O eterno retorno ao futuro (Editorial)

Mario Drumond

Sol – É o grande inimigo das forças do Mal, e raro e difícil será o feitiço que possa operar durante as horas luminosas do sol. Diante dele só devemos atitudes de respeito à sua divindade para centenas de povos em dezenas de séculos. Nenhum ato fisiológico deve ser praticado em face do sol. Essa recomendação, já feita por Hesíodo, é contemporânea. Para o lado em que o sol nasce a veneração deve ser maior. (Dic. do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo)

(Foto: Leo Drumond)

(Foto: Leo Drumond)

Num misto de lenda e ciência sobre as origens e formação do Planeta Terra, acredita-se que partes da massa solar, de variados volumes, separaram-se do núcleo da estrela como bolas de fogo girando sobre si mesmas que passaram a contorna-la nas respectivas órbitas, e, dada a temperatura extremamente baixa do vácuo, foram esfriando-se gradativamente ao longo do tempo cósmico. Tal esfriamento, em alguns casos, entre eles o da Terra, deixou uma fina camada gasosa entre a massa sólida do planeta e o vácuo, a qual denominamos atmosfera.

São muitas as especulações científicas sobre a formação inicial da atmosfera até a situação em que permitiu a existência da vida orgânica em nosso planeta. Mas em qualquer delas, o certo é que um longo tempo cósmico foi necessário para limpar a venenosa atmosfera original, formada basicamente por gases vulcânicos altamente tóxicos. Parece que a massa sólida da Terra, ao longo de milhões e milhões de anos, teria funcionado como uma espécie de esponja, sugando, da atmosfera para o seu subsolo, os gases e as poeiras tóxicas que nela pairavam.

No que resultou, pelas teses mais aceitas, na formação no subsolo da Terra de um mineral líquido ou pastoso que os antigos gregos chamavam de óleo de pedra (petra aleion) e os romanos petroleum.

Éramos naquela antiguidade uma pequena população em um grande planeta e o petróleo podia ser encontrado eventualmente na superfície da terra em locais tão fétidos que, para muitas culturas e povos, eram amaldiçoados ou considerados como as próprias portas do inferno. Nem por isso deixavam de ir a eles buscar um pouco daquela matéria combustível para diversos usos, especialmente nas práticas de guerra ou na iluminação de espaços públicos por archotes ou lamparinas (para os interiores não servia pois os tornava irrespiráveis).

E mais ou menos assim viemos em nosso tempo histórico até há cerca de uns duzentos anos quando a Revolução Industrial na Europa descobriu a utilidade do petróleo para o crescimento da sua produção de modo muito favorável à prática da mais valia capitalista, identificada por Karl Marx. E deu-se o início de um processo de busca desenfreada daquilo que então passaram a chamar de “ouro negro”, onde estivesse, na terra ou no mar.

Hoje nos tornamos uma grande população de um pequeno planeta com um enorme problema: extraímos e continuamos a extrair do subsolo – em quantidades gigantescas, a cada dia mais rapidamente -, e devolvemos à nossa atmosfera a mesma imundície tóxica que a natureza precisou de um longo tempo cósmico para eliminar e torna-la possível à vida no planeta.

É um labor insano, predatório e autodestrutivo, para não dizer suicida, que nem sequer se justifica uma vez que, desde os inícios do século passado, contávamos com conhecimento e tecnologia suficiente para o proveito de outras fontes de energia que o mesmo sol e a natureza nos oferecem com muito mais eficiência e abundância, além de absoluta limpeza ambiental. Os rios, as florestas, os campos, os ventos, o mar, os raios solares, as águas e o próprio ar podem fornecer energia de alta qualidade e de sobra para a existência humana, enquanto ela perdurar na face da Terra, sem que se necessite envenenar o meio ambiente e a atmosfera do planeta.

Então, o que estará havendo com o homo sapiens? Teria perdido a sapiência?

A questão, porém, é mais simples; não precisaremos nos aprofundar em análises complexas do processo evolutivo da mente e da condição humana para decifrar tal contradição ou absurdo.

Até porque tal contradição já foi exaustiva e cabalmente decifrada por Marx em O Capital.

Trata-se da obra máxima jamais escrita sobre o tema que lhe dá o título e o paradoxo mais notável desde sua publicação, ainda no século XIX, é o fato de que os capitalistas se recusam a conhece-la e usam de todos os seus poderosos meios para impedir que seja conhecida e lida por quem quer que seja. Tal comportamento só se explica por saberem que aquela grande obra expõe, nua em pelo, a doutrina capitalista que fingem professar em nome da “liberdade”, da “democracia”, etc., para ocultar os interesses inconfessáveis que em verdade os movem e que nela são revelados e flagrados de maneira inquestionável.

Mesmo assim, a obra foi continuamente reeditada e traduzida em todos os idiomas e, ainda que seja mais conhecida do que lida, nunca deixou de ser estudada. Passados cerca de 150 anos de sua primeira publicação, seu conteúdo se imortalizou pela certificação científica que a própria história lhe assegura, não somente por sua persistente e assombrosa atualidade, mas também pelo talento estilístico com que foi lavrada. O que lhe confere, como bem o demonstrou o filósofo e expert marxista Ludovico Silva, a qualidade de obra de alto valor literário. O leitor pode também conferir (já foi, mas não é mais proibida no Brasil).

Marx demonstra que a civilização é regida pelas relações econômicas entre as pessoas e os povos dentro da realidade material do mundo em que vivemos. Isto porque é esta realidade material que, em primeiro lugar, mantem a vida e a sobrevivência da humanidade. Não há o que discutir, até aí.

A grande discussão proposta por Marx e Engels (seu parceiro de trabalho e pensamento), inclusive em O Capital, é o uso que se faz desses meios materiais de sobrevivência e a distribuição justa deles entre os seres humanos.

Tal questão permanece sendo debatida universalmente, inclusive aqui, nas edições de América do Sol. Nesta o tema é energia, a força que move a vida, a civilização e o trabalho produtivo, transformador das matérias primas em produtos com “valor de uso”, como definiu Marx.

A conclusão revolucionária de Marx em O Capital é que a civilização não tem outra saída para si mesma que não seja a reconquista do direito natural, aprimorado pelo processo civilizatório, de comunhão dos bens materiais entre todos os povos e seres humanos, cabendo a cada um o direito de valer-se deles de acordo com suas necessidades e a cada um o dever de produzi-los conforme suas capacidades. A fórmula é válida também para os chamados bens imateriais produzidos pelo trabalho intelectual e o conhecimento teórico e empírico, expressados nas artes, ciências, entretenimentos, religiões, na convivência social e nas experiências individuais.

Há inclusive grandes pensadores, como Hugo Chavez, ex-presidente da Venezuela, que reivindicam ser do termo comunhão que se deriva o termo comunismo.  Chavez considerava a doutrina cristã – a verdadeira e original professada por Cristo e não as que foram deturpadas pelas igrejas autointituladas “cristãs” – como uma doutrina essencialmente comunista; para ele Cristo fora o primeiro comunista e Judas Iscariotes, com seus 30 dinheiros, o primeiro capitalista.

Para Marx e Engels o capitalismo teve a virtude revolucionária de liquidar com o antigo e desumano sistema feudal, mas, desde ali, estava condenado à igual desumanidade por suas contradições intrínsecas e à obsolescência pelo advento inevitável do comunismo. Na época mesma em que escreviam suas obras já identificavam o sistema capitalista como em vias de tornar-se obsoleto por sua flagrante impossibilidade de dar solução aos graves problemas da humanidade. Com o comunismo a humanidade, justa e livre, ingressaria enfim em sua fase histórica e civilizada, relegando os sistemas anteriores à pré-história da civilização e aos tempos da barbárie.

Estamos vivendo este momento. Processos históricos tão fundamentais como este, que Rafael Correa, presidente do Equador, denominou “mudança de época” (e não uma “época de mudança”), costumam perdurar cerca de dois ou três séculos, período este em que, nas lições de Gramsci, o novo sistema ainda não terminou de nascer e o velho não terminou de morrer. Mas que pode ser abreviado por afluxos de maior consciência libertária por parte dos povos oprimidos em seus momentos críticos e revolucionários, como é o caso da Venezuela desde que Hugo Chavez e o MBR-200 – Movimento Bolivariano Revolucionário Bicentenário (de Bolívar) -, tomaram o poder.

No caso em exame, a passagem do capitalismo ao comunismo, podemos considerar como data inaugural de sua realidade histórica a da Revolução Soviética de 1917, experiência agora centenária, que, ao contrário do que propalam as empresas de comunicação capitalistas, foi muito proveitosa para a humanidade e abriu caminhos importantes para a harmonização da vida civilizada no Planeta Terra. Foi uma revolução essencialmente russa; a posterior expansão para a chamada União Soviética (URSS), nas dimensões em que se encontrava quando se dissolveu em 1991, foi em decorrência da geopolítica que se estabeleceu no entorno da Rússia após a 2ª Guerra e não revoluções espontâneas nos países que a formaram. Revoluções verdadeiras, porém, se seguiram na China, na Coréia do Norte, no Vietnam e no Irã.

Na América Latina (ou do Sol) a data-chave é a da Revolução Cubana de 1959, igualmente vitoriosa. Apesar de todo o cerco imperial capitalista contra a Nossa América, vários dos nossos povos já demonstraram potencial para segui-la. Recentemente, sob a liderança de Hugo Chavez e uma nova estratégia que ficou conhecida como luta revolucionária para o “Socialismo do Século 21” (“revolução pacífica mas não desarmada”), a Venezuela, a Nicarágua, a Bolívia e o Equador se destacaram, nesta ordem, na direção vitoriosa. Outros países, como Colômbia, Honduras, Chile, Argentina e Uruguai, ainda que permaneçam dominados por oligarquias e plutocracias, mantém vivos focos importantes de brava resistência contra a espoliação imperialista.

Como disse Simón Bolívar, “a história é grávida de futuro”. Devemos auscultá-la bem e com a consciência crítica pois é ela que nos ensina, na dura realidade vivida, sobre nossos erros e nossos acertos. Todos os povos e países que alcançaram a vitória revolucionária, e esta condição atinge hoje mais de um terço da população do planeta, saíram da ignomínia capitalista mais humilhante, miserável e degradada para a condição de potencias regionais e até mundiais como nos casos de Rússia e China. São emblemáticos os de Cuba, Vietnam e Coréia do Norte, pequenos países pobres e com poucos recursos naturais, cujos índices de bem-estar social se medem hoje no mesmo nível, senão maior, dos de países privilegiados pelo capitalismo imperialista (chamados impropriamente “países de primeiro mundo”). Além da dignidade orgulhosa de poderem ostentar as bandeiras da soberania e da independência de seus povos e países.

E quanto ao nosso Brasil, que parece permanecer “deitado em berço esplêndido” e sempre como o último na fila das vitórias libertárias? Fomos os últimos a abolir a escravidão e hoje permanecemos na lanterna do quadro revolucionário que se verifica em nossa região. Onde podemos encontrar pelo menos alguns dos nossos focos reais de resistência?

Temos aqui, na linha de frente do ASOL, os jornalistas Carlos Lopes e Sérgio Cruz conectados a alguns dos melhores craques do nosso primeiro time no combate contra a criminosa privatização – que se está tentando, mais uma vez, ser levada à cabo pelos novos e atuais lacaios que foram ilegitimamente entronizados no poder do governo federal – do último reduto da soberania nacional, a Petrobrás: o Prof. Ildo Sauer, ex-diretor da Petrobrás e diretor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo, Eugênio Mancini, ex-engenheiro da Petrobrás e Fernando Siqueira, diretor da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET) e representante da entidade no Conselho de Administração da estatal petroleira.

Marcello Guimarães, criador do autodesenvolvimento pelo ciclo do leite e do álcool, me dizia que “a pior coisa que pode acontecer ao Brasil é a descoberta de poços de petróleo”.  Isto foi muito antes dos “pré-sal”, descobertos depois de seu falecimento. A história nos ensinou que o petróleo, apesar da sua importância como matéria prima num dado momento do desenvolvimento nacional, só desperta a cobiça e o interesse nefasto das plutocracias apátridas e capitalistas. Matriz energética concentradora de riquezas e fomentadora de terríveis desgraças e injustiças, tem custado muito caro ao Brasil. Temos abundantes fontes de energia alternativas e limpas incluindo-se a melhor das matrizes energéticas que se derivam do sol: a energia da biomassa.

Poucos cientistas possuem a vivência que teve Bautista Vidal para falar sobre a energia da biomassa. Além de criador do vitorioso Pró-Álcool, na década de 1970, que, antes de ser demolido pela plutocracia entreguista, na década de 1990, chegou a alcançar o abastecimento automotivo de 98% da frota nacional, ele provou, numa experiência com alguns ônibus de transporte coletivo em São Paulo, que o óleo de dendê da Amazônia é muito melhor e mais eficaz do que o óleo diesel. Os ônibus rodaram, na cidade, fazendo uma média de 40 quilômetros por litro de óleo de dendê, sem poluir nem feder o ar. Segundo seus cálculos, a quantidade de óleo de dendê da Amazônia que poderia ser produzido a partir do acervo florestal existente no país (e conservando as florestas ao invés de destruí-las) é igual ou superior a produção de petróleo da Arábia Saudita.

Junto com o escritor Gilberto Vasconcellos, Bautista publicou o livro Petrobrás – Um Clarão na História onde os autores defendem a primazia mundial da nossa empresa petroleira em tecnologia de ponta nos diversos campos da produção de energia, em particular nas prospecções e perfurações em grandes profundidades marítimas, e no grande potencial da empresa, caso se mantenha nacionalizada e bem estruturada em todo o território nacional, para reger, coordenar e implementar a mudança de matriz energética no país para as fontes limpas, principalmente a da biomassa.

Em 2020 a China deverá ter a metade (50%) de seu gigantesco consumo de energia em bases exclusivamente solares e eólicas. No Brasil, país muito mais ensolarado do que a China, o aproveitamento das energias solar e eólica se situam em míseros 0,0008% do nosso consumo de energia. E ainda temos de organizar campanhas de mobilização popular para impedir o tenebroso processo de fracking com que ameaçam o nosso solo fértil. Ainda bem que a COESUS, entidade organizadora da Campanha Não Fracking Brasil, começa a ter êxito em seus propósitos de resistência.

O poeta e escritor Rodrigo Leste enfrenta, com seus versos e textos, tal como um David, os Golias multinacionais que infernizam o paraíso terrestre e agora querem se apropriar do Aquífero Guarani, um quase-oceano de água doce puríssima no subsolo do nosso continente.

A escola de samba Imperatriz Leopoldinense vai ao combate contra os agrotóxicos e as comidas-lixo neste próximo carnaval que, apesar da justa indignação com a “bosta mental latino-americana” em que nos chafurdamos, o cineasta José Sette vaticina como “o carnaval da criação do novo continente do Sol”.

Sob as luzes das iluminuras iluminadas do artista plástico e gravador Fernando Tavares, são estes alguns dos componentes de informação e opinião do nosso grão de areia de contribuição trimestral do América do Sol ao combate de resistência, heroico e bissemanal, do Hora do Povo.

– Há sol à beça aqui, disse Oswald de Andrade.

Que neste século possamos vingar Getúlio Vargas e transformar a Petrobrás na Solbrás. E que o capitalismo, com seu petróleo imundo e fedorento, vá para a pré-história e o olvido.

– Que viva Getúlio Vargas!

– Que viva Fidel!

– Que viva Hugo Chavez!

– Venceremos!

SOL - óleo sobre tela de Tarsila do Amaral

SOL – óleo sobre tela de Tarsila do Amaral

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