pleno possível da Consciência Crítica. Tudo isso em uma dissertação genial estruturada em gramática impecável, e com um domínio e uma fluência do nosso sofisticado léxico tais que, se o autor fosse músico, o teríamos como um virtuose.

Considero a leitura da obra de Álvaro Vieira Pinto imprescindível em sua quase totalidade e acabo de descobrir que já possui um bem elaborado site de Centro de Estudos em http://www.alvarovieirapinto.org.