Piada de Colégio

Mario Drumond

Ano de 1965. A ditadura impõe uma “nova” disciplina aos alunos do colegial em todo o país: Educação Moral e Cívica (que agora retorna à cena nacional com o mesmíssimo nome em mais uma evidência da paralisis “progressista” que a vem assolando nos últimos 50 anos).

Prédio do Colégio Estadual de Minas Gerais inaugurado em 1956 - Projeto de Oscar Niemayer. (foto: Emmanuel Pinheiro/Nitro)

Prédio do Colégio Estadual de Minas Gerais inaugurado em 1956 – Projeto de Oscar Niemayer. (foto: Emmanuel Pinheiro/Nitro)

No Colégio Estadual de Minas Gerais, um dos mentores da “novidade”, o professor Elias Murad, em sua aula inaugural determina que, ao fazer a chamada de presença, o aluno chamado deveria ficar de pé, em posição de sentido, e dizer: – Presente! Eu sou capitalista!

E começou a chamar:

– Alzira!

A moça levantou-se e disse: – Presente! Eu sou capitalista!

– Belizário!

– Presente! Eu sou capitalista!

E assim por diante, até chegar no Joãozinho.

– Joãozinho!

– Presente! Eu sou comunista!

Pego de surpresa, o professor retrucou: – Como assim, Joãozinho, por que você é comunista?

Joãozinho: – Meu pai é comunista, minha mãe é comunista, meu irmão é comunista; então eu sou comunista!

– Ah, é por isto? – rebateu o professor, logo emendando: – E se seu pai fosse um estelionatário, sua mãe uma prostituta e o seu irmão um ladrão, você seria o quê, Joãozinho?

– Aí eu seria capitalista.

A piada foi publicada no jornalzinho mural intitulado A Fumaça, rodado no mimeógrafo do diretório estudantil, em exemplares compostos de quatro folhas de papel ofício unidas para formar um cartazete que era prendido nas colunas centrais do pátio pouco antes do intervalo entre as aulas, nas manhãs das quartas ou das quintas-feiras. Houve edições especiais para convocações de passeatas e comunicados do diretório estudantil.

Era escrito a máquina de escrever e desenhado à mão diretamente sobre o stencil (matriz de impressão em mimeógrafo), com redação e datilografia deste que aqui reescreve a piada de memória, em sua primeira e precoce incursão de editor, e ilustrações de um colega, hoje artista plástico (nossos caminhos se bifurcaram e não me sinto autorizado a divulgar o nome).

A piada era de moda, mas ainda pouco conhecida no colégio. Sua publicação causou a apreensão do mimeógrafo e o fechamento do A Fumaça. Fomos pessoalmente repreendidos pelo novo diretor, recém-nomeado pela ditadura, e suspensos das aulas por três dias.

Apesar de politicamente inofensivo e de sua ingenuidade juvenil, o semanário mural só chegou a uns três ou quatro meses de existência, o que, pensando bem, não foi mau para o período da estúpida repressão em que atuou, e conseguiu boa audiência de alunos e professores.

Auditório do Colégio Estadual de Minas Gerais.

Auditório do Colégio Estadual de Minas Gerais (foto: Emmanuel Pinheiro/Nitro).

 

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