Marcello: o outro Guimarães das Gerais

Mario Drumond

Publicado na Gazeta em forma de e-meio 57 Vol. 2 – 17/8/2008 com o título “Marcello Guimarães”.

Foto: Leo Drumond

Marcello Guimarães  ☼1938 – †2008 (Fotos Leo Drumond)

Há uns cinco ou seis anos, quando a bandeira da biomassa ainda era exclusiva da resistência, Marcello Guimarães organizou um evento na Câmara de Vereadores de Belo Horizonte sobre o assunto. Ali, numa das mais destacadas intervenções, o sociólogo e jornalista Gilberto Felisberto Vasconcellos, que havia acabado de lançar um livro sobre o trabalho de Marcello (A Salvação da Lavoura, Casa Amarela, 2002), fez um discurso no qual dizia que o seu “maior sonho era ver Marcello como governador de Minas”. Lembro-me que uma parte da pequena audiência que compareceu ao evento era de petucanos espiões, e, no momento em que Gilberto disse isto, eles se entreolharam como a dizerem: “Este paulista é louco”. Porém, duvido que os anais da Câmara de Vereadores de BH conservem em seus arquivos um pronunciamento mais lúcido, mais sensato e mais apegado aos interesses de Minas do que o do nosso querido “paulista”, que considero um dos melhores mineiros que conheço e que de louco não tem nada.

Marcello não governou Minas mas governou 300 hectares de terras bem aqui perto, no município de Mateus Leme, e Gilberto, que conhece bem o pedaço, sabia do que estava falando. “Minas tem vocação rural”, diz ele, “o mineiro é antes de tudo um roceiro, e um bom mineiro será sempre um roceiro dos bons”. Como diria outro ligado nas coisas de Minas, o músico e compositor Guilherme Vaz, o mineiro “cisma com o mato”.

Marcello adquiriu aqueles 300 hectares nos anos 70 como terra arrasada por monocultivos predadores sabendo que seriam necessários os 30 anos que se passaram para ressuscitá-la e transformá-la no paraíso ecológico e produtivo em que se tornou. Metade, reservou para o crescimento monitorado de uma floresta que hoje a fazenda ostenta, soberba, como se lá sempre estivera; na outra parte, ele desenvolvia e punha em prática os projetos e invenções de sua Escola da Biomassa. “Todos os problemas do Brasil” – disse-me Marcello – “podem ser resolvidos pela terra, esta mesma em que estamos pisando”. Todos? – duvidei. “Sim, todos” – retrucou – “não só os econômicos, mas também os sociais, a criminalidade, o desemprego, os políticos e até os culturais”.

Marcello era um cientista que via a natureza como uma rede onde tudo é interligado, e a interação entre os elementos, um processo contínuo de transformações. Se o ser humano a conhecer bem e de perto, saberá tirar proveito dela para todas as suas necessidades, sem prejuízo e até em contribuição ao processo vital que a faz crescer e florescer. O curso das águas, os plantios certos nos locais certos e nos tempos certos, os cortes, as podas e as colheitas racionais, o papel dos animais e do gado, o aproveitamento das sobras e resíduos para os adubos, enfim, nada se perde, tudo é vida que vira alimento de outra vida, e assim por diante a natureza provê e satisfaz continuadamente a todas elas, era como ele entendia, poeticamente, os tais “recursos renováveis”. Era um intelectual que, aos 70 anos de idade, ainda escrevia boa parte de suas teses no sulcar da terra com a enxada pelas próprias (e calosas) mãos.

Em seu livro, Gilberto anota as notáveis semelhanças do trabalho de Marcello com a sabedoria oriental, em particular a chinesa revolucionária dos tempos de Mao Tsé Tung. A microdestilaria de álcool, pérola entre as inúmeras invenções de Marcello para a economia rural brasileira, estandarte da sua Escola da Biomassa e motor do ciclo de energia com que ele trazia “os trabalhos e os dias” da época de Hesíodo para o século 21, Gilberto a consagra como um invento “mais importante do que a máquina a vapor”. Ela viabiliza e torna independente a pequena propriedade rural e a agricultura familiar nos solos férteis de toda a América Latina a partir de um ciclo agro-produtivo que interligava a produção do açúcar e álcool ao leite.

A obra dele, pela força de criação e conteúdo revolucionário, tem despertado o interesse de movimentos sociais nacionais e internacionais, e sua fazenda tem sido visitada por gente do mundo todo. Em muitas partes do país, e mesmo no exterior, seus projetos foram copiados em colaboração desinteressada com o próprio inventor, que jamais recebeu incentivo material ou institucional por parte dos canais (in)competentes que teriam a obrigação de estimular e promover iniciativas como a dele.

Este gazeteiro fez duas reportagens (Guilherme Vaz as chama de “compartilhamentos”) na fazenda de Marcello. A primeira registrou o início das operações da microdestilaria e foi publicada na revista Caros Amigos em março de 2003, com grande repercussão. A segunda, quatro anos depois, registrou o vitorioso progresso e a confirmação de ousadas experiências ali levadas a cabo (inclusive, de enxada) e que se mostraram demolidoras de vários dogmas, mitos e tabus acadêmicos. Foi revisada pelo próprio Marcello, mas permanece inédita. Estávamos combinando as fotografias – que acompanhariam os trabalhos de Marcello ao longo de todo um dia produtivo – quando a sua até então invicta saúde física tomou a rasteira do destino que o levou à via crucis por hospitais e cirurgias até o seu falecimento na madrugada de sexta-feira passada, 15 de agosto.

Que a sua passagem desperte enfim as autoridades locais, municipais, estaduais e federais do incurioso descaso que a obra de Marcello mereceu delas durante toda a sua vida, e que se promova a continuidade do vitorioso legado que ele nos deixa em sua fazenda, na Escola da Biomassa e nos escritos, anotações e publicações de sua autoria.

Marcello Guimarães, mineiro de Dores do Indaiá, era católico praticante, e, disseram-me, era Filho de Maria. Se é verdade, foi no dia em que os católicos comemoram o dia da Assunção daquela que, segundo o seu credo, é a mãe de todos nós, que ele foi levado para junto dela. No meu credo, ele é uma nova estrela que hoje brilha forte nos céus límpidos de agosto, em Minas Gerais, e lá permanecerá brilhando a eternidade toda.

“Ora, direis, ouvir estrelas…”

Sim, digo eu, à inspiração de Vieira: ouvi-las sempre, e nunca olvidá-las.