Quadro Negro

Mario Drumond

“Quando as palavras perdem o significado, as pessoas perdem a liberdade.” (Confúcio)

– Chega a ser bizantina essa discussão…

– Mas que foi golpe, foi.

– Ah é? Que novidade, hem! Como se não fosse uma sucessão de golpes de toda ordem a nossa história política de 1964 para cá. Sem falar das tentativas anteriores, nos governos Getúlio e Juscelino. A própria ditadura militar foi uma sequência de golpes sobre golpes, inclusive entre eles mesmos; foram golpeados, e sepultados, Castelo Branco e Costa e Silva, os dois primeiros ditadores nomeados. Não houve entendimento entre eles até o famigerado AI-5, em 1968 – outro golpe dentro do golpe -, com a formação da Junta Militar e, depois, o “consenso” em torno do Garrastazu, o nosso Pinochet.

Golpe de 64 - Tanques nas ruas (foto: arquivo CPDOC)

Golpe de 64 – Tanques nas ruas (foto: arquivo CPDOC)

– Bem, depois vieram a Distensão e a Abertura com Geisel e Figueiredo, não?

– Ah, sim! Dois golpes: o da distensão “lenta, gradual e segura” de Geisel, para retardar um processo libertário que já se sabia irreversível, e o da abertura “ampla, geral e irrestrita” de Figueiredo, para livrar a cara deles dos crimes que cometeram em nome da “Democracia”. Parece um tipo de cacoete este de sempre arranjar três adjetivos para cada golpe. Às vezes são três substantivos como “Tradição, Família e Propriedade” para o golpe de 64. A mais recente manifestação desse cacoete é a cara da democracia, tal como os fascistas a entendem: “bela, recatada e do lar”.

Golpe de 64 - botas militares (foto: arquivo CPDOC)

Golpe de 64 – botas militares (foto: arquivo CPDOC)

– Tá, mas e a Abertura?…

– Daquela “abertura” só aproveitamos a série para TV do Glauber. Sim, nós a conseguimos a duras penas e a união entre as esquerdas e as oposições acabou se dando graças a estas e outras contradições da ditadura. Veio a tal “Anistia” e o retorno vigiado de Brizola, porém, catalisando mesmo assim os anseios populares, enquanto Tancredo, com sutileza, trazia as elites nacionais ao apoio das teses libertárias e nacionalistas. Todo o país se uniu para a retomada da história que havia sido golpeada em 64. Então veio o mais bem sucedido dos golpes de direita até o momento: a usurpação a Brizola da sigla histórica do PTB, com o absurdo e indispensável concurso de uma sobrinha-neta de Getúlio, simultaneamente ao surgimento, do nada, de uma “nova esquerda proletária”…

Brizola: retorno do exílio (foto: IJG)

Brizola: retorno do exílio (foto: IJG)

– Lula e o PT?

– Você era muito jovem na época, além de ter sido bastante prejudicado na formação de sua consciência pela mídia biguebroder e a degradação do ensino a partir da década de 1970, em todo o ocidente, em especial em países como o nosso, e em todos os níveis. Pode acreditar: o Brasil já foi um país inteligente. Nós que, em 1980, vínhamos de mais de uma década de resistência política e cultural, recebemos uma formação escolar bem razoável para o cultivo de uma consciência crítica. E que nos proporcionou uma compreensão mais objetiva da realidade.

– Ainda não entendi porque Lula, um líder operário genuíno, poderia ser prejudicial às teses de esquerda. A mim me parece uma contradição.

– Essa de líder operário “genuíno” foi bem plantada na mídia. Até hoje não se sabe de onde veio e que passado trazia quando surgiu. É uma caixa preta muito protegida e, apesar de alguns vazamentos bem documentados que contradizem a muito vaga e mal contada história oficial, tudo é negado sob o rótulo de “teoria da conspiração”. Aliás, tal termo foi criado pelo Pentágono na época do assassinato do Kennedy para desacreditar toda denúncia que comprometesse as fontes “oficiais” disseminadas na mídia a seu serviço. Ainda hoje é uma das mais potentes armas da que eu chamo de semântica de guerra imperialista.

– Semântica de guerra? O que vem ser isto?

– Eis aí um bom exemplo da diferença de ensino básico, entre o que você recebeu e o que recebi. Ainda no colégio, aprendi que a Semântica é um dos alimentos essenciais da consciência. Pude conhecer algumas lições imortais de Confúcio a respeito, dadas há mais de 2.500 anos. Logo em seguida vieram os antigos gregos acrescentando a Dialética. O primeiro alimento dá substância e o segundo forma a consciência crítica. Ambos são fundamentais para o entendimento entre as pessoas e os povos e para a compreensão objetiva da realidade, processos estes que se produzem na consciência de cada ser humano. Usados como armas de guerra tais funções são invertidas para os fins perversos de ocultar a realidade e manipular a sociedade, alienando os indivíduos e os povos de seus próprios e verdadeiros interesses. A você e sua geração tais conhecimentos foram sonegados no momento em que deveriam ter sido ministrados com melhor eficácia. E como disse bem Bolívar “somos dominados e explorados muito mais pela nossa ignorância do que pela força dos que nos escravizam”.

– Concordo com as lacunas na minha formação intelectual, mal sei quem é Bolívar e nunca li nada dele ou sobre ele. Mas, voltando ao tema do nosso papo, continuo discordando de que Lula e o PT não representam um momento ao menos progressista em nossa história.

– Não é que eu tenha tido o que se possa considerar uma boa formação básica ou intelectual; longe disso. Nunca pudemos gozar desse direito em países de terceiro mundo. Mas pelo menos recebi alguma que me estimulasse para a criatividade e para o autodidatismo, e foi por onde eu prossegui e consegui suprir um pouco do muito que nos faltou ali. Você, porém… Bem, deixa estar. Vamos então ao significado da palavra que tem sido muito usada e que você também acabou de usar para qualificar o advento de Lula e do PT: progressista! O que, diabos, isto significa?  A vassalagem midiática – os buchas de canhão da semântica de guerra – usam e abusam dela para designar algo como o caminho em direção ao “novo”, ou ao que eles chamam de “modernidade” ou de “politicamente correto”. Só que o termo não passa de uma panaceia linguística do Positivismo, uma pseudofilosofia que não passou de modismo entre certas elites esnobes do século 19, e que, para nossa infelicidade, foi parar no lema da bandeira nacional. Quando bem mais tarde o asfalto começou a acossar os rincões desnutridos do interior do Brasil trazendo consigo, em nome do “progresso”, a prostituição, a bandidagem e as garras afiadas do capitalismo, o povo humilde, em sua sabedoria, tornou célebre a seguinte ironia: “pior que a fome é o progresso”.

– Sim, mas seu argumento está tendencioso para uma das acepções da palavra. A meu ver, o termo pode aceitar acepções mais positivas e nem sempre positivistas, não?

Comício de Lula em São Bernardo, em 1980, "abençoado" pela mídia e pelos helicópteros da FAB (foto s/c)

Comício de Lula em São Bernardo, 1980, “abençoado” pela mídia e pelos helicópteros da FAB (foto s/c)

– Lembro-me bem quando o “progressismo” do PT irrompeu espetacularmente na união das oposições e das esquerdas, em 1980, com o imprescindível show dos helicópteros das Forças Armadas e o apoio da mídia amestrada em cobertura mundial e manchetes de primeiras páginas, com as suas ideias sobre o “novo” e o “moderno”. Em torno deles pairavam conhecidos urubus de diversas igrejas e cultos cristãos. Uns poucos deles, até de boa fé. Também não lhes faltaram diligentes consultores gringos, que mal falavam português, e bem remuneradas agências de propaganda e marketing para assessorá-los em seus pronunciamentos progressistas aos amplos espaços comunicacionais, que, nem em sonhos, seriam permitidos aos movimentos de resistência à ditadura, mesmo os mais conciliadores. Ouvi coisas como: “Getúlio era o pai dos pobres, mas foi também a mãe dos ricos”, pronunciado em péssimo portunhol e com forte sotaque gringo. Brizola era o obsoleto e ultrapassado “caudilho do sul”. Tancredo “um velho gagá”, tido como reacionário e a serviço do patronato.

– Tancredo e Brizola… Essa aliança entre as elites burguesas e as organizações populares de esquerda é bastante suspeita, não?

– Nos países subdesenvolvidos ela é uma necessidade tática. Em nossa realidade terceiro-mundista, a contradição principal é o Imperialismo. A ditadura não aconteceu pela vontade democrática do povo brasileiro, ela foi uma imposição imperialista à nossa realidade. Aqui, meu caro, a luta de classes é uma contradição secundária. Em primeiro lugar, temos de unir todas as forças políticas relevantes e atuantes para libertar o país do jugo imperial. Somente depois de conquistarmos a soberania nacional é que poderemos tratar internamente de resolver a contradição entre as classes sociais.

– De qualquer forma, com o advento de Lula e do PT, houve um fortalecimento da voz operária, isto não se pode negar.

– Ah, sim! Com ampla cobertura de mídia, as reivindicações petistas/progressistas se focavam em insignificantes melhorias de condições laborais que eram discutidas e debatidas à exaustão, até ao nível das mais reles mesquinharias, nos tais dissídios coletivos e nas assembleias de classe. Chegaram inclusive a tentar desqualificar a CLT como “legislação caduca”, mas aí tiveram de arrefecer o entusiasmo progressista ao pressentirem a imediata resposta de desconfiança popular toda vez que se tenta mexer nesta Lei, que, apesar dos pesares, é, com muita razão, quase sagrada para o povo brasileiro. Mas, se deixassem, é possível que a oratória petista, por sinal, de quinta categoria – na verdade uma verborragia -, chegasse ao ponto de desqualificar a própria Lei Áurea como “coisa do passado”. Só era “novo”, “moderno” e “progressista” o que vinha deles e depois deles. Nem uma palavra sobre a luta de classes, sobre o trabalhismo histórico, sobre a heroica resistência à ditadura, e sequer se tocava nos termos “revolução” ou “revolucionário”. Imperialismo? Isto não existe, é só uma desculpa para a nossa incompetência histórica. Socialismo? Comunismo? Sistemas fracassados que desapareceram com a dissolução da União Soviética. Cultura? Ora, nada mais popular que a cultura difundida pela mídia, não? Em especial a da rede que lhes era favorita e na qual disputavam entre si, a pau, e, pior, ainda disputam, o protagonismo progressista a que se autoproclamam. Em poucos meses, vimos escorrendo pelo ralo a união nacional construída com imensas dificuldades ao longo de quase duas décadas de persistente e, em muitos casos, heroico labor de resistência.

– E vocês não fizeram nada? Ficaram só olhando?…

– Meu caro, a natureza é, em si, muito cruel. Você nem imagina o quanto de inteligência e trabalho se faz necessário para construir e colocar em voo uma aeronave. No entanto, para abatê-la e destruí-la completamente não é preciso mais do que um débil mental e uma caixa de fósforos. Se você jogar uma colherzinha de merda num barril de um perfume delicado, você destruiu todo o perfume. Mas não há quantidade de perfume que possa salvar um barril de merda, da merda que é. Sim, fizemos o que podíamos; estávamos acostumados às lutas e aos enfrentamentos com nossos inimigos. Mas o golpe foi bem dado, com a estupidez que sempre caracteriza qualquer golpe, e a merda foi avassaladora. De súbito, uma quinta coluna monstruosa ameaçava tornar-se maioria entre nossos quadros, e rapidamente acabou por tornar-se maioria. Fomos dizimados e despedaçados. Você pode identificar os restos desses pedaços na sopa de letras dos partidos de esquerda atuais.

– Quinta coluna? O que vem a ser…

– É um termo cunhado na Guerra Civil Espanhola para designar bandos de traidores. A traição é sempre vil, mas nem sempre é consciente. Às vezes, como no caso, vem por ignorância ou por covardia. Dedo indicador em riste na cara de quem ousasse contestá-la, a ignorância petista era extremamente arrogante e agressiva. E covarde, pois sabia ter respaldo e retaguarda poderosos. Eles se diziam chiitas e se proclamavam como a verdadeira esquerda radical, mas, no discurso e na prática (e isto a história já nos assegura), não passavam de uns progressistas de conveniência. Isto numa época em que não havia alternativa para enfrentar o poder midiático e hegemônico que os entronizava e sustentava. Com a união das oposições duramente conquistada tínhamos dois de cada três votos em todo o Brasil, em qualquer nível, municipal, estadual ou federal. Até então, a ditadura só havia permitido eleições municipais em pequenas cidades para os cargos executivos. Com a ditadura em seu epílogo ao ter de ceder a convocação das eleições para governos estaduais, marcadas para 1982, nós estávamos a um passo da retomada do poder pela avalanche de votos que nos garantiriam quase 100% de vitórias em todo o país. Mas a divisão petista nos trouxe derrotas inesperadas no Rio Grande do Sul, em Pernambuco, no Maranhão e em alguns estados menores, e fora à duras penas que conseguimos eleger Brizola e Tancredo governadores de Estados, eleições estas seriamente ameaçadas pelo progressismo petista. E no que deu todo esse progressismo? Aos burocratinhas petistas, que são em verdade os tais líderes operários “genuínos”, logo vieram a lhes fazer par os burocratões tucanos. E ao acasalamento promíscuo de ambos os bandos, sobreveio uma espécie híbrida: a dos petucanos (Gilberto Vasconcellos). E, na sequência, golpes e mais golpes de direita.

– Mais golpes!?

– Você acha que Juscelino, Jango e Brizola morreram de morte morrida? Ou de morte matada? Você crê que Tancredo foi retirado do Palácio do Planalto no dia de sua posse na Presidência da República por um problema de saúde, manifestado momentos antes de receber a faixa? Sarney, como vice de um presidente que não chegou a tomar posse, logicamente assumiu na qualidade de líder de um golpe de estado. Quatro anos depois, em 1989, veio o golpe contra a eleição praticamente inevitável de Brizola a Presidência, no qual Lula, em pessoa, foi o títere-protagonista principal que aceitou os votos de Minas roubados ao “caudilho do sul” (sou testemunha ocular) pela pírrica vitória por treze mil votos no primeiro turno, mesmo sabendo que não teria a menor chance no segundo turno com o “novo” golpista da “modernidade” Collor de Mello. Este, tão logo tomou posse, golpeou as poucas economias dos brasileiros, confiscando-as, sem mais nem menos. Na sequência, veio o golpe ao próprio Collor para que, depois de um mandato tampão de Itamar Franco a fim de propiciar as bases do “Plano Real”, fosse finalmente entronizado e coroado o avatar da direita brasileira, o golpista enrustido em esquerdista e empregado da Fundação ultra-golpista Ford, Fernando Henrique Cardoso. Com certeza, o pior de todos os presidentes da nossa infeliz história republicana.

– Mas depois dele o povo elegeu o Lula…

– Sim, mas só depois de um segundo e tenebroso mandato do “Príncipe da Moeda” comprado (outro golpe) descaradamente ao Congresso vendilhão e golpista de então (e de hoje, – “não é de hoje!”, diz o refrão popular). Lula veio a ser a consagração de toda a sequência de golpes perpetrados contra a democracia brasileira ao longo de um dos mais infelizes meios séculos de nossa história. Era a velha UDN, mas “de macacão”, como a definiu Brizola, enfim, no poder; “a esquerda que a direita gosta” (Darcy Ribeiro). – Banqueiros de todo o mundo, uni-vos! O Brasil está à disposição para o saqueio! Mas, para disfarçar, e se não for pedir muito, seria bom que deixassem umas migalhas para os pobres, os “famélicos sem pão”. Isto é, se vossas excelências concordarem. Concordam? Oh! Quão agradecidos seremos para com a vossa bondade!

– Tudo bem, ironias à parte, as duas eleições de Lula e de Dilma não podem ser tecnicamente consideradas como golpes de estado.

– É que a coisa evoluiu, lembre-se da semântica de guerra. Os golpes do passado, com tanques nas ruas e botas militares chutando portas, foram depois aprimorados semanticamente, e apenas semanticamente, pois os tanques e as botas já não seriam mais mostrados ao vivo e a cores nas telas e manchetes (mas, estavam presentes furtivamente, esteja certo) para os chamados “golpes brandos” ou “revoluções das cores”, dependendo do tratamento midiático que seria preferível a cada um. Recentemente, porém, parece que perderam a paciência com tais “sutilezas” e retornaram à força total aos tanques e às botas, como na Ucrânia, e às bombas “cirúrgicas”, como na Líbia e na Síria. As sucessivas eleições de Lula e Dilma estiveram naquele contexto “sutil” e podem ser consideradas como golpes brandos ou “lights” onde o eleitorado podia optar somente entre o seis e o meia-dúzia, como acontece nos EUA desde o fim da Segunda Guerra. O que ocorreu de imprevisto nos mandatos de Lula foi o surgimento do fenômeno Hugo Chavez na Venezuela. Este sim, um verdadeiro líder revolucionário e de origem genuinamente proletária; o soldado é também um proletário. De um momento para o outro, os manipuladores da realidade ocidental foram surpreendidos pela liderança potente e carismática de um novo Fidel Castro, novamente, bem debaixo de suas barbas. O jeito foi dar um pouco de linha para “Lulinha paz e amor”, então presidente da maior nação da América Latina, poder voar um pouco mais alto e tentar emparelhar prestígio com o “ditador” da até então quase invisível Venezuela. Um país que, antes de Chavez, só era conhecido pelos triunfos de suas misses ou como uma espécie de posto de gasolina de Miami no mar Caribe. Mas, claro, sem avançar sobre certos limites e com a corda bem amarrada do outro lado. E Lulinha foi; feliz da vida… Mas, como dizia Machado de Assis, “foi só uma coceira; coçou, parou”. No embalo seguinte veio Dilma, outro golpe “light”, com Chavez já na fase final de seu lento assassinato. Mas, nem por isto, Dilma deixou de dar um novo golpe logo ao tomar posse em seu segundo mandato, mandando às favas tudo o que prometeu na campanha que a elegeu e dando continuidade ao interminável banquete dos banqueiros. Estes são insaciáveis e continuam lá, parecem personagens de filmes de Bunuel. Conseguiram enfim o que sempre buscaram: a fragmentação das forças populares e de esquerda, que foram diluídas e esvaziadas a quase zero em cerca de trinta anos de progressismo petista, tão profundos quanto um pires dos pontos de vista político e social, e que sequer nos aproximou de algo ao menos parecido com o que poderíamos chamar de socialismo. Agora, não precisando mais do PT nem de seus “líderes”, todos forjados nas bigornas midiáticas, descartam-se deles com a facilidade com que acabamos de ver. Pela expressão facial de Lula e de Dilma eu chego a crer que só agora é que perceberam que jamais passaram de títeres ingênuos do Imperialismo. Mas, confesso que custo a acreditar na estupefação mansa e assustada com que reagiram à previsibilidade de todo o processo, sem mover (ou sem poder mover) uma palha para impedi-lo. Porém, qualquer que tenha sido a verdade, é imperdoável o papel que exerceram na história política nacional. E você querendo discutir se o mandato de FranksTemer foi ou não foi golpe! Que perda de tempo, é uma discussão bizantina, que, no caso brasileiro, beira o ridículo. Minha tese é a de que toda a ação imperialista neste último meio século foi projetada para golpear as nações de terceiro mundo naquela que é a mais importante de todas as forças estratégicas nacionais e libertárias, segundo as doutrinas imperiais de guerra mais atuais: a Educação.

– Como assim?

– Brizola, que era um líder com uma intuição fabulosa pressentiu a força libertária e estratégica da Educação e deixou “claro como a lua cheia” que o seu projeto de governo era educar as crianças brasileiras – todas elas – para formar a futura geração de líderes capazes de libertar o Brasil das garras imperialistas que nos oprimem. E, junto com Darcy Ribeiro e Oscar Niemayer, lançou o Projeto dos CIEPs. Brizola previa uma revolução libertária no Brasil quando decorridos uns trinta anos da inauguração do seu primeiro CIEP, em 1984, a menos de dois anos de sua posse no Governo do Rio de Janeiro. Ele tinha fortes e bons motivos para crer na sua eleição posterior para a Presidência da República, na qual pretendia concluir o projeto, em escala nacional. Como governador do Rio, chegou a construir mais de 500 CIEPs em todo o Estado. Mas teve o seu projeto presidencial abortado por Lula, no golpe de 1989, já mencionado. Ao invés dos trinta anos de “socialismo moreno”, proposto por Brizola para levantar e educar o povo brasileiro e “passar o Brasil a limpo” elevando-o à grandeza que nossa Pátria merece, tivemos trinta anos de progressismo petista/tucano/petucano (com os urubus de deus e do diabo e do que restou do PMDB, ressalvadas as pouquíssimas exceções). E o imperialismo ficou desimpedido para agir na sua forma predileta, cruel e implacável (mantendo-se a normativa dos três adjetivos para mais este golpe): destruiu, quase que de um só golpe, todos os CIEPs que haviam sido construídos e postos em pleno funcionamento, dentro dos mais sadios e revolucionários princípios da educação pública, e depois eliminou o próprio Brizola. Sem resistência! Agora, o que temos? Um quadro negro da realidade nacional. Sobre ele e a Educação como vetor estratégico de política pública e revolucionária para o combate semântico de guerra que hoje se pratica secreta e poderosamente como arma de dominação dos povos, vamos tratar nesta terceira edição do América do Sol.

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