Roberto Requião denuncia “ditadura” dos transgênicos: “A luta pela soberania das sementes faz parte da luta pela soberania nacional” (entrevista exclusiva para HP/ASOL)

Sérgio Cruz

Requião em entrevista exclusiva para o HP/ASOL

Requião em entrevista exclusiva para o HP/ASOL

As multinacionais das sementes, capitaneadas pela norte-americana Monsanto, sediada no Missouri (EUA), ocuparam “sorrateiramente” os campos de soja na América Latina. Primeiro na Argentina, no início da década de 1990, logo em seguida invadiram o sul do Brasil e depois se espalharam por toda a América do Sul. Esta entrevista com o senador Roberto Requião (PMDB-PR), que publicamos hoje no segundo suplemento especial América do Sol, em parceria com a Hora do Povo, é esclarecedora de como agem as multinacionais em busca de seus superlucros e em detrimento da soberania e da economia dos povos da periferia do capitalismo.  O principal instrumento da invasão nos países vítimas de sua ação foi a soja RR (Roundup Ready), semente geneticamente modificada da Monsanto que seria “tolerante” à aplicação do herbicida glifosato (Roundup), também produzido pela multinacional. No princípio os transgênicos eram ilegais no Brasil, mas em 2005, o governo Lula, pressionado, acabou “legalizando” as sementes no país.

Vista aerea de uma plantation (foto: Leo Drumond)

Vista aérea de uma plantation (foto: Leo Drumond)

Alguns anos depois, superados os entraves legais para a liberação no Brasil e com as sementes RR tomando quase toda a área de soja na Argentina, a Monsanto quis exigir seus royalties bilionários por lá, mas não conseguiu. Os argentinos já consideravam um direito adquirido multiplicar as sementes RR sem nada pagar por isso. Começaram então as disputas judiciais. No Brasil também teve início uma guerra movida pelos produtores e algumas autoridades estaduais, particularmente o governador do Paraná, Roberto Requião, contra a Monsanto. Não só na América do Sul, mas em todos os cantos do mundo principalmente nos países da periferia do imperialismo, iniciou-se uma verdadeira batalha pelo controle da produção agrícola.

Em 2013 mais de 50 países aderiram à “Marcha Contra Monsanto”, como forma de protesto contra a manipulação genética e a monopolização do mercado levadas a cabo pela indústria multinacional de agricultura e biotecnologia. Atualmente os produtores brasileiros estão em pugna aberta contra a exploração da Monsanto sobre suas plantações. Há hoje, fruto da ganância da multinacional e de seus crimes, mais espaço até para os questionamentos sobre os males causados pelas sementes geneticamente modificadas. As vozes antes isoladas, agora desmascaram vigorosamente a atuação e os crimes da Monsanto em todo o mundo.

"Marcha contra a Monsanto": mais de 50 países contra os OGM em suas terras

“Marcha contra a Monsanto”: mais de 50 países contra os OGM em suas terras (fonte: yogui.co)

“Não há consenso sobre a segurança dos transgênicos”, afirma o ministro do meio-ambiente da Índia, Prakash Javadekar. “Tumores, falhas nos órgãos e prejuízos ao sistema digestivo já foram associados aos transgênicos por pesquisadores independentes pelo mundo todo. A Monsanto persegue todo cientista que está fazendo pesquisas independentes sobre a segurança dos transgênicos. A Monsanto e a indústria biotecnológica continuam promovendo a introdução de transgênicos não testados como se fossem “científicos”. Suprimir fatos não é ciência. Manipular a verdade não é ciência. Perseguir cientistas não é ciência”, denunciou Prakash.

No Paraguai, até 2012 a “soja RR” era o único transgênico legal no país. Um ano antes o ministro da Agricultura, Enzo Cardozo, liberou ilegalmente a semente de algodão transgênico Bollgard BT, também da Monsanto. Mas esta não foi aprovada pelo Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Vegetal e de Sementes, “por não respeitar as normas do Ministério da Saúde e da Secretaría de Ambiente, tal como exigia a legislação.

Devido à proibição da Bollgard BT, tanto a Monsanto como a entidade dos fazendeiros paraguaios (UGP), que reúne as 15 câmaras empresariais, iniciaram uma campanha pela demissão do responsável pela proibição. No entanto, ante a negativa do governo do presidente Fernando Lugo de ceder à pressão, iniciou-se uma grande agitação nos meios rurais com duas consignas claras: destituição do ministro e a liberação do algodão BT. Logo houve a destituição do próprio Fernando Lugo. Não casualmente, a interrupção do governo esteve relacionada com o Massacre de Curuguaty (sobre o tema, ler o livro “Curuguaity – Carnificina para um Golpe”, lançado recentemente, do jornalista Leonardo W. Severo, redator do HP). O episódio baseou-se numa falsa acusação contra camponeses por ocupar terras de um latifundiário ligado à produção de soja. O crime acabou com a vida de dezenas de pessoas e provocou a queda de Lugo.

No Brasil o então governador do Paraná, Roberto Requião, cumpriu um papel chave na luta contra o domínio da plantação de soja no Brasil pela Monsanto e outras múltis do setor. “Sorrateiramente, através de contrabandos programados pelas multinacionais, foram introduzidas as sementes transgênicas, com o objetivo de submeter os produtores brasileiros ao domínio da Monsanto, da Bayer, da Syngenta e da sagrada irmandade”, denunciou Requião. “Criado o fato, obrigaram o governo a “legalizar” os transgênicos. Com medo de um embate com os produtores, o governo cedeu. Feito isso, liberou geral. O governo poderia ter limitado a área de plantio OGM (sementes geneticamente modificadas). Poderia ter criado áreas livres de OGM. Foi o que propus. Queria que o Paraná fosse um estado livre de transgênicos. O presidente Lula chegou a me acenar com isso, mas não conseguiu conter as pressões das multinacionais. Ele também acabou cedendo”, disse o senador paranaense.

Com vocês, o senador Roberto Requião, que nos conta, nesta entrevista exclusiva ao HP e ASOL, os detalhes dessa grande e vitoriosa luta travada por ele e alguns outros patriotas pela soberania das sementes que, segundo o parlamentar, “faz parte da soberania nacional”.

Requião reapresenta as reformas Jango no Congresso em 2014 (fonte: Brasil 247)

Requião reapresenta as reformas Jango no Congresso em 2014 (fonte: Brasil 247)

HP/ASOL – Quando foi governador, o senhor travou uma importante batalha para evitar que os produtores brasileiros se tornassem reféns dos monopólios estrangeiros criadores das sementes transgênicas, particularmente da norte-americana Monsanto. Naquela época alguns produtores acreditaram nas vantagens dessa “nova tecnologia”. Essas sementes realmente trouxeram alguma vantagem aos produtores brasileiros?

Requião – Não. Quem se encantou com as tão decantadas vantagens da semente modificada, rapidamente se arrependeu. Os produtores viram-se reféns das multinacionais produtoras de sementes e do roundup, o herbicida fabricado pelo Monsanto. A cobrança de royalties pela semente utilizada foi e é um ponto de atrito permanente entre os produtores e as proprietárias das patentes das sementes OGM. Depois de avançarem com muita sede ao pote, a Monsanto et caterva foram obrigadas a moderarem os preços, diante da revolta dos agricultores. O entusiasmo inicial pelos transgênicos foi-se. Hoje, a soja natural tem preço mais elevado que a soja transgênica, por exemplo. Muitos países baniram os transgênicos e não aceitam importar soja OGM. É bom lembrar que o Brasil foi um dos países que mais investiu na produção de soja, milho, feijão, arroz, trigo e assim por diante. Os índices de produtividade da soja e do milho com variedades desenvolvidas pela Embrapa são excepcionais. No entanto, sorrateiramente, através de contrabandos programados pelas multinacionais, foram introduzidas as sementes transgênicas, com o objetivo de submeter os produtores brasileiros ao domínio da Monsanto, da Bayer, da Syngenta e da sagrada irmandade. As sementes transgênicas nada mais são que mais um capítulo da geopolítica das grandes potencias, para dominar os países periféricos.

HP/ASOL– Pode fazer um balanço dessa luta e as razões que o levaram a travá-la?

Requião – Foi uma luta dura. Como sempre, a grande mídia alinhou-se incondicionalmente às multinacionais e às federações patronais. Demonizaram-me. A luta contra os transgênicos é a luta pela soberania nacional. A soberania da semente brasileira, sem patentes, sem royalties, sem dependência do glifosato. A soberania do petróleo. A soberania de nossas águas. A soberania de nossos mares. A soberania da Amazônia. A soberania de nossas fronteiras. A soberania de nosso espaço aéreo. A soberania de nossa economia. A soberania de nossa moeda. Não dá para desligar a nossa agricultura desse conceito de soberania nacional. E a semente transgênica é o oposto de soberania, é a submissão, a escravidão, a colonização, a dependência.

HP/ASOL– As sementes transgênicas foram criticadas em diversos centros de pesquisa como tendo efeitos deletérios à saúde humana e vários países proibiram a sua entrada. O senhor e os cientistas que criticavam as sementes transgênicas eram taxados de “hereges” pelos monopólios e por sua mídia. Em sua opinião por que o Brasil não exigiu estudos mais sérios sobre o tema?

Requião – Uma das providências iniciais da Monsanto et caterva para enfiar goela abaixo do país as sementes OGM foi o domínio da mídia. Elas criaram institutos supostamente científicos, enganadoramente isentos, como o Conselho de Informações sobre Biotecnologia, que promovem seminários, pagam viagens, fazem excursões, patrocinam blogs, tudo para engambelar jornalistas, trapacear informações, deformar opiniões. O CIB formou um verdadeiro exército invasor, uma quinta-coluna a serviço das multinacionais das sementes OGM. Eu fui massacrado por essa gente. Jornalistas, inocentes úteis ou assalariados mesmo, infernizaram o governo do Paraná por causa da posição anti-OGM. As vozes anti-OGM, na mídia, na academia, no Parlamento, nas associações de classe, nas cooperativas foram hostilizadas, desrespeitadas. O poder do dinheiro das multinacionais é impressionante. Compra tudo. Elas impediram que houvesse um debate sobre o tema. Elas impediram que o tema fosse estudado de forma científica, com seriedade e isenção. É bom lembrar que a introdução das sementes OGM no Brasil coincide com o triunfalismo neoliberal, com a imposição do pensamento único na área econômica, com o domínio da mídia por esse pensamento único. Quem se opunha à globalização neoliberal era classificado de atrasado, de ultrapassado. Da mesma forma, quem se opunha aos transgênicos era tido como dinossauro. O papel da mídia monopolista na introdução dos transgênicos no Brasil é inestimável.

HP/ASOL– Por que foi permitida a entrada, primeiramente de forma clandestina (final da década de 90), de sementes transgênicas no país, e depois legalizada (em 2005)? Como avalia a atuação do poder público nesta questão?

Requião – Evidentemente, a entrada das sementes OGM não foi tão clandestina assim. Não foi na calada da noite, ao abrigo da fiscalização. Foi uma articulação muito bem planejada pelas multinacionais. Elas não foram nada inocentes nesse contrabando. Primeiro criaram o fato. Criado o fato, obrigaram o governo a “legalizar” os transgênicos. Com medo de um embate com os produtores, o governo cedeu. Feito isso, liberou geral. O governo poderia ter limitado a área de plantio OGM. Poderia ter criado áreas livres de OGM. Foi o que propus. Queria que o Paraná fosse um estado livre de transgênicos. O presidente Lula chegou a me acenar com isso, mas não conseguiu conter as pressões das multinacionais. Ele também acabou cedendo.

HP/ASOL– Hoje a eficácia da semente de soja RR, da Monsanto, como semente “mais produtiva e resistente às pragas”, está sendo questionada pelos próprios usuários, mas mesmo assim os produtores são obrigados a pagar bilhões anualmente em royalties. O senhor acha que esses produtores já têm consciência de que foram enganados?

Requião – Claro que eles têm consciência. Mas como se libertar da escravidão dos transgênicos? Depois que você entra no circuito OGM não é tão simples assim romper as amarras. O governo nada faz, as associações patronais estão comprometidas, a mídia completamente dominada. A luta pela soberania das sementes faz parte da luta pela soberania nacional. Soberania política, soberania econômica, soberania cultural. Uma coisa depende de outra. O campo todo já foi contaminado pelos transgênicos, como se fosse uma praga. Não há como escapar disso se não houver uma política anti-OGM. Os nossos agricultores caíram na armadilha e não é tão simples assim escapar.

HP/ASOL– Nem mesmo a lei de patentes do país está sendo respeitada pela Monsanto. Ela insiste em cobrar royalties pela semente RR (Roundup Ready) mesmo a patente tendo caído em 2010. Produtores do Mato Grosso e Rio Grande do Sul estão em pé de guerra com empresa por causa disso. Por que, na sua opinião, os governos não agem nessa disputa para garantir a aplicação da lei?

Requião – Não agem em relação aos transgênicos da mesma forma que não agem em defesa do petróleo, da Amazônia, dos índios, da segurança alimentar. A Monsanto por um acaso respeitou a soberania nacional, respeitou as fronteiras nacionais ao estimular o contrabando das sementes OGM? A Monsanto et caterva agem como piratas predadores, que não respeitam fronteiras, legislações, tradições, culturas. Não há fronteira, não há regras para esses piratas. Lei de patentes? Ora, a lei….

HP/ASOL– Além de cobrar royalties de uma semente que já caiu no domínio público, a Monsanto, anunciou que teria feito modificações na semente RR e está “lançando” a “RR2”, que conteria, segundo eles, a “expressão genética” de uma bactéria que combate pragas. Com isso ela já poderia voltar a cobrar royalties das novas sementes sem questionamentos judiciais. Os produtores contestam essa “propriedade” da semente e estão denunciando a manobra. Em sua opinião, o que o país deveria fazer numa situação como esta?

Requião – Tão pura e simplesmente intervir. O abuso e o esbulho da Monsanto et caterva são altamente ofensivos à soberania nacional, à economia e aos interesses de nossos agricultores. Não é possível que empresas como a Monsanto continuem agindo como se aqui fosse terra de ninguém. Chega de tanto desrespeito! Chega de tanta trapaça, de tanta enganação, de tanta mentira. A Monsanto et caterva não podem continuar agindo dentro do Brasil com o se fossem repúblicas independentes, com suas próprias leis, regras e normas. A cada passo, as multinacionais das sementes vão criar um artifício para continuar explorando os nossos agricultores. E o nosso governo continuará sendo conivente e omisso.

HP/ASOL– O nosso assunto central desta edição são os transgênicos, mas eu não poderia terminar essa entrevista sem perguntar sua opinião sobre a questão agrária no país. Diz-se que o tema “reforma agrária” perdeu importância no Brasil. Mas, então, como interpretar os dados do último censo agropecuário do IBGE (2006) que mostram que apenas 3% das 5,2 milhões de proprietários rurais detém 63% de todas as terras agricultáveis no Brasil?

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Requião – A reforma agrária perdeu atualidade e importância para o agronegócio, para a mídia monopolista, para essa nossa elite escravocrata, mesquinha e colonizada. A novidade para eles é vender terra para estrangeiro. Veja, dizem que há uma crise do feijão. Ora, quem produz feijão? Quem produz quase tudo o que se coloca à nossa mesa todos os dias? Não é o agronegócio, é claro. Mas o agronegócio, os grandes proprietários de terra demonizam, satanizam a reforma agrária. Reforma agrária continua sendo um assunto tabu, continua sendo subversão, coisa de comunista agitador. Pobre Brasil! A concentração da propriedade da terra no país não difere da concentração de rendas. Se três por cento dos 5,2 milhões de proprietários rurais detém 63 por cento de todas as terras agricultáveis, não menos de 20 mil famílias de rentistas detém a quase totalidade da dívida pública brasileira, e lucram de forma indecorosa com os fantásticos juros dessa dívida. Concentração de terras, concentração de rendas, concentração de riquezas. Somos, seguramente, um dos países mais desiguais do planeta Terra.

HP/ASOL– Parece que a reforma agrária não foi prioridade, nem antes, nem nos últimos governos. Segundo o professor Lauro Mattei, da UFSC, nos últimos 30 anos, 1,1 milhão de famílias foram assentadas em todo o país, enquanto, no mesmo período, mais de 3 milhões de famílias saíram do campo, contribuindo para o agravamento dos problemas sociais das grandes cidades. O que o senhor acha dessa situação e desses dados?

Requião – Nos meus dois últimos mandatos como governador do Paraná, entre 2003 e 2010, desenvolvi uma política de forte apoio à agricultura familiar, à pequena agricultura. Criei um fundo de aval para garantir empréstimos, na rede bancária, a esses agricultores. Era o governo, diretamente, que garantia financiamentos bancários para os meeiros, posseiros, assentados, parceiros. Nenhum banco recusava o financiamento, porque o avalista era o estado do Paraná. Não interessava para o banco se o agricultor tinha ou não documentos da terra. Criei um programa que distribuiu milhares de tratores para mecanizar a propriedade familiar. Criei um programa de baixíssimo custo para a eletrificação rural. Criei um programa de irrigação. Criei um programa de distribuição de sementes. Refiz toda a estrutura de extensão rural que havia sido destruída. Refundei colégios e escolas agrícolas, para formar o filho do agricultor familiar. E assim por diante. Resultado, no fim de meu governo obtivemos uma marca inédita: pela primeira vez em décadas, o Paraná deixou de perder propriedade rural. O número de propriedades familiares, que a cada ano diminuía, deixou de diminuir. Contivemos o êxodo. Imaginem vocês então o que aconteceria em nosso país se houvesse uma reforma agrária, com medidas de apoio aos assentados, aos agricultores sem- terra!

HP/ASOL– O latifúndio, que controla a maioria esmagadora das terras agricultáveis, e pratica a monocultura, efetivamente não produz para os brasileiros. Já a agricultura familiar cultiva os 37% restante das terras e nela produz 84% da mandioca, 67% do feijão, 49% do milho, 52% do leite, 58% dos suínos, 56% das aves. Apesar disso, esse setor recebe uma parte minúscula dos financiamentos públicos, enquanto o agronegócio fica com o filé mignon. No momento estamos vivendo, inclusive, uma crise no preço do feijão e a carestia dos produtos alimentícios já bate à porta dos brasileiros. O que o senhor acha de uma situação como esta?

É a agricultura familiar que assegura a grande maioria do sustento alimentar do povo brasileiro (foto: Marcos Nitro) Fotos dos produtores de alho na regiao de sao gotardo. Foto: MARCUS DESIMONI / NITRO

É a agricultura familiar que assegura a grande maioria do sustento alimentar do povo brasileiro (foto: Marcos Desimoni)

Requião – Você, ao formular a pergunta retratou a nossa realidade. Aos nossos governantes, não é de hoje, o que interessa é a exportação de commodities. A agricultura familiar, a agricultura produtora de alimentos para consumo interno que se dane. Somos o ideal de todo colonizado, uma grande plantation. Somos o país ideal para essa elite que, desde as sesmarias, desde as capitanias hereditárias dominam o país. O ideal de transformar o Brasil em um grande Portugal, isto é, fornecedor de produtos primários para a exportação, realizou-se. A nossas classes dominantes deram o que tinham que dar. Já atrapalharam demais a nossa vida, a nossa história. Elas precisam ser removidas antes que o Brasil sucumba.

HP/ASOL– Está em discussão no parlamento a liberação da venda de terras brasileiras para estrangeiros. Qual a sua opinião a esse respeito?

Requião – É o coroamento do entreguismo. É a tradição centenária de nossas elites. Entrega o ouro, entrega o pau brasil, entrega o açúcar, entrega os minérios, entrega o petróleo, entrega a Amazônia e, agora, entrega as terras. O Brasil precisa ser salvo dessa gente. Não há mais como conciliar, dialogar, negociar, ceder. Acabou! Ou fazemos a Revolução Brasileira ou vamos ser expelidos da história. A história não perdoa!

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