Fracking: a energia imunda que ameça o mundo

Silvia Calciolari(*)

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Definição de Fracking

 FRACKING – fraturamento hidráulico – é uma tecnologia altamente poluente usada para a extração do gás metano aprisionado em microbolhas no subsolo em grandes profundidades, num tipo de rocha chamada folhelho pirobetuminoso. Para sua extração, milhões de litros de água, misturados com areia e mais de 720 produtos químicos contaminantes, pelo menos uma dúzia deles radioativos, são injetados no subsolo sob alta pressão, fraturando a rocha.

A vida média de cada poço é de um ano e meio a três, restando na área tão somente deserto radioativo irrecuperável. Os milhões de litros de água contaminados perdem-se, parte no subsolo, parte em piscinas a céu aberto, contaminando os lençóis freáticos e os aquíferos e o solo. Com fracking, deixa-se de atender a consumos prioritários como o abastecimento humano, a dessedentação de animais, a pesca, a agricultura, a indústria e o lazer.

"Piscinas" de rejeitos a céu aberto nos EUA

“Piscina” de rejeitos de fracking a céu aberto nos EUA

Somente parte do metano liberado pelo fraturamento hidráulico é aproveitado, permanecendo o restante livre, tornando água e solo passíveis de incêndios, contaminando o ar e prejudicando a saúde humana e o meio ambiente.

Nas imediações do fracking nos EUA a água para cozinhar ou tomar banho costuma ficar assim.

Nas imediações do fracking nos EUA a água para cozinhar ou tomar banho costuma ficar assim.

Se não fosse o bastante, o gás liberado contribui para o aquecimento global e para as mudanças deletérias do clima, que põe em risco a sobrevivência de todas as formas de vida, inclusive a humana.

 

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Conheça as sete razões porque a COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida – e 350.org Brasil estão empenhadas em impedir que o fracking aconteça ao Brasil:

1 – Contaminação da água potável na superfície e fontes subterrâneas por até 720 substâncias químicas tóxicas, muitas cancerígenas e até radioativas. As três mais comuns são naftaleno, cloreto de benzilo e formaldeído. Além da contaminação, operações de fracking requerem bilhões de litros de água, que poderiam ser utilizados pelas famílias, animais e indústria, contribuindo para agravar o abastecimento nas cidades e no campo.

2 – Esterilização do solo, tornando-o infértil para agricultura, contaminando a produção e inviabilizando a pecuária e o turismo. O fracking afeta drasticamente a geração de emprego e renda, impedindo que licenças fitossanitárias certifiquem a produção. Para além dos impactos irreversíveis à economia, já há diversos estudos que comprovam a fragmentação do ecossistema de floresta, eliminando a biodiversidade e causando doenças em animais selvagens, domésticos e de produção.

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3 – Poluição do ar pelo metano, que após o fraturamento chega à superfície pelas milhares de fissuras no solo. O metano ‘fugitivo’ libertado durante as perfurações também chega às aos rios e às torneiras, tornando a água inflamável (com risco de explosões) e imprópria para o consumo.

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4 – Causa graves e irreversíveis danos à saúde das pessoas que vivem no entorno dos poços – num raio de até 80 quilômetros – onde o fracking acontece. Quanto maior a exposição – seja pela proximidade ou período de tempo – maiores são os danos. Estudos relacionam fracking como origem e causa de problemas respiratórios, cardíacos e neurológicos, ocorrência de diversos tipos de câncer, má formação congênita, esterilidade em mulheres e até o aumento da mortalidade infantil e perinatal, nascidos de baixo peso, parto prematuro e câncer em bebês e crianças.

5 – Terremotos são outro terrível efeito colateral já relacionado ao fracking, e que está trazendo medo às populações que convivem com a tecnologia. De acordo com o Serviço Geológico de Oklahoma, nos Estados Unidos, em 2015 foram quase 6 mil terremotos, 900 dos quais com magnitude 3 da Escala Richter, ou mais, de acordo com a Pesquisa Geológica dos EUA (USGS, na sigla em inglês). Ano passado, em maio aconteceu um forte terremoto de magnitude 5,6, que obrigou a evacuar uma cidade inteira do estado americano.

Mapa do aumento de terremotos nas áreas de fracking nos EUA (U.S. Geological Survey). Em estados como Ohio o aumento foi de 2 para 400 terremotos/ano em média.

Mapa do aumento de terremotos nas áreas de fracking nos EUA (U.S. Geological Survey). Em estados como Ohio o aumento foi de 2 para 400 terremotos/ano em média.

6  Fracking intensifica as mudanças climáticas, através da liberação de gases que favorecem o agravamento do aquecimento global. O metano (CH4) é 86 mais danoso à atmosfera que o dióxido de carbono (CO2). Vazamentos de operações de gás de xisto não só emitem gás metano, mas os do efeito estufa também, como os compostos orgânicos voláteis (COV) que contribuem para a poluição atmosférica ou ozono troposférico, e tóxicos tais como benzeno. Com fracking há maior incidência de seca, enchentes e tufões, além de variações radicais do clima.

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7 – Além dos impactos ambientais, econômicos e sociais, outro efeito devastador e perverso do fracking é favorecer a corrupção, uma vez que a indústria dos combustíveis fósseis não medirá esforços – nem recursos – para aliciar apoiadores nos países onde ela se instala e minimizar as consequências. Muitas dessas práticas condenáveis já são alvo de grandes investigações, revelando ao mundo os mecanismos que dão suporte para que essa tecnologia minerária ainda aconteça mesmo deixando um legado de destruição.

O verdinho acima é o que restou de área de cultivo atacada pelo fracking na Argentina.

O verdinho acima é o que restou de uma área de cultivo atacada pelo fracking na Argentina.

 

FRACKING: Ameaça ao futuro do Brasil

Em 2013, a Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP) realizou a 12ª Rodada de leilões e vendeu o subsolo de 372 cidades do Brasil em 15 estados. Proporcionalmente, o Paraná foi o estado mais impactado, com 122 cidades na rota do fracking.

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Notem, a ANP realizou o leilão sem fazer uma ampla consulta à população, aos movimentos sociais, ambientalistas e climáticos e aos gestores públicos. Quase de forma clandestina, a agência colocou em riso a vida de milhões de brasileiros, nossos principais aquíferos, áreas de floresta e regiões com grande performance agrícola e de pecuária.

Naquele mesmo ano do primeiro leilão, uma frente multissetorial de entidades se organizou em torno da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida para desenvolver uma campanha nacional para informar a população dos riscos e perigos da exploração do gás não convencional por fraturamento hidráulico, mobilizar para pressionar os gestores públicos e parlamentares para aprovar leis que proíbam a tecnologia e mostrar ao governo federal que o Brasil não quer – e não precisa – do fracking.

Em meados de 2014, a campanha Não Fracking Brasil ganha a parceria com a 350.org Brasil, movimento internacional que pede o desinvestimento em projetos fósseis e denuncia as mudanças climáticas em mais de 170 países. Em outubro de 2015, a campanha realiza um grande protesto na 13ª Rodadas de Leilões realizada no Rio de Janeiro e que teve grande repercussão internacional.

Marcha contra o fracking em

Marcha contra o fracking em Toledo, PR.

Desde então, vários outros parceiros têm aderido à luta contra o fracking, que ampliou significativamente seu alcance e abrangência nos anos seguintes. São eles estão a CNBB, a Cáritas Paraná, a Repas (Rede Evangélica do Paraná de Assistência Social), sindicatos rurais e de trabalhadores, academia científica, prefeituras municipais, Secretarias de Meio Ambiente, Profissionais autônomos, Engenheiros, Vereadores, deputados estaduais e federais, Senadores e Ministro de Estado, como Sarney Filho do Meio Ambiente.

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A medida que as informações sobre o fracking se espalham, mais cidades integram a lista com mais de 200 que já aprovaram projeto de Lei idealizado e sugerido pela COESUS proibindo o uso do solo para a exploração do gás de xisto. No Paraná, já está em vigência a Lei 18.947/2016 que proíbe o licenciamento para fracking por 10 anos, extensivo aos testes sísmicos e pesquisa. No Brasil, foi o primeiro estado a declarar a moratória para proteger as reservas de água, em especial o aquífero Guarani, a produção agrícola, o meio ambiente e a saúde das pessoas e animais.

FRACKING: Um inimigo comum

Embalados pelas vitórias internas, foi formalizada em novembro de 2016 a Coalizão Latino-americana contra o Fracking pela Água, Clima e Agricultura Sustentável, expansão regional da COESUS brasileira, reunindo na luta contra o fracking países como Uruguai, Argentina e Paraguai.

Onde o método já é utilizado, como Argentina e Estados Unidos, há severos e irreversíveis prejuízos ambientais, sociais e econômicos. Outros, como Alemanha, Escócia e França, já baniram definitivamente a técnica. Entretanto, com a baixa do preço do petróleo, o fracking ganhou força na indústria dos hidrocarbonetos, tendo na América Latina uma de suas principais portas de entrada.

Já foram mapeadas áreas para exploração na Bolívia, Chile, Colômbia, Venezuela, Paraguai, Uruguai, Argentina, Brasil e México, sendo estes três últimos os que contam com as maiores reservas de gás de xisto no continente. Muitas das áreas estão próximas ou sobrepostas a territórios indígenas, comunidades ribeirinhas, bairros urbanos, Áreas Protegidas, Unidades de Conservação e regiões produtivas.

Protesto contra o fracking na ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica.

Protesto contra o fracking na ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica.

As principais ações da campanha contra o fracking no Brasil e América latina podem ser conferidas na Retrospectiva 2016.

SIM para as Energias Renováveis

O Brasil não precisa do fracking e de nenhum outro hidrocarboneto. Defendemos o fim dos investimentos em combustíveis fósseis e a imediata prioridade para projetos em energias renováveis, 100% limpas e seguras e que possam ser acessíveis a todos. Temos um grande potencial para a geração solar, eólica e de biomassa, o que nos coloca num lugar privilegiado em relação a outras nações.

Países como a China, Índia, muitos da Europa e até os Estados Unidos, já tiveram a saúde de milhões de pessoas e seu meio ambiente sendo suficientemente prejudicados pela queima de combustíveis fósseis, muito decorrente do fracking. No Brasil, as reservas são insignificantes se comparadas a outros países, tornando inviável economicamente essa atividade. Para além do aspecto econômico, os impactos ambientais e sociais dessa exploração minerária demostram que ao insistirmos na exploração e queima do carvão estaremos na contramão da história. As energias renováveis já são mais baratas em 60 países, inclusive os mais desenvolvidos. Temos que acordar para a realidade: Fósseis são do século passado e estão com os dias contatos.

Protesto em Umuarama, PR.

Protesto em Umuarama, PR.

Links

Vídeo (animação) explicando a tecnologia – Legendado em português

Programa Cidades e Soluções sobre o Fracking na Argentina (2015)

http://naofrackingbrasil.com.br/2015/12/07/programa-cidades-e-solucoes-da-globo-news-aborda-a-exploracao-do-gas-de-xisto-por-fracking/

Documentário ‘La Guerra del Fracking’ (2013) do cineasta argentino e senador Fernando ‘Pino “Solanas’ sobre a devastação promovida pela indústria do fracking na patagônia argentina.

A Guerra Contra o Fracking – Por Fernando Pino Solanas

Documentário GasLand – Legendado em português (2010)

O Filme Terra Prometida que mostra o dilema de um corretor que tenta ludibriar os fazendeiros a deixarem a indústria do Fracking explorar em suas terras. Dublado

http://www.filmesonlinegratis.net/assistir-terra-prometida-dublado-online.html

Série de três reportagens produzida pela Rede teleSUS por Ignacio Lemus e Julia Nassif de Souza. Eles estiveram na Argentina em dezembro de 2016 na região de Vaca Muerta a convite da COESUS – Coalizão Latino-americana contra o Fracking pelo Clima, Água e Agricultura Sustentável – e 350.org América Latina para registrar e mostrar para o mundo a devastação para as pessoas, ecossistema e economia que a exploração de hidrocarbonetos provoca.

1 – Dizem em Neuquén que fracking contamina a água e a terra

2 – Comunidades Mapuches denunciam contaminação por fracking

3 – Advertem sérios danos que o fracking deixará em Neuquén

Artigos:

Você ainda não sabe mas é contra o fracking – Nicole Figueiredo de Oliveira

Fracking bate à porta – Juliano Bueno de Araujo

Fracking: Uma fratura no clima – Alexandre Costa

Precisamos falar de mudanças climáticas, e também sobre fracking – Silvia Calciolari

Pouso Alegre, a primeira cidade de Minas Gerais a proibir o fracking.

Pouso Alegre é a primeira cidade de Minas Gerais a proibir o fracking

 

Assembléia da COESUS - Coalizão Não Fracking Brasil (organização popular)

Assembléia da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil (organização popular)

(*) Silvia Calciolari é jornalista e editora de conteúdo do site da Campanha Não Fracking Brasil no Paraná.

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