O desmanche do hábito da leitura

Rodrigo Leste

Durante anos a fio adaptei, montei e encenei espetáculos baseados em obras de autores, de língua portuguesa, indicados como leitura obrigatória em vestibulares, principalmente os da UFMG e da PUC Minas.

Levei ao palco textos de Machado de Assis, Gregório de Matos, Álvares de Azevedo, Padre Antônio Vieira, Drummond, Bandeira e muitos outros. Não teria conseguido levar a cabo esse projeto sem a inestimável colaboração de diversos profissionais como Gui Mazzoni, Caio Ducca, Sérgio Fantini e os professores Antônio Sérgio Bueno e Luiz Carlos Maciel.

O Padre Vieira de Rodrigo Leste

O Padre Vieira de Rodrigo Leste

Fui assistido por milhares de jovens espectadores que buscavam recursos e ajuda para passar nos concorridos exames (é bom lembrar que há alguns anos não havia tantas faculdades particulares como agora, e ingressar em uma universidade federal era o objetivo de quase todo jovem concluinte do Ensino Médio).

Sem falsa modéstia, além de trazer benefícios pedagógicos, acredito que os vinte espetáculos que montei nessa frente de trabalho ajudaram muita gente a deixar de abominar livros, de vociferar contra os escritores e, em muitos casos, contribuíram para formar leitores, transcendendo a mera função de realizar uma “melhor preparação para o vestibular”.

O tempo passou e estamos assistindo, hoje, a um verdadeiro desmanche do hábito da leitura no Brasil. As causas são diversas e as explicações também. Muitos consideram o livro impresso um objeto obsoleto, ultrapassado; para esses, as novas mídias o liquidaram. Há quem diga que o futuro (e o presente) está nos E-books; outros, mais diretos, dizem que ler é perda de tempo, que os videogames e outros aparatos tecnológicos mudaram totalmente os nossos hábitos.

Partindo do principio de que as principais funções do Ensino Básico são a aquisição da leitura e da escrita e a habilidade com os cálculos, não seria um exagero afirmar que a escola, de um modo geral, vem fracassando nessa sua missão, levando-se em consideração o número expressivo de analfabetos funcionais no País e a quantidade de estudantes iletrados que alcançam o Ensino Superior.

A arquitetura do desmanche

Avalio que os altos preços dos livros, a falta de uma política de incentivo à leitura e a péssima qualidade dos lançamentos (as editoras primam pela escolha de bestsellers de autores estrangeiros que, supostamente, alcançarão grandes vendas), são fatores preponderantes para afastar as pessoas dos livros. E isso não é natural, a prova é a enorme quantidade de livros de literatura infantil e infanto-juvenil que são lançados, vendidos e lidos no País. Essa é uma das evidencias de que as pessoas gostam de ler, precisam apenas de mais estímulo e melhores condições.

A arquitetura do desmanche do hábito da leitura, faz parte do projeto de emburrecimento global, ora em curso, que torna os indivíduos cada vez mais alienados (um autor da envergadura do americano Philip Roth aponta esse processo como uma das causas da sua decisão de parar de escrever em definitivo). Estamos formando cidadãos incapazes de ter uma visão crítica da realidade, a grande maioria está mergulhada num mundo de ilusão e fantasia, cujo valor mais reverenciado é o acumulo de dinheiro.

Os sonhos induzidos pela mídia fazem as pessoas acreditarem que alcançarão um padrão de vida senão igual, pelo menos, próximo, ao das celebridades globais. Os mais atentos percebem claramente que o tal emburrecimento favorece quem está no poder e contribui para manter as coisas como estão sem contestação ou revolta.

No mundo automático do ”mais fácil, mais rápido, de tudo resolvido com um clic”, a leitura proposta pelas escolas contempla textos diversos, de atualidades, fragmentos de crônicas, de poemas e até os famigerados resumos. Neste universo, a leitura do texto literário é vista pelo estudante como uma perda de tempo, um esforço não recompensado, uma bobagem da qual os descolados do mundo virtual fogem como o diabo da cruz.

Voltando no tempo

“Estamos no ano da graça de 2009. Em um teatro abarrotado, diante de uma plateia atenta e concentrada, composta na sua maioria por jovens, um ator despojado de outros recursos que não o texto, a batina e parcos objetos litúrgicos magnetiza a audiência com as palavras de fogo saídas da pena magistral do Padre Vieira.

Esclareça-se que o Sermão da Sexagésima, ‘cai’ no próximo vestibular da UFMG, fator que, em parte, viabilizou a montagem e garantiu tão grande presença de público, segundo o próprio intérprete-diretor-adaptador-sonoplasta-contrarregra-realizador do espetáculo, o teatrólogo Rodrigo Leste.”

Esse é o trecho inicial da reportagem que Mario Drumond, hoje editor da folha América do Sol, publicou no seu blog Gazeta – Belo Horizonte, em 25 de agosto de 2009.

Vamos acompanhar mais alguns trechos publicados por ele:

“O teatro, somente o bom teatro – e exclusivamente através de sua linguagem própria e única – é capaz de realizar o milagre de fazer reviver a magnetizante pregação e fazer com que, logo ao abstrairmos da presença do intérprete, possamos sentir a presença do Padre Vieira encarnado, como se ali estivesse, naquele mágico momento, diante de nós!

Este repórter entrevistou alguns espectadores na saída do teatro. Por exemplo, Natália, que vai ‘tentar Medicina’, disse que assistir à peça havia transcendido o interesse objetivo do vestibular, tornando-se algo vivo e pujante que ela imagina que jamais irá esquecer. O Sermão da Sexagésima, que lhe parecera nas leituras, algo hermético, um complexo jogo de palavras, deixou de ser confuso a partir do momento em que ela pôde ouvi-las, ao vivo, na interpretação de Rodrigo Leste.”

Na ocasião, o Projeto Literatura em Cena ainda fluía bem. Mas, um ou dois anos depois, já não valia à pena realizar eventos voltados para esse público. As comissões organizadoras dos vestibulares decidiram de maneira peremptória que a obrigatoriedade da leitura de obras literárias passava a ser restrita a algumas poucas áreas de ensino, como o cada vez mais esvaziado curso de Letras.

O prazer da realização

Minhas montagens sempre foram singelas, mas ao mesmo tempo buscavam a eficiência didático-pedagógica que era esperada por alunos e professores. Além da preservação dos originais dos escritores, sempre tentei alcançar resultados artísticos compatíveis com a grandeza dos autores. Detalhe importante: nunca sugeri que algum espetáculo pudesse substituir a leitura de um livro na íntegra. Pelo contrário, sempre enfatizei que as montagens funcionavam como ferramentas complementares, sendo a leitura da obra essencial para o processo de aprendizagem e a consequente preparação para o vestibular.

O capiau das Gerais

O capiau das Gerais

Muitas vezes fui abordado nas ruas, em bares e restaurantes, lugares públicos em geral, por pessoas que haviam assistido a um de meus espetáculos. Para um ator que sempre conseguiu seu público no corpo-a-corpo nas escolas e cursinhos da vida, foi mais do que gratificante ouvir comentários, agradecimentos e até, elogios, de quem avaliou que recebeu auxílio através do teatro, atribuindo a isso um dos fatores que ajudou no êxito de sua árdua empreitada que é a aprovação no vestibular.

Vários professores, coordenadores e diretores de escolas apoiaram a minha iniciativa, me abrindo as portas, facilitando o acesso aos alunos e até, auxiliando na divulgação, incentivando os estudantes a participarem. Esses profissionais compreenderam a proposta e acreditaram nos benefícios que ela podia acarretar. Graças a essa soma de esforços consegui, por muitos anos, lotar teatros em várias cidades.

Em cena, costumava sentir que a força da interpretação teatral conquistava a plateia, fazendo com que aspectos mais sutis da obra pudessem ser compreendidos e assimilados. Adotei a praxe de realizar debates ao término das apresentações, muitas vezes contando com a participação de professores de literatura. Esses mestres sempre enriqueciam o bate papo, trocando opiniões com o público e acrescentando informações e análises críticas que muito contribuíam para o melhor aproveitamento da atividade

Ler ou não ler, eis a questão

 É passível de questionamento a tal “lista de livros de leitura obrigatória” que era imposta pelos vestibulares da UFMG, da PUC Minas, e de várias outras instituições de ensino. De fato, a decisão era vertical: ler ou ler, e ponto (apesar dos nefastos e incorretos resumos de obras que sempre apareciam para facilitar a vida dos preguiçosos). Pelo bem ou pelo mal, penso que é melhor o jovem ler obrigado do que não ler de forma alguma.

Notadamente a expansão do acesso à internet, a massificação do telefone celular e de várias outras mídias modificou muito o comportamento de todos. O mundo sofreu mudanças radicais nas últimas décadas, e novos paradigmas se impõem fazendo com que a vida de um jovem de quinze anos hoje, seja completamente diferente de alguém que viveu a adolescência nos anos setenta ou oitenta do século passado.

Ouvi vários professores, inclusive de literatura, dizerem: “é um absurdo obrigar um jovenzinho a ler um chato feito Guimarães Rosa ou um complicado feito o Padre Vieira.” É fácil compreender: existem professores de literatura que não gostam de ler, um paradoxo, mas real. Talvez estejam no lugar errado, poderiam ser tenistas ou abrir uma franquia de cosméticos, mas se voltarem contra a prática da leitura dá no que deu, seguramente.

O desleixo das escolas hoje em dia é flagrante. Recentemente, meu filho de treze anos me contou empolgado que a professora de redação de sua escola havia pedido a leitura de um “resumo” de Os Miseráveis. Foi feito um exercício de avaliação baseado na obra. Animado, perguntei quem era o autor. Ele se enrolou e não conseguiu se lembrar, mas me garantiu que havia se saído bem no trabalho, cujas questões, enfatizavam os aspectos sociais do livro. Emendou dizendo que não saber o nome do autor não era tão importante… Dei uma mãozinha dizendo que o escritor é Victor Hugo. Ele: Ah, é! E mudamos de assunto.

Encerro com o depoimento do Professor Luiz Carlos Maciel (o também escritor e poeta, Caio Junqueira Maciel):

“Durante quase quarenta anos trabalhei como professor de literatura brasileira em cursinhos de Belo Horizonte. Havia obras literárias recomendadas pela UFMG e PUC Minas. Assim, tanto no primeiro quanto segundo semestre, havia um rico menu para atividades em sala de aula. Escrevia também ensaios sobre os livros, não com a intenção de substituir a leitura do original, mas como auxílio para uma abordagem mais aprofundada dos livros. Foi uma época feliz. Os alunos e eu muito ganhamos com a experiência. Nos últimos anos, acabou a adoção de livros. Minha carreira praticamente pulverizou-se e veio a aposentadoria compulsória.”

Compartilhar