Entrevista com Bautista Vidal

Introdução para esta reedição

A entrevista foi feita em 2002 num clima pré-eleitoral em que Lula despontava como favorito. Estávamos saindo do pior governo da nossa malfadada história e por isto havia uma grande esperança e otimismo por parte da população. Porém, este não era o caso do entrevistador nem do entrevistado. Deste último, seus prognósticos pessimistas se revelaram com uma contundência tal nos quinze que se passaram até hoje, que torna o conteúdo da entrevista de uma flagrante e surpreendente atualidade. Retorna aqui, ipsis litteris, incluindo-se o material fotográfico ali produzido. O leitor conferirá.

Para aquele pequeno círculo de céticos, de que participávamos, a única saída para o futuro do país seria o advento do Instituto do Sol. Tal futuro não houve por puro descaso, fruto da mais absoluta ignorância em matéria tão fundamental para qualquer nação, por parte das “novas” autoridades eleitas e acabou sendo enterrado, de maneira praticamente definitiva, com o falecimento de Bautista Vidal, em 2013.

Foi publicada no jornal quinzenal intitulado O Apito, que era impresso e distribuído em Alfenas, no interior de Minas Gerais, com uma tiragem de dois mil exemplares e não possuía página na internet.

Segue-se a ficha técnica da edição original:

O APITO – EDIÇÃO ESPECIAL

Facsímile da Edição Especial d'O Apito (01/08/2002)

Facsímile da Edição Especial d’O Apito (01/08/2002)

Vol. II – Nº 41 – 1 de agosto de 2002

O Apito: instrumento de sinalização, aviso, alerta; de coordenação e organização de conjuntos e alas. Jornal nacionalista, na acepção universalista do termo, ou seja, solidário com os povos do mundo que lutam contra a opressão imperialista.

Tema da edição: O processo civilizatório contemporâneo como dependente de energia tecnizada. A energia do petróleo e do carvão mineral como vetores principais do poder imperialista e sua força de opressão sobre os povos. A saída pela escola da biomassa.

Entrevista exclusiva com o cientista e professor

José Walter BAUTISTA VIDAL

Bautista Apito 2

Editor: Frederico de Oliveira

Apresentação: Gilberto Felisberto Vasconcellos

Perguntas formuladas por: Frederico de Oliveira, GilbertoVasconcellos, José Sette e Mario Drumond

Entrevistador: Mario Drumond

Fotos: Leo Drumond

Entrevista concedida em Belo Horizonte, no hotel Othon Palace, no dia 15 de junho de 2002, durante o Congresso do Sindicato de Farmacêuticos de Minas Gerais.

(A entrevista foi gravada em vídeo VHS com qualidade amadora)

Apresentação de Gilberto Felisberto Vasconcellos

Meus amigos e parceiros d’O Apito

Esta entrevista é histórica. O sul de Minas dá mostra de que desponta como vanguarda mundial na abordagem energética e tecnológica. Biomassa é EROS. Pulsão de vida. Vontade de existir e de viver do povo brasileiro. E o babalaorixá da escola da biomassa chama-se José Walter BAUTISTA VIDAL, que alguns confundem com BRASIL VITAL: a essência da nossa época.

A entrevista foi gravada em vídeo, pegando-o com som e imagem, o que aliás é o melhor jeito de apresentá-lo. J. W. Bautista Vidal é um excepcional homo loquens. Fala bem demais. Tem o dom da palavra e do pensamento. Trata-se de um comunicador audiovisual de primeira qualidade. Pensa falando e, simultaneamente, fala pensando. Igual a ele só conheci outro com essa capacidade de expressão oral: Glauber Rocha. O leitor verá se tenho ou não razão em vislumbrá-lo um dia Presidente da República, para materializar o programa social e político da biomassa. Andando de taxi em Juiz de Fora, conversa vai, conversa vem, o chofer me disse que só votaria num cara baixinho e corajoso que ele viu na televisão falando do álcool. Era o Bautista!

Temos gastado muita munição para tentar convencer algum presidenciável em 2002 rumo à biomassa no poder. Até agora nada de concreto aconteceu. Existe um bloqueio mental pesado, difícil de ser rompido. A alienação energética é uma praga, mas sem rompê-la nada feito – vamos continuar nesta dor desnecessária de ser brasileiro explorado e, daqui a pouco, em vias de sumir do mapa. Genocídio programado.

A saída pela escola da biomassa: Bautista Vidal.

Bautista Vidal e Mario Drumond

Bautista Vidal (BV) e Mario Drumond (MD)

MD: Prof. Bautista Vidal, a escola da biomassa é um projeto de miltância, de resistência?

BV: Está se tornando, não é? Porque a existência de uma solução natural, da preservação do equilíbrio termodinâmico da endosfera é tão evidente que todos nós que acreditamos nas suas possibilidades estamos nos transformando em militantes. Há vinte anos, depois que me aposentei, que me dedico exclusivamente a isso, viajando pelo Brasil, fazendo conferências. Os ambientes se abrem; os estudantes, os universitários, os militares, a Escola Superior de Guerra, ontem falei em São Paulo para quinhentos empresários e, claro, correntes fortíssimas da vida das pessoas estão tomando consciência disso. Entretando as estruturas do poder não tomam o menor conhecimento do assunto. E a coisa fica muito feia, não é? O mundo está em guerra por causa do petróleo. As torres de Manhattan, o Afeganistão, a questão dos palestinos… tudo isso é o petróleo.

MD: E o Iraque…

BV: Sim , o Iraque…

MD: O Sr. esteve há pouco no tempo no Iraque, não é?

BV: Estive.

MD: E o que andou fazendo por lá, com o Saddam?

BV: Lá tem um instituto chamado o “Instituto dos Sábios”, que tem 1200 anos de idade. Este instituto promoveu lá um debate sobre a globalização. Convidaram personalidades do mundo inteiro. E me convidaram.

MD: Algum outro brasileiro foi também convidado?

BV: Foram, foram convidados brasileiros ilustres, gente de muito peso, por exemplo, o Adriano Bernayon, que é um grande professor, o Nilson Araujo, que é também professor em São Paulo, ia também um senador do PDT, que na última hora não pode ir… mas fomos um bom grupo, gente bem selecionada… E a nossa opinião predominou na conferência. Tinha gente do Qatar, da Espanha, da Argélia, era um debate mundial. O Saddam queria saber se o Iraque deveria entrar na globalização ou não. E chamou gente de todas as correntes. Parece que internamente havia um grupo contra e outro a favor. E a posição brasileira foi unânime, isto é, absolutamente contrária. E ganhou essa posição. Mas foi uma coisa muito interessante. E nós fomos naqueles dias que os norte-americanos diziam que iam bombardear o Iraque. Fomos para lá já sob a ameaça de receber as bombas na cabeça. Mas como é que íamos deixar de ir; todos iam dizer que somos uns medrosos.

MD: Professor, voltando ao tema da militância. A militância pode ser feita no dia a dia, coletiva e individualmente, etc. O que o Sr. sugeriria às pessoas que gostariam de trabalhar em favor dessa grande ideia da biomassa? Como melhor contribuir para tudo isso?

BV: Para que isso venha a ocorrer, e já está ocorrendo, é necessário que se tenha um conhecimento profundo da questão. Porque a questão da biomassa é uma revolução mundial. É você sair de uma era, que já vem de duzentos anos, que é a era do petróleo e do carvão mineral, que aliás foi um projeto suicida porque foi um projeto que movimenta e depois acaba, pois o petróleo é fonte de energia que se esgota. E aí, você movimentar todo esse parque industrial, essa infraestrutura de transportes, telecomunicações, etc, com cuspe? Pois tudo isso é energia, sem energia nada disso funciona. Então nós temos a energia tropical, limpa, renovável, que vai resolver todo o problema do mundo, não há a menor dúvida. É preciso, portanto, conhecer; é preciso aprofundar. Em todo o tempo que estou nisso, desde a época do Ministro Severo (Gomes), eu esperava que essas ideias, que ferem interesses mundiais, provocassem represálias, debates, polêmicas… mas, nada. Isso porque eles não têm argumento, a nossa argumentação é imbatível. Então a saída deles é sabotar, eles fazem silêncio sobre tudo isso. A grande mídia brasileira, a grande imprensa, não nos permite um segundo sequer sobre essa questão. É um bloqueio que poderíamos dizer que é diabólico. Enquanto a televisão francesa já fez um programa de duas horas, a BBC de Londres fez um de uma hora e meia, que correu o mundo, a televisão brasileira nunca fez um programa nem de cinco minutos sobre o Programa Nacional do Álcool. Isso é porque essa gente toda não tem autonomia, são dependentes, dependem de dinheiro das companhias de petróleo, das fábricas de automóveis e, é claro, eles são servis. Mas, voltando à questão da militância que você abordou, temos o caso do Gilberto Vasconcelos, que é doutor em sociologia, grande professor, um homem muito independente; e ele ama a terra dele, ele defende a terra dele até as últimas consequências… O Gilberto escreveu um livro, que é o melhor livro que já foi escrito sobre o governo FHC, chama-se “O Príncipe da Moeda”, que tem um capítulo inteiro sobre o meu trabalho e a questão da biomassa! Um capítulo inteiro! E o Gilberto nem me conhecia! E eu sou surpreendido com aquele livro. Quer dizer, o Gilberto se tornou um militante, hoje ele é uma das pessoas que mais entende sobre o assunto nessa área de ciências políticas e sociais. É um dos mais preparados, ele sabe tudo… Por que? Ele se entusiasmou, ele se aprofundou, ele estudou. E é por aí que temos de construir essa militância. Uma militância competente, comprometida com a sua terra, com o futuro da humanidade.

MD: Sobre esse boicote da mídia, vem ao caso agora uma pergunta do Frederico de Oliveira, editor d’O Apito. A Biomassa escaparia do controle internacional do lobby dos controladores dos lucros dos combustíveis fósseis?

BV: A biomassa tem características muito peculiares. Ela só é possível onde tem muito sol. Ela não é possível nos países hegemônicos, pois todos eles estão situados em regiões temperadas do Hemisfério Norte. A alternativa deles seria então a de que “tomassem” o nosso território e fizessem plantations… (plantações altamente mecanizadas) Mas você há de convir que não seria fácil fazer plantations em oito milhões de quilômetros quadrados, não é? Por isso a grande estratégia que nós temos para essa questão, para que a biomassa continue nas mãos dos brasileiros, é descentralizar. Colocar em ação um milhão de produtores. Como é que eles vão controlar um milhão de produtores? Eles controlam quando são cem, duzentos, trezentos… mas um milhão!?

MD: Mas dizem que eles já estão comprando florestas, a Shell andou comprando grandes territórios de florestas no Brasil?

BV: Sim, hoje mesmo eu tive a notícia que eles já compraram oito usinas de álcool. Eles nunca tinham conseguido comprar uma usina de álcool. E são grupos estrangeiros. O Programa Nacional do Álcool foi feito religiosamente na mão de nacionais. Mas isso parece que já está revertendo, não é? Todos já estão sabendo que a solução mundial será através da biomassa, através do álcool, através dos óleos vegetais. E o importante é que a biomassa engloba tudo isso mais a madeira, o carvão vegetal. Para se ter uma ideia, só o óleo de dendê da Amazônia – e o dendê é um excepcional substituto do óleo diesel; você chega a fazer quarenta quilômetros por litro ao invés dos dez que fazem os motores a petróleo – poderá nos dar uma produção de oito milhões de barris/dia! De óleo de dendê! Oito milhões! Isso é a produção de petróleo da Arábia Saudita. Então você de repente torna o Brasil a maior potência energética do mundo, somente produzindo óleo de dendê da Amazônia.

MD: E o Sr. concorda com essa entrada de estrangeiros no projeto da biomassa?

BV: Não, de jeito nenhum. Nós coordenamos o Programa Nacional do Álcool. E os militares nacionalistas compraram essa ideia. Foi só no governo do general Figueiredo que começaram a pensar em entregar a grupos externos. A Volkswagen queria comprar usinas, fazer usinas. A Basf da Alemanha. Mas aí esses militares interviram e disseram “não, isso aqui é área estratégica”. Claro que quando estávamos no Ministério isso não era admissível. Mas agora com esse governo entreguista, serviçal aos interesses externos, eles entregaram o Brasil, entregaram o nosso patrimônio, entregaram a Vale do Rio Doce, a Usiminas, a Embraer, a Embratel. Esse é um bando de delinquentes, e, futuramente, haverão de pagar caro o mal que fizeram ao Brasil. Eles são entreguistas, têm a mente colonizada. E é claro que isso compromete a nossa vida, a vida dos brasileiros e o futuro da juventude, dos nossos filhos. Eles estão entregando o futuro dos nossos filhos a grupos externos que não tem nenhum compromisso com o nosso país. E estamos perdendo não somente a qualidade de vida mas também a dignidade humana. O homem para manter uma vida digna tem de ser independente, tem de ser justo. E um serviçal nunca é independente nem justo. Ele é o que é; um serviçal, um puxa-saco…

MD: Agora uma questão colocada pelo Gilberto Vasconcelos. Alienação tecnológica: natureza pródiga x pouca tecnologia. Esse eterno complexo de inferioridade das nossas elites. Como o Sr. vê essa questão?

BV: Olha eu tive que enfrentar esse problema no Brasil de frente: eu fui três vezes Secretário de Tecnologia do Brasil em nível federal. É que há um grande desconhecimento sobre o que é tecnologia. Um sujeito analfabeto, digamos assim, nesta questão, ele acredita que tecnologia é coisa criada por um povo louro, de olhos azuis… frescura, não é?… Não é nada disso. Tecnologia é agregação dos fatores abundantes na região onde se está produzindo. Por exemplo, o Brasil tem 98% do nióbio do mundo. Então o lugar mais adequado de se utilizar a tecnologia do nióbio é o Brasil, porque nenhum outro país vai querer entrar no risco de desenvolver uma tecnologia tendo como base um mineral que um país só detém quase toda a sua reserva mundial. O Brasil tem um potencial de combustíveis renováveis, que além de renováveis são limpos, para abastecer o mundo com energia sólida, líquida e gasosa. Entretanto, os pacotes tecnológicos que nos são impostos obrigam-nos a usar as formas sujas de energia. O que existe, além de uma grande confusão, é muita má fé. Pois nós temos uma grande abundância de fontes de riqueza e de poder. Na realidade a grande fonte de poder é a energia. Então nós somos uma superpotência energética desse planeta. Evidentemente, os países hegemônicos por essa via tecnológica, e por essa falsa consciência de idiotas que não sabem o que é tecnologia, como são as nossas classes dirigentes, acabam por nos colocar nas mãos deles. E ainda se atrevem a dizer que nós não temos tecnologia! Como que nós não temos tecnologia!? O período em que eu fui Secretário de Tecnologia no Brasil foi o período em que nós saímos desse modelo de dependência, que foi um modelo trazido pela CEPAL, quer dizer, foi a CEPAL que impôs essa situação de dependência. Mas na época nós não levamos em conta esse modelo e passamos a resolver os nossos problemas. E o que fizemos foi caminhar na direção das energias nossas, renováveis e limpas, o Programa Nacional do Álcool. E nos tornamos o único país do mundo que possui uma solução de energia muito superior à do petróleo. Claro que o norte-americano nunca poderá ter isso, porque eles não têm sol. E isso é lógico porque ninguém é maluco de usar tecnologia de coisas que não possui. Então nessa questão de energias renováveis e limpas nós somos a nação mais desenvolvida tecnologicamente do mundo! Nós temos o maior instituto de tecnologia do álcool do mundo. Vem norte-americano, japonês, alemães, tudo para aprender. Mas eles não tendo sol não podem aplicar lá. Nós somos capazes de realizar no Brasil uma tecnologia extremamente sofisticada, na faixa de aviões de pequeno e médio porte, como a da Embraer, que hoje fabrica as melhores aeronaves dessa categoria. E que é o primeiro item de exportações brasileiras. Nós hoje exportamos aeronaves para o mundo inteiro, inclusive para os EUA, com tecnologia altamente desenvolvida e nacional. Nós também conseguimos desenvolver uma tecnologia de prospecção de petróleo em grandes profundidades marítimas. Você já imaginou um lugar como dois mil metros de água, com aquelas correntes submarinas gigantescas, onde o homem nunca chega, tudo tem de ser feito por robôs, por automação? Pois a Petrobrás é a única empresa do mundo que detém essa tecnologia, nenhum outro lugar tem. O meu último livro, com o Gilberto, “Petrobrás, um clarão na história” prova isto. Porque a Petrobrás é a melhor empresa de Petróleo, é a única que é capaz de realizar prospecções em grandes profundidades marítimas. A Shell, a Esso…, nenhuma dessas têm! Então como é que nós não dominamos a tecnologia? Dominamos a tecnologia da aeronáutica, dominamos a tecnologia do petróleo, dominamos a da energia… Como é que não dominamos a tecnologia? O que acontece é que a classe dirigente brasileira – servil, que não utiliza a inteligência brasileira, que impede a inteligência brasileira de ser aplicada – fica numa dependência vergonhosa de tecnologias porcas e ineficientes. Essa é uma mitologia completamente falsa e que não bate com qualquer realidade. Eu não levei nem cinco minutos para botá-la por terra, não é?

MD: Vem agora uma questão colocada pelo José Sette, cineasta e colunista d’O Apito. Ele pergunta o seguinte: em que nível de preço deve chegar o petróleo brasileiro para que ele viabilize o álcool, se o grande argumento é que ele sempre foi mais caro, para o governo, que a velha e tradicional gasolina?

BV: Isso aí é tremenda mentira, ouviu, queira me desculpar. Isso faz parte da ignorância geral sobre a questão, sem estar desmerecendo quem fez a pergunta. Repare, vou lhe fazer a seguinte pergunta: o que você acha que é mais caro? Plantar um pé de dendê – nem precisa plantar porque ele já está lá – que leva quatro anos para crescer e fica quarenta anos produzindo. Você pega o coquinho, esmaga o coquinho, tira o óleo, filtra num filtro de papel daqueles de fazer o café e está pronto! Bota no motor e ele faz quarenta quilômetros com um litro. É mais caro fazer isso ou ir buscar petróleo a grandes profundidades no fundo do mar, a dois mil metros de profundidade, depois furar outros dois mil metros, e equipamentos e isso e aquilo? Só um idiota vai dizer que é mais caro, não é? O que há é uma tremenda picaretagem através de taxas de câmbio, que é uma taxa arbitrária e é uma arbitrariedade. Você torna qualquer coisa viável ou inviável através da taxa de câmbio. Há também os juros; você obriga ao empresário brasileiro pagar 60 a 80% de juros, enquanto que o empresário norte-americano paga 2%, o japonês paga zero. Como é que o empresário brasileiro, que paga essas taxas, vai poder competir com o empresário norte-americano e japonês que não paga nada ou quase nada? Só idiota que não sabe nem aritmética, não é? E com isso eles montam toda essa máquina de subjugação, irracional, e depois vem dizer que os brasileiros é que são incompetentes, despreparados. Repare que mecanismos absurdos estamos vivendo. E o governo, os ministros, as autoridades brasileiras participam desse jogo contra o país! Quem é que manda hoje no país? Quem manda no Brasil hoje são três agentes de bancos do sistema financeiro internacional: o Malan, o Fraga e o Gros. São agentes! O Malan é empregado do Banco Mundial; o Fraga é o homem do Soros, que é o dono da moeda e do narcotráfico mundial; e o Gros é empregado da Stanley Fischer, uma financeira norte-americana. Esses homens servem ao jogo e aos interesses dos grupos a que eles pertencem e esse jogo e esses interesses são contrários aos do povo brasileiro.

MD: Cabe aqui uma pergunta do Frederico, que eu acho interessante neste momento: a biomassa é uma proposta que engendra uma visão de desenvolvimento autossustentado e que desafia a globalização. Isso recria a perspectiva da guerra do Paraguai?

BV: (Risos) Olha, essa é uma pergunta complicada, porque, do nosso ponto de vista – não! Sobretudo porque nós podemos resolver a situação de países decadentes que estão no fim das suas reservas de petróleo. Estados Unidos, por exemplo. Eles possuem petróleo no seu território para quatro anos. Por isso que eles invadiram militarmente o Oriente Médio. O Japão para zero anos. A Alemanha para zero anos. E nós podemos ajudar a tirar esses países da decadência e da inviabilidade. Os decadentes são eles porque eles não têm soluções energéticas para o futuro. Evidentemente este fato nos coloca numa situação altamente privilegiada. O que é que está acontecendo com os países que detêm as maiores reservas de petróleo do mundo, hoje? O Irã, o Iraque, a Líbia… estão sendo massacrados! Por que? Porque eles são muito ricos. Então os outros que não possuem essa riqueza usam as armas – pois têm uma enorme capacidade para matar –  para tomar o que não é deles. Isso é roubo monumental, isso é delinquência sem limites!

MD: A própria Guerra do Paraguai não foi mais que um verdadeiro genocídio promovido pela Inglaterra, utilizando-se das elites brasileiras, argentinas e uruguaias para liquidar um país que estava com um projeto bem sucedido de desenvolvimento autossustentável.

BV: É verdade. Mas o Solano Lopez, no meu entender, ele não tinha uma visão de alianças possíveis. Eu não sei também se era possível fazer alianças, é difícil explicar. O fato é que ele feriu os interesses da Inglaterra e essa usou do Brasil, Argentina e Uruguai para destruir o Paraguai. Agora, repare o seguinte: a situação atual do petróleo é tão grave que não seria interessante para eles nos massacrar. O que devem fazer é permitir que nós os ajudemos fornecendo energia a custo muito baixo, que nós podemos fornecer. Por exemplo, os Estados Unidos estão produzindo álcool em grande quantidade a partir do milho. Só que a produtividade deles é muito baixa, custa pelo menos o dobro do que produzimos aqui no Brasil. Se eles comprassem o álcool na nossa mão, o álcool poderia custar para o norte-americano metade do que está custando. Agora, o interesse dos empresários norte-americanos é dizer não, nós queremos produzir o nosso próprio álcool. De certa forma, eles estão certos. Quem se comporta de maneira oposta são os idiotas dos dirigentes brasileiros que tiram a defesa da nossa produção para defender produtos estrangeiros. E isso nenhum país do mundo faz. Estão aí discutindo porque a agricultura brasileira é imbatível e por isso não abrem o mercado internacional agrícola. Mas se abrirem o Brasil toma conta do mercado mundial agrícola porque a nossa capacidade e eficiência de produção é de fato imbatível. Como é que a Europa vai competir com o Brasil? Como é que os Estados Unidos vão competir com o Brasil? Aí eles colocam sobretaxas como no caso da laranja, como no caso do álcool, como no caso do açúcar… e sobretaxa sobre sobretaxa! Com isso eles garantem a produção deles. E eu acho que eles estão certos. Nós tínhamos é que defender o nosso lado. Por que não procuramos promover o nosso desenvolvimento por iniciativas que eles nunca vão poder oferecer resistência? Eles não vão abrir mão de defender suas produções. Por que nós não pegamos os nossos 53 milhões de brasileiros que vivem na miséria e colocamos todos eles no mercado? Você tem um mercado de 53 milhões de pessoas que hoje não consomem nada. Então nós íamos crescer 20 anos acima do crescimento da China só com esse mercado interno! Olha que projeto fantástico! É lamentável que nenhum candidato a Presidência da República pense nessas coisas.

MD: Nisso, vem na mosca uma pergunta colocada pelo Gilberto Vasconcelos: a política nacional hoje (sucessão presidencial) e a Escola da Biomassa. A biomassa tem alguma chance de poder nesse quadro sucessório?

BV: Olha eu vou te dizer uma coisa muito séria, muito grave; mas é fruto de uma convicção que foi amadurecendo em mim ao longo do tempo. A chamada “política” (faz as aspas com os dedos) não é política coisa nenhuma! É banditismo! O sistema político está podre; ele não tem projeto, ele não tem alternativa, ele não tem defesa. Você veja o seguinte: os dois últimos presidentes, Fernando Henrique e Collor fizeram questão de não debater suas ideias. Isso porque eles não tinham ideias! Apesar de que o debate na televisão é uma vergonha: “o Sr. tem dois minutos para dizer o seu programa para o país.” Quer dizer, só um idiota faz uma pergunta dessas. Foi assim que as televisões brasileiras trataram os candidatos. Mas os dois que ganharam nem sequer foram lá! O que mostra a degradação, a desvinculação dessas pessoas com a opinião pública.

MD: Mas em relação à sucessão hoje?

BV: Nenhum deles tem projeto. E nem se interessam por ter. Está aí o Gilberto Vasconcelos escrevendo livros, provando que o Brasil pode ser um país muito rico, muito poderoso, e ninguém quer saber! E olha que o Gilberto nesse ponto tem sido insistente, não é? Ele pressiona inclusive aqueles que consideramos mais próximos de nós. E nem esses. Eu não quero citar nomes, na realidade todos estão na mesma linha… Por exemplo, o Lula. O Lula é uma pessoa razoável, eu acho que o Lula, como um homem do povo, tem colocações que são menos ruins do que as dos outros. Mas o time de economistas dele não entende bulhufas dessas coisas! Os tais economistas! Economistas parece que só sabem contar dinheiro, não entendem nada de natureza, de terra, de água, de riqueza propriamente dita. Eles não entendem do mundo concreto. As teorias econômicas excluem os fatos fundamentais da economia: a energia, a tecnologia e as matérias primas. O que entra é o papel pintado, que nem papel pintado é mais, ele agora é digital. E isso é dinheiro falso. E essa é a variável das teorias econômicas, que os economistas manipulam. Então não acertam uma, não é? Não tratam do mundo concreto, das maneiras de criar riquezas, de viabilizar o nosso povo. E isso é um desastre. Nós estamos encaminhando para a miséria! Nós temos 53 milhões de miseráveis; a Argentina tem 13! A nossa dívida representa 54% do PIB; a da Argentina é só 30! Então nossa situação é muito mais grave. Já foram levados 43 bilhões de dólares das nossas reservas; eles (o sistema financeiro internacional) chegaram e meteram a mão em 43 bilhões de dólares! Ficaram satisfeitos. Na Argentina não tinham de onde tirar. E agora? De onde vão tirar mais? Praticamente nós não temos mais recursos. As nossas grandes empresas estratégicas já foram todas praticamente entregues. A Vale do Rio Doce já foi entregue, a Usiminas já foi entregue, a Embraer já foi entregue, a Embratel já foi entregue… só sobrou a Petrobrás, mas mesmo assim, entregaram já 95% das bacias de Campos e de Santos a grupos externos! Agora a Petrobrás foi envolvida nessa picaretagem do gás da Bolívia! Nós temos o sistema elétrico mais integrado e mais limpo do mundo. E o mais barato! Enquanto o megawatt/hora de Furnas custa quatro reais, o megawatt/hora do gás da Bolívia custa cem reais! E você destrói o que custa quatro para construir o que custa cem, a título de quê? Para destruir o país, para tornar o país um país inviável?! Nós estamos caminhando para a ruína! E essa disputa agora para a presidência, eu digo, todos querem ser o De La Rua brasileiro! Que futuro melancólico nós temos pela frente!… E quem defende os interesses nacionais é taxado de retrógrado, nacionalista… Você já imaginou os Estados Unidos não nacionalista? Isso não existe! Os países europeus, o Japão!… Super-nacionalistas! Só nós é que não podemos ser… Quer dizer, somos um país de idiotas!

MD: Essa colocação sua dos 53 milhões de miseráveis brasileiros… Pelos meus cálculos, feitos a partir dos números do IBGE, eles são até mais do que isso. Os sem-terra, os sem-teto. Nisso temos aqui uma do Gilberto Vasconcelos: seriam os sem-terra os soldados da biomassa?

BV: Claro. Você imagina se o governo brasileiro tomasse uma decisão – mas tinha de ser em primeiro lugar governo, o que hoje não é; e além de governo tinha de ser brasileiro, o que hoje também não é; são serviçais de interesses externos – e resolvesse explorar os óleos vegetais para substituir os combustíveis fósseis? Eu perguntei ao João Pedro Stédile quantos sem-terra haviam no Brasil. Ele me disse – quatro milhões. Eu digo – é pouco, preciso mais. Eu preciso de seis a oito milhões de brasileiros para levar para a região da Amazônia, que é mais apta para produzir dendê, para que possam produzir oito milhões de barris/dia de óleo de dendê, que é um excepcional substituto do diesel e que permite um motor fazer rodar 40 quilômetros por litro. Nós virávamos a maior potência energética do planeta!

MD: Uma Arábia Saudita?

BV: Sim, mas a Arábia Saudita produz oito milhões de barris/dia hoje. Dentro de dez anos estará produzindo muito menos. Enquanto que o dendê vai é aumentar a produtividade. Então é preciso fazer a “marcha para o norte”. Os norte-americanos não construíram a sua grande potência fazendo a “marcha para o oeste”? Nós vamos fazer a “marcha para o norte”. E por uma coisa muito mais importante que é a questão energética. E também não é só nos transformarmos na maior potência energética do planeta… é ocupar a Amazônia. Que está em grande perigo de ser ocupada por grupos estrangeiros. Ou de vir para cá aqueles grandes formigueiros asiáticos. Pensaram até em estabelecer o Estado de Israel na Amazônia, na época! Felizmente isso não aconteceu. Aquele espaço vazio com toda aquela riqueza é extremamente vulnerável. Então só há uma maneira. Você não consegue defender militarmente a Amazônia porque as grandes potências têm muito mais poder militar do que nós. A única maneira de nós preservarmos a Amazônia em nossas mãos é ocupá-la com brasileiros. E temos toda essa gente, querendo trabalhar, querendo ir para o campo, querendo produzir, e sem nenhuma viabilidade. E ficam invadindo terras aqui no centro-sul e criando conflitos enormes. Então o processo de conduzir essa massa de trabalhadores, de gente que quer trabalhar, não só nos transformará numa nação muito rica como também nos garante a Amazônia, não é verdade? E mais ainda, isso vai contar com o apoio dos militares, porque os militares têm interesse em preservar a Amazônia nas mãos dos brasileiros.

MD: Temos agora uma questão colocada pelo José Sette: o Sr. acha que um governo de esquerda, interessado na identidade e nos interesses nacionais, se sustenta politicamente contra o império do norte?

BV: Primeiro essa questão: esquerda? Hoje, o que é isso? Temos quatro dimensões: as três espaciais e o tempo. Aí você só tem uma: direita-esquerda. Isto é uma dimensão. E as outras? Você já imaginou um sujeito de esquerda, para trás, para baixo e retrógrado? Temos de ter as quatro dimensões. Então o sujeito hoje de esquerda… o Fernando Henrique é de esquerda!!! E é um gangster contra o Brasil! O general Andrada Serpa, um patriota ilustre, era considerado de direita!? É claro que isso não reduz a pena de certos setores egoístas da sociedade de ter tomado no passado a designação de direita. A esquerda sempre foi mais comedida, foi mais humana, mas isso ultimamente tem sido deteriorado. Então, em primeiro, eu não gosto dessa designação. Em segundo, o seguinte: essa pergunta, que se refere especificamente aos Estados Unidos; eles só têm uma coisa realmente forte: a capacidade matar! Eles se especializaram em matar! Qualquer coisa, saem matando, não é? E matar é só destruir. O Brasil não tem a bomba nuclear. Outros têm e nós não temos. Foi o Fernando Henrique que assinou o tratado de não proliferação de armas nucleares. Eu não tenho vocação para virar torresmo! Eu tenho de ter uma bomba, porque se alguém quiser se atrever a jogar uma bomba em mim, sabe que vai levar pelo menos uma bombinha que seja, mas suficiente para matá-lo. Mas na hora que você assinou de não fazer a bomba você se definiu pela vocação de virar torresmo.

MD: Somos todos torresmos em potencial?

BV: O povo brasileiro hoje é torresmo em potencial! Não há dúvida nisso. Mas a bomba impõe medo porque ela mata, ela queima, ela destrói. Em contrapartida temos o maior potencial energético renovável e mais limpo do planeta. Que é só alimento, é energia, é bem-estar… nós temos uma bomba que é nossa, e só nossa, porque o sol é nosso e somos um continente tropical. Então temos energia para dar e vender para os norte-americanos, para os europeus, para os asiáticos, quer dizer, a nossa bomba é positiva! Claro que por ser uma bomba – ela é positiva, mas é uma bomba – eles não deixam a gente desenvolvê-la. A gente desenvolve eles destroem. O Programa Nacional do Álcool chegou a envolver 98% dos carros no Brasil. 98%! Agora é menos de 1%. Quer dizer, esmagaram o Pró Álcool. E hoje estão produzindo carro a álcool nos Estados Unidos, na Suécia, na Alemanha… e que não podem nem chegar aos pés dos nossos, porque eles não têm as mesmas possibilidades nossas.

MD: Não só o Programa do Álcool, mas parece que várias iniciativas nessa área. Sabemos de vários programas florestais da década de 70 que estão hoje abandonados. E aí começou essa onda de ecologia, o ecologismo chique, que é contra o corte das árvores, etc, fazendo parecer que as florestas são intocáveis e levando uma confusão para a cabeça das pessoas que pode até colocar, para elas, o projeto da biomassa como se fosse um perigo predador. O que o Sr. pensa a respeito?

BV: Esses ecologistas são uns idiotas. Pois a única maneira de se preservar uma floresta é dar a ela valor econômico. Assim o próprio usuário da floresta será o maior interessado em mantê-la de pé. Se não se der valor à floresta ela vai acabar se tornando pasto. Quer dizer, é uma estupidez esse negócio de ecologia visto por esta ótica. Isso está ligado à ONGs internacionais que por sua vez estão ligadas a interesses internacionais. Ter a floresta sempre, e renovável, é o grande objetivo nosso. Somos ecologistas no sentido sério. Pois é preciso dar sentido econômico ao nosso potencial florestal. E você disse muito bem. O Programa Nacional do Álcool é apenas a pontinha desse imenso iceberg. Temos a floresta que é um manancial inesgotável de riquezas. Você ao invés de estar trazendo gás da Bolívia poderia estar produzindo energia elétrica a partir dos carvões vegetais.

MD: Com mais potencial inclusive do que as próprias hidrelétricas, não é?

BV: Claro, não há a menor dúvida sobre isso. Porque a hidroelétrica tem seu aproveitamento somente onde existem quedas d’águas importantes. Veja Itaipu. Está lá, não tem jeito, mas temos de fazer as linhas de transmissão. Com a floresta não, você planta a floresta onde quer. E aí não precisamos das linhas de transmissão. Por exemplo, o bagaço de cana que é produzido hoje em São Paulo a partir do açúcar e do álcool. É uma quantidade gigantesca de bagaço. Se você pegasse esse bagaço e queimasse para produzir energia elétrica seria uma produção do tamanho da de Itaipu! Sem que fossem necessárias linhas de transmissão. Está tudo lá mesmo! É usar a matéria prima que está em São Paulo para produzir energia em São Paulo!

MD: E o que fazem com esse bagaço?

BV: Hoje é um problema. Aquilo apodrece, algumas empresas usam para a engorda de gado pelo vinhoto enriquecido de proteínas, e mesmo assim são soluções que não contam com facilidades de crédito, porque todo o sistema financeiro no Brasil trabalha para impedir a solução nacional. O BNDES por exemplo tem como prioridade máxima o aproveitamento do gás da Bolívia! Mas não quer saber do aproveitamento do bagaço que está em São Paulo a custo zero. Isso é de uma perversidade sem limites. Esse tal jogo, que numa pergunta anterior você se referiu a respeito dos custos dos combustíveis… Na hora que misturamos álcool na gasolina nós estamos tirando o chumbo da gasolina, que é o antidetonante. E o chumbo é um metal pesado, um veneno perigosíssimo. Assim o álcool permitiu ao Brasil tirar o chumbo da composição da gasolina. Por causa disso centenas de milhares de pessoas tiveram suas vidas mais longas. Milhões de pessoas deixaram de sofrer doenças causadas por aquele veneno terrível! E isso os economistas não levam em conta!? E a questão do emprego: o Programa Nacional do Álcool criou mais de um milhão de empregos. O que faz o Lula defender, ainda que de maneira parcial as nossas teses – porque ele não entende muito, ele não tem assessoria – é justamente por este lado do trabalho, do emprego, que é também da maior importância. Mas tem outras coisas igualmente importantes. A despoluição do ar, a retirada do chumbo da atmosfera, e até o efeito estufa, essa coisa que está apavorando o mundo e que pode provocar cataclismos descomunais, que é provocado pela queima do carvão mineral e dos combustíveis fósseis, será eliminado pelo uso do álcool e dos óleos vegetais usados como combustíveis. Porque a planta retira do ar muito mais CO2 do que a sua queima depois irá colocar na atmosfera. Nós já fizemos cálculos que resultam em centenas de milhões de toneladas de CO2 que o Programa Nacional do Álcool já retirou da nossa atmosfera! O que esse Programa já trouxe de economia para o país, se computarmos o petróleo que deixamos de importar, os empréstimos que deixamos de fazer, a inflação do dólar e outros fatores econômicos, computando tudo isso, nos vinte e oito anos do Programa Nacional do Álcool o Brasil teve uma economia de 82 bilhões de dólares! Nunca existiu nada nem que chegue perto de um terço disso! Nenhum setor industrial no Brasil teve uma consequência tão fantástica! E evidentemente é produto altamente anti-inflacionário, porque é um produto que se renova sem nenhum ônus adicional. Quer dizer, só essa economia monetária já justificaria termos isso como base da nossa economia, não é? Enfim, não existe no Brasil nada que se compare em resposta de colocação do homem no trabalho, em benefício ambiental, em resposta financeira, e também, em resposta de tecnologia, que transformou o Brasil na maior potência em tecnologia do álcool do mundo. Isso não é trivial, nunca será trivial!

MD: O Sr. citou o Lula. Parece que o Sr. tem conversado com as diversas correntes do pensamento nacional sobre esse assunto. O Sr. já conversou com Leonel Brizola e os representantes das correntes de velho e saudoso Getulismo?

BV: Sim, já. Ultimamente o Brizola até tem me chamado. Eu falei outro dia durante quatro horas para a cúpula do PDT e o Brizola me disse depois que ele tinha mudado com aquela palestra. Ele me confessou que antes não havia captado bem o significado de tudo isso. Mas ele foi a única pessoa do nível de estadista, de Presidência da República, que passou cinco horas discutindo comigo esta questão. Nenhum outro fez isso.

MD: Ele agora está apoiando o Ciro Gomes…

BV: Estava, parece que as coisas não andam dando certo. O Partido do Ciro resolveu colocar aquele Brito como candidato ao governo do Rio Grande do Sul. De fato, segundo ele me falou, por influência do Mangabeira Unger, ele estava acreditando que o Ciro poderia ser o candidato mais próximo do Trabalhismo e do Getulismo. Embora o Ciro, como Ministro, foi um desastre. Foi ele que abriu o mercado do Brasil. Nós éramos um país com o terceiro maior superávit do mundo e hoje somos altamente deficitários, porque o Ciro provocou isso. Ele chegou a falar a bobagem de que ia privatizar espetacularmente a Vale do Rio Doce. E pior do que foi é impossível! Então o passado do Ciro não é bom! Mas as pessoas mudam, ele é jovem, é um sujeito inteligente; e o Brizola estava me dizendo que o Ciro o estava ouvindo. Mas parece-me que as coisas não andam indo tão bem…

MD: O Lula não quis ouvi-lo? Nem vou falar de Serra e de Garotinho porque estes sabemos que não teriam interesse algum em seu discurso.

BV: Não, Serra, de jeito nenhum. O Serra é o desastre. Mas não, o Lula não quis me ouvir. O Lula tem alguma sensibilidade por causa do número de empregos que o programa gera, mas só por isso. Ele não vê a questão tecnológica, a questão da soberania, a questão energética propriamente dita. Ele não vê a possibilidade de o Brasil vir a ser a maior potência energética do mundo. Ele não vê nada disso. Ele só vê a questão do emprego, pelo número de trabalhadores aproveitados. E por isso ele é o mais próximo de ter interesse pela coisa. O problema do Lula é que ele enxerga o Programa Nacional do Álcool como um Programa dos usineiros, e ele vê os usineiros como verdadeiros diabos. O que não é verdade. Aí existem deformações sérias por parte do Lula que eu espero – como ele é uma pessoa bem-intencionada – que ele venha a reconsiderar.

MD: Mas esse discurso do Lula como candidato está me surpreendendo. Parece que ele quer mesmo é continuar a ser um outro Fernando Henrique.

BV: É verdade. Em primeiro lugar porque a figura do Lula hoje é uma figura feita por marqueteiros! Perdeu completamente a identidade!

MD: E os marqueteiros, como já disse o Gilberto, são formados em madureza.

BV: O que esses marqueteiros sabem de Brasil, de poder mundial? São uns idiotas! E picaretas, mentirosos, embromadores… Ficam penteando o cara com um penteado todo frescão e por isso acham que ganham a eleição. Assim não dá! Um país sério como o Brasil não pode entrar nessa. Isso é um crime contra o Brasil! Além disso tem os bandidos dos economistas. Que são iguais a eles e que estão levando o Lula para um caminho perigoso.

MD: Quero relembrar agora aquela sua colocação sobre as coordenadas ideológicas, que eu achei muito interessante a sua teoria a respeito. Professor Bautista Vidal, como o Sr. se classifica ideologicamente?

BV: Rapaz, essa pergunta é realmente de lascar… (risos) Repare o seguinte: eu fiz uma palestra antes-de-ontem para quinhentos empresários de São Paulo. E eu bati como ninguém da oposição jamais bateu. E com dados, com fatos. E eu disse a eles: olha, eu não me permito nenhuma influência ideológica, e quando digo ideológica me refiro a essa questão esquerda-direita. Eu usei exclusivamente a Ciência como base da minha argumentação. E, claro, quando se fala pela Ciência os argumentos ficam imbatíveis porque a Ciência é o que há de mais sólido no pensamento humano. E um fato irretorquível, parece que os brasileiros se recusam a aceitá-lo, é o de que o Brasil é um continente tropical. As futuras civilizações, após a era do petróleo (que está próxima do fim) só poderão existir nas regiões tropicais. Porque não havendo petróleo nem carvão mineral não será possível desenvolver nada nas regiões temperadas. Pois o sol é a grande fonte de energia. Quem tiver sol poderá existir, poderá se desenvolver. Quem não tiver sol vai ter de procurá-lo, ou então vai ter de ser ajudado por quem tiver sol. Portanto o Brasil é a nação predestinada a conduzir o processo da humanidade se o processo vier a ser limpo. Se o processo continuar sendo pela matança, nós não temos vocação para matar…

MD: É como dizia o Darcy Ribeiro: no Brasil a pena de morte não tem vez porque nós não teríamos quem assumisse a profissão de carrasco.

BV: De fato seria difícil ser carrasco no Brasil. Já alguns povos adoram o carrasco. Adoram matar. Suas televisões são só matar, matar, matar…

MD: Mas voltando à pergunta, que é do José Sette: como o Sr. se classifica ideologicamente?

BV: Olhe, eu não consigo me classificar a não ser como um intelectual. E o intelectual é, para mim, o indivíduo que tem compromisso inarredável com a verdade. Eu tive discussões tremendas com o Cristovão Buarque, por exemplo, quando eu estava na Universidade. O Cristovão aceitava tergiversar a verdade porque o povo queria ouvir isso ou aquilo. Ora, o povo vê TV Globo, etc, está com a cabeça mal feita e ele negava a verdade para ficar bem com o povo. Eu não faço isso. Apesar de que algumas verdades não são bem vistas, como é que eu vou mudar um mundo que eu não aceito se eu não disser a verdade? Eu preciso de conhecer esse mundo tal como ele é; o que ele tem de bom e de mau. Isso para mim é uma coisa fundamental: a verdade. A outra é a questão da justiça. A vida humana, que não tem tamanho, é uma coisa transcendental. E vem aí um outro conceito fundamental que é o da dignidade humana. E esses conceitos, a verdade, a justiça, a dignidade, a Ciência não cabem muito nessas esquematizações ideológicas vigentes. O Ortega y Gasset, grande pensador espanhol, na época da guerra civil, era acusado pela direita de soviético e pela esquerda de fascista. Ninguém conseguia era entendê-lo.

MD: De fato as grandes cabeças sempre tiveram esse problema. Ninguém os aceita nem de um lado nem de outro.

BV: É porque essa conceituação é extremamente imprecisa e que obscurece o caminho da verdade.

MD: Aí tocamos num ponto onde vem ao caso uma pergunta do Frederico: a biomassa passa uma sensação de liberdade e delícia. Significa que Deus está do nosso lado?

BV: Não há a menor dúvida. A biomassa não é só energia; a origem da vida é pela biomassa. São os hidratos de carbono que permitem a vida. Há alguma coisa mais sagrada, mais vinculada a Deus do que a existência da vida? E a manutenção da vida? Além disso a biomassa não é só energia, é alimento, que é uma forma energética. E alimento é vida. O Gilberto levanta muito esta questão; as grandes religiões ainda não enxergaram essa coisa clara que é papel religioso da biomassa! E ele tem razão. Há alguma coisa mais sagrada que a vida? Eu não conheço. Deus só pode estar vinculado à vida, não é? À preservação da vida, a alegria de viver, que está muito arraigada na nossa cultura. Então como é que nós vamos partir para estes modelos materialistas brutais, que não levam em consideração a vida acima de tudo? E a vida é o próprio espírito.

MD: O Instituto do Sol tem também o seu lado espiritual?

BV: Na realidade a primeira religião monoteísta foi criada pelo faraó Akenaton IV. Deus era o sol. Ele tem um poema que é um verdadeiro hino ao sol e que é um verdadeiro tratado de termodinâmica escrito quatorze séculos antes de Cristo. E que é uma maravilha, como Poesia e como Ciência! E na realidade, quando você analisa o mundo físico, tudo depende do sol. A energia depende do sol. Além disso a energia é a capacidade de produzir trabalho. Se você não ingere energia pelo alimento, você não consegue trabalhar. Quer dizer, o trabalho é decorrência da energia! Até Marx derrapou nisso. O Marx não viu que a energia precede ao trabalho. Ele dá uma ênfase muito grande ao trabalho humano, mas esqueceu que a base desse trabalho é a energia.

MD: É o velho ditado brasileiro: saco vazio não pára em pé.

BV: É isso mesmo, tá boa essa (risos).

MD: Voltando à velha Terra, o José Sette lhe pergunta o seguinte: o Sr. pretende participar do próximo governo, já que participou do governo militar?

BV: Está bem desafiadora a pergunta (bem-humorado). Repare: eu era um professor, tinha feito a minha pós-graduação nos Estados Unidos e, modéstia à parte, eu sempre fui muito estudioso, sempre fui muito respeitado por todos… Mas eu não era nada, o meu pai era um pequeno comerciante; eu não tinha nada em que me fundamentar dentro desse sistema de poder que está aí, de gente que tem muito dinheiro, que tem família poderosa… Mas aí o Luís Vianna Filho, que era o governador da Bahia me chamou para fundar a primeira Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia. Eu aceitei o desafio! Quando ele me convidou eu disse – olha Dr. Luís, eu acho que não vai dar certo porque a Ciência é meio incompatível com a Política. Então ele virou-se para mim e disse – você quer dizer politicalha! Quer dizer, matou a pau, não é? Aí eu tive de confessar que eu estava mesmo falando de politicalha. Ele então me disse – se eu não fosse fazer esta secretaria completamente fora disso que você está falando eu não a criaria nem o chamaria para dirigi-la. E cumpriu!

MD: E o Pró Álcool saiu dela?

BV: Não. O meu papel naquela Secretaria de Estado – eu tinha trinta e dois anos – criou tais consequências que eu fui chamado pelo governo federal. O Hélio Beltrão me chamou para o Ministério do Planejamento que era onde estava sendo montada a questão tecnológica nacional. Foi o Ministro Hélio Beltrão, que era uma grande figura! Então eu passei quase dois anos participando da montagem dessas estruturas tecnológicas todas, e o Severo Gomes, quando foi para o Ministério da Indústria e Comércio me convidou para ser o Secretário de Tecnologia Industrial. Foi aí que eu implantei o Programa do Álcool. Com todas as coisas erradas que a gente tem de reconhecer no período militar, eu posso dizer que os militares me deram total cobertura, me criaram os meios, não interviram, eu fazia o que eu achava que era necessário. Eu jamais aceitei interferência de ninguém. E saiu o Pró Álcool e muito mais coisas; teve o Programa do Nióbio, e dessas tecnologias todas que surgiram. Nós tínhamos na área tecnológica dois mil pesquisadores de altíssimo nível… Tudo isso foi destruído. Eu orientava e coordenava 160 centros tecnológicos, criamos os Centros Tecnológicos da Bahia, de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul… Foi a época áurea da tecnologia nacional.

MD: Essa destruição começou nessa última década?

BV: Começou com o governo Figueiredo. E depois, com a “abertura” foi o desastre.

MD: Mas essa abertura foi na verdade uma abertura para que os capitais estrangeiros entrassem no Brasil…

BV: Foi. E nós havíamos conseguido colocar todas essas empresas estratégicas, a Petrobrás, a Eletrobrás, a Vale do Rio Doce, na questão tecnológica. Elas então começaram a fazer coisas muito importantes. E, na minha opinião, elas foram internacionalizadas, isto é, retiradas do contexto nacional, porque elas iriam fazer a grande revolução tecnológica do Brasil e do futuro. Eram instrumentos muito capazes, com muito dinheiro, com riqueza específica… Na realidade este processo neoliberal, que já começou com Delfim Neto no governo Figueiredo, significa romper, quebrar a nossa espinha dorsal. Hoje somos um país de idiotas, um país à deriva, sem tecnologia, com as universidades em decadência; somos um país retrocedendo barbaridade a antes da Revolução de 30. Tudo que aconteceu de 30 para cá está sendo perdido e nós estamos retrocedendo a uma situação pior do que a da República Velha! Porque a República Velha era completamente entreguista; o Império inglês fazia o que queria, mas eles não vinham aqui para dentro, para comandar o processo. Agora vêm! E tem seus agentes, o Banco Central, Ministério da Fazenda, etc. É muito pior do que era no século XIX.

MD: Mas ainda a primeira parte da pergunta: o Sr. pretende participar do governo do próximo Presidente da República?

BV: Não, eu não pretendo participar de governo nenhum se não for para ajudar o Brasil a erguer sua cabeça e garantir a sua independência. Senão, me recuso, ostensivamente! Porque essa história de participar de governo, você termina se comprometendo. Como é que você está lá dentro?… Ou você tem condições de protestar, ou há compromissos sagrados de salvar este país, ou eu não vou participar de governo algum. Aí alguém diz – ah, você entra lá e lá dentro você resolve… Não, não, não! Tem que haver compromissos. A questão nacional é uma questão sagrada. É a vida dos nossos filhos e nós não temos o direito de destruí-las! E é o que está sendo feito hoje. Nós brasileiros estamos nos comportando hoje como uma coletividade de canalhas! Eu não aceito essa posição. Nós temos de reverter esse processo, temos de dar dignidade ao nosso povo, temos de criar condições de vida para os nossos descendentes e – por que não? -, criar a grande nação que o mundo jamais viu.

MD: Agora eu gostaria que o Sr. falasse um pouco sobre o Instituto do Sol, que o Sr. estará inaugurando na segunda-feira em Brasília.

BV: Nós que nos dedicamos a essas funções – você é que usou a palavra militantes, não é? – nós somos militantes. Eu dedico a minha vida totalmente, de manhã, de tarde e de noite. Eu tive de pedir minha demissão, eu era assessor do Congresso Nacional, para poder viajar, porque era incompatível. Eu me aposentei na Universidade para poder viajar. E eu perdi essas fontes de renda, eu tenho agora só a aposentadoria. E nessas viagens, na quase totalidade delas, eles pagam as passagens, as estadias e eu não tenho nenhuma recompensa financeira. É uma missão. Claro que a família protesta, e eu acho isso bastante justo… Mas eu já sou conhecido na rua, por onde eu passo, em Florianópolis, eu já sou conhecido. Eu estive na semana passada no Rio Grande do Sul, estive em Torres, em Porto Alegre, em Santa Maria e outras cidades e onde eu cheguei falei para quatrocentas, quinhentas pessoas… E aplaudido de pé; o povo brasileiro não aguenta mais, está revoltado. Mas isso não reflete na sociedade porque os meios de comunicação bloqueiam esse assunto, é como se estivesse todo mundo idiotizado. É como se fosse tudo Silvio Santos e Faustão. E não é nada disso! O que há é que as organizações estão fragmentadas e o que acontece não é refletido nos meios de comunicação. É um bloqueio total e absoluto. Nos meios estudantis, universitários, onde os jovens são mais consequentes, eu começo falando para eles: vocês só têm duas alternativas na vida, ou vocês vão ser escravos ou canalhas! Nossa conversa é assim! E os jovens não estão interessados? É porque mentem para eles e eles não se interessam por mentiras. Mas quando você fala a verdade… Nós passamos quatro, cinco, seis horas discutindo, e eles participando, e tem momentos em que eu tenho de segurar, porque eles já querem pegar em armas (risos). Eu digo, calma, ainda não chegou a hora, entendeu? É porque o jovem é muito espontâneo e reage às coisas verdadeiras, eles se envolvem. Você sente que este Brasil está pegando fogo. E está faltando líderes…

MD: E o Instituto do Sol já possui algumas estratégias de buscar ou formar essas lideranças?

BV: Nós estamos começando. A ideia surgiu como uma necessidade inadiável. Primeiro que as editoras, e pior que as editoras, as distribuidoras, se recusam a distribuir os nossos livros. Os nossos livros não chegam às livrarias!? Porque há um bloqueio completo. Por exemplo, nos aeroportos… você não vê jamais um livro meu, ou um do Gilberto… É vetado! Então essa imensa dificuldade em veicular os nossos livros, eu já estou editando o 14º, e eles todos tiveram duas edições; são seis mil livros vendidos – que é uma coisa excepcional para o Brasil. Mas isso não é nada para esta questão; um livro com este envolvimento tinha de vender um milhão de exemplares. E vende seis mil, é ridículo. Mas esses que vendem são o fruto do boca-a-boca. Pessoas, professores, estudantes: onde é que encontra? Liga prá ele, etc. E fica um pouco complicado. Então o Instituto do Sol vem para preencher este vácuo. É uma entidade sem fins lucrativos, organizada por um grupo de amigos e que vai colocar essas ideias na Internet, apoiar e incentivar a militância, enfim, organizar o movimento.

MD: A ideia d’O Apito, por exemplo, não é a de ser um grande jornal, mas a de ser um dos muitos pequenos jornais que possam se sustentar sem a dependência dos grandes anunciantes.

BV: Isso é muito importante. E eu dou uma importância muito grande ao livro porque o sujeito que lê um livro ele se enriquece, ele adquire uma cultura que ele não tinha. Mas uma coisa que tem um sucesso enorme é a televisão. Por exemplo, na época do apagão a TV Senado me convidou e fez um programa de uma hora comigo sobre o apagão. Sabe quantas vezes o programa foi repetido, a pedido dos telespectadores? 37 vezes! Eu nunca vi uma coisa destas, numa mesma televisão repetir o programa 37 vezes. Isso é porque as pessoas estão desesperadas, querendo saber a verdade! A televisão educativa do Rio Grande do Sul fez um programa comigo de uma hora e meia. E esse foi o teipe mais vendido da história da televisão brasileira, sabia? Todo mundo pedia, porque um via falava para o outro e aquilo foi se alastrando…

MD: E agora é o Instituto do Sol que vai coordenar tudo isso?

BV: Sim, e a diretora executiva, que foi uma alta funcionária do Banco do Brasil, é uma pessoa altamente capaz. E já temos vários outros que estão se juntando para dar força… é uma coisa de missão, não é? Além disso, essas minhas palestras terminam com as pessoas se identificando. Ontem em São Paulo o número de pessoas, de um lugar conservador como a FIESP, que manifestou a sua repulsa ao que está acontecendo no Brasil é impressionante. Agora no aeroporto eu estava passando e um sujeito me disse: o Sr. é o Bautista Vidal? Eu disse, sim. Ah, eu tenho um livro seu, e eu hoje estou aposentado, eu trabalhei na Vale do Rio Doce, etc, – um senhor assim de idade e com um know-how fantástico – e ele me disse, conte comigo! Então eu peguei o cartão dele. Aí o Instituto vai fazer um cadastro de quem é quem no Brasil. Porque tem muita gente querendo participar do processo e que nem é identificado. Na hora que nós tivermos este exército, podemos até fundar o partido político de defesa da biomassa, dos interesses nacionais, e sem conotação ideológica. Defender o que é nosso!

MD: Nós também viemos de uma luta grande na área da cultura, do jornalismo, do cinema, e isso desde muito moço, desde a juventude. O que acontece agora é que a juventude não tem mais acesso à informação. Antes nós fazíamos filas enormes para ver um filme do Glauber, por exemplo, e hoje a maioria da rapaziada nunca viu nenhum.

BV: Você já pensou se o Glauber tivesse a biomassa na mão, na época em que ele viveu?

MD: Poxa, nem pense. Aliás o Glauber faz uma falta danada. Esse pessoal reacionário tinha um medo danado dele.

BV: É, ele escandalizava.

MD: E toda essa geração está assim por causa da mídia. Aliás foi um grande erro dos militares. Eles se preocuparam com a tecnologia nacional mas entregaram a mídia.

BV: Os militares fizeram um bom trabalho nessa área energética. Agora, eles entregaram o poder financeiro aos bandidos. Esse é o grande pecado dos militares. A mídia e o poder financeiro entregues a bandidos foram os dois grandes pecados dos militares. Eles fizeram um mal enorme, mas depois que os militares saíram o diabo ficou solto! Muitos erros tiveram os militares, mas nenhum deles pretendeu internacionalizar nossas empresas estratégicas. O próprio Roberto Campos nem cogitava disso, porque os militares enquadravam o bicho na hora! Agora fazem o que querem.

MD: Eles foram iludidos pela mídia. A mídia hoje se sente no poder sem necessidade dos militares. Eles se acham capazes de controlar toda a nação de ponta a ponta. E as Forças Armadas tiveram seus espaços muito reduzidos. O Glauber chamou muito a atenção disso na época. Ele foi o único que fez um programa de televisão no Brasil importante: o Abertura.

BV: Sim, o Glauber foi único intelectual de esquerda…

MD: A esquerda brasileira nunca aceitou isso, aliás nós já falamos sobre essa situação.

BV: Mas o Glauber se opôs à saída dos militares. Porque os militares aprenderam muito. Inclusive outro dia o Requião me disse que só conseguiu falar sobre o Brasil com os militares. Hoje eles se recusam a dar um golpe porque eles são contra um regime militar. Isso porque o militarismo coloca um general no poder que anula todos os outros generais. Não tendo um na Presidência eles todos participam.

MD: E a política não é bem a praia deles…

BV: É, mas a política eleitoreira. Já a política do poder, a política estratégica, a política de defender a Amazônia, a política de tecnologia e da questão energética, eles têm a ver completamente! Aliás o Congresso hoje é que é zero à esquerda nessas coisas. Não tem nenhuma motivação, um desastre o Congresso Nacional! Se formos depender do Congresso nessas questões seria um desastre. É essa questão eleitoral… eu chego a dizer o seguinte: todas essas medidas destruidoras do Brasil, todas, a privatização das estatais, a entrega das empresas estratégicas, etc, tudo isso foi aprovado pelo Congresso Nacional.

MD: Até o PT votou a favor…

BV: O PT votou a favor de tudo isso. E eu digo, se esse regime é o regime democrático, então o regime democrático é o pior regime que a humanidade jamais inventou, pois ele está levando o povo e a nação à ruína, à desgraça e à morte. Esse regime não presta. E tanto não presta que na última eleição do FHC quem ganhou a eleição foi o voto nulo! Foi a rejeição ao regime que ganhou a eleição. O FHC teve apenas 35% dos votos, quando ele devia ter é 51%!

MD: Aí só contam os votos válidos, não é?

BV: Sim, criaram essa safadeza. Porque o sujeito vota nulo, de propósito, para a rejeição do regime e aí dizem que não é válido contestar o regime. E agora vai ser mais ainda. Há um levantamento feito por uma empresa norte-americana que chegou à conclusão que 87% dos eleitores brasileiros estão contra todos os candidatos. Isso é trágico.

MD: Qual a saída para isso?

VC: Claro, um governo constituído de gangsters, de delinquentes internacionais. Olha, os Estados Unidos vão explodir rapidamente. Ontem mesmo em São Paulo, uma pessoa muito bem informada me falou que não demora três meses para os Estados Unidos explodirem. É a questão da bolha do dinheiro falso. Você sabe de uma coisa? Uma coisa assustadora. Os Estados unidos hoje estão se mantendo, com aqueles déficits comerciais elevadíssimos, com o dinheiro sujo do narcotráfico. Na última década os banqueiros americanos receberam desse dinheiro sujo um trilhão e quinhentos bilhões de dólares. O narcotráfico está segurando as finanças dos Estados Unidos! É esse o país que é o modelo de democracia? Desobedecendo a constituição, as leis, uma bandalheira total! Ou seja, o mundo está caminhando numa direção muito perigosa.

MD: Boa parte de tudo isso é a economia baseada no petróleo?

BV: Você imagina, o Japão pode virar sucata em três meses se os Estados Unidos bloquearem suas importações de petróleo do Oriente Médio…

MD: Você falou no Japão, que é uma ilha. Nós esquecemos neste papo de falar sobre uma outra ilha, para nós mais importante, que é Cuba. O Sr. já esteve em Cuba?

BV: É pena eu ter de dizer isto, mas, reiteradas vezes me diziam, você precisava ir a Cuba para ajudá-los a sair dessa dependência do petróleo. E eu disse, eu só vou se for para conversar com o Fidel. É ele que manda mesmo, ou eu converso com ele ou não vou. Então me convidaram e disseram que eu ia falar com o Fidel. Falei com todos os ministros, falei com a comunidade científica, com os reitores das universidades e terminou que eu não falei com o Fidel. Ele estava se preparando, ia me chamar, etc, mas ele não deu as caras. Eu não sei o que está na cabeça do Fidel porque a situação de Cuba é hoje muito vulnerável. Eles dependem das exportações de açúcar, controladas pelas bolsas de Chicago, Londres, etc, para poder comprar petróleo. Eles têm então duas vulnerabilidades em potencial. Quando Cuba podia ser um país completamente independente pela sua biomassa. Cuba poderia manter uma população de trinta milhões de habitantes vivendo no nível da Europa com a biomassa que ela poderia produzir. Quer dizer, há alguma coisa que atrapalha os cubanos de sair dessa situação.

MD: Por falar nisso, eu tenho até uma pergunta do José Sette que eu ainda não fiz: o Sr. acha esse termo “Imperialismo” dejá-vu?

BV: Eu acho que nós estamos numa situação hoje muito pior do que era a do imperialismo. Eu prefiro a palavra colonialismo, só que um colonialismo muito mais profundo, muito mais violento, com muito mais poder e tecnologia. O colonialismo do século XIX é uma coisa meio romântica e eles não ocupavam a nação, o poder. Hoje ocupam. Hoje quem manda no Brasil é o FMI, quem manda no Planalto, quem manda no governo brasileiro, quem avacalha com o país, são forças externas. Hoje nós somos uma vil colônia do colonialismo; eu prefiro esse termo porque o imperialismo tem outras conotações, ele cria possibilidades de reação. O colonialismo não, ele cria as mentes vazias, as pessoas se entregam, ficam servis… é o colonizado, mentalmente colonizado. Aliás Ortega y Gasset define bem a mente colonizada: é aquela que ignora o seu espaço e o seu tempo. Não é nada, portanto. Você ignora que tem um país riquíssimo e a crise energética é um negócio tremendo, que lhe dá a grande chance da história. Olha aí a definição exata dos dirigentes brasileiros. Realmente os dirigentes brasileiros não correspondem absolutamente, em nada, às necessidades da nação e do povo brasileiros.

MD: O Sr. vê algum futuro nas nossas universidades?

BV: Não, elas estão todas derruídas, sucateadas…

MD: É uma pena porque eu cursei toda a minha formação em ensino público. O Sr. também teve essa felicidade?

BV: Olha, eu fiz uma bolsa na América do Norte às expensas do governo. Quando é que na Espanha um filho de um pequeno comerciante poderia sonhar em ser vice-ministro três vezes? Esse é um país maravilhoso. As classes dirigentes é que não prestam. Então nós vamos ter de mudar essa classe de delinquentes. Isso já aconteceu na história, várias vezes. O Japão mesmo fez isso.

MD: E de onde sairão os novos quadros? Das universidades?

BV: Não, hoje não sabemos, talvez a Universidade depois de reformulada. Mas hoje já existem brasileiros, que nós estamos procurando coordenar, que pelas suas posturas, pelas suas realizações, justificaria formarmos um grupo, e assumir o poder; e assim reconduzir o processo educacional, o processo produtivo para construir a nação que todos nós esperamos e sonhamos; e que vamos realizar!

MD: Que este seja o grande sucesso do Instituto do Sol, que agora se inaugura, no dia 17 de junho do ano de 2002.

BV: 17 é um número chave. E junho é o mês do sol no Peru. O Incasol. O sol é o verdadeiro Deus do mundo material.

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