Ideias lógicas e ideologia*

Mario Drumond

A afirmação do sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos de que “a microdestilaria de Marcello Guimarães é uma invenção mais importante do que a máquina a vapor” (1) provoca o imediato menosprezo de letrados, analistas e medalhões acadêmicos que se proliferam nas publicações nacionais de opinião e tecnologia. É que tais cabeças são formadas no pensamento colonialista, inclusive racista, de que isso de invenções historicamente importantes só acontece numa espécie de Olimpo anglo-saxão, único santuário do planeta onde se possa admitir o nascimento e a evolução de gênios inventores. Um santuário que é, antes de tudo, capitalista, por certo.

Mas, se retirarmos toda a névoa mitológica e tendenciosa com que os redutos acadêmicos costumam encobrir a realidade histórica pura e simples, vamos verificar que, sem desprezo ao gênio de James Watt, o que ele realmente inventou não foi a tão badalada “máquina a vapor” – esta a humanidade já conhecia desde que aprendeu a dominar o fogo -, e sim a sua aplicação num engenho elementar e sem nada de especial ou de complexo do ponto de vista científico, porém, capaz de solucionar muitos dos problemas de seus clientes, ansiosos por gerar uma oferta de produção que atendesse à uma demanda que já os pressionava, naquele período em que a revolução burguesa na Europa afirmava-se inexorável e em pleno curso.

Foi, portanto, nada mais do que uma ideia lógica que satisfazia a uma ideologia, o capitalismo (hoje disfarçado de “economia de mercado”), abraçada pela então incipiente burguesia, a classe revolucionária da época, como demonstrou Engels com fartura de argumentos. Sem dúvida, foi a ideia que marcou o ponto em que se desatou de forma definitiva aquilo que hoje chamamos de Revolução Industrial, fundamental para o crescimento do capitalismo no século XIX. Visto assim, o feito de Watt, como invenção, tem muito mais importância histórica do que tecnológica ou científica. Seria o triunfo da revolução burguesa e do capitalismo que o levaria aos altares da sacrossanta divindade da invenção científica, diante da qual se ajoelham as cabeças colonizadas em tais princípios e dogmas que nada têm de científicos.

Inclusive, tornou-se obsoleta tão logo se pôs em prática a máquina a combustível líquido. Inicialmente desenvolvida tanto para o álcool como para o petróleo (gasolina), e cuja eficiência, além de outras características mais “avançadas”, ela resolvia melhor o problema industrial capitalista, como até hoje sói acontecer com aquilo que Marx denominou “inovações tecnológicas a serviço da lógica capitalista”. Neste pressuposto, surge uma pergunta: por que não prevaleceu o álcool, então um combustível muito mais abundante e mais fácil de ser obtido, e sim o petróleo?

No início, aos primeiros motores a combustível líquido não importava se se utilizava o álcool ou a gasolina, usava-se o que estivesse mais à mão. Na Europa, que não produzia álcool, punha-se a gasolina. Nas Américas, tão logo a escala cresceu houve uma tendência para o álcool, por sua maior abundância e facilidade de produção a partir de várias fontes vegetais. Os primeiros “Modelos T”, da Ford, foram fabricados “à álcool”. Foi por decisão do estabilishment norte-americano, em particular, de John Rockfeller, que se definiu pela matriz do petróleo, ainda nas primeiras décadas do século 20. Em 1929, um gênio caboclo tupiniquim, Oswald de Andrade, já protestava: “O ouro entra pelo café e sai pelo escapamento dos automóveis. Gastamos trezentos mil contos por ano em pneumáticos, gasolina ou coisa parecida. A Amazônia da borracha e a baixada do álcool-motor perecem”.

Mas, na opinião do autor deste artigo, quem melhor responde à pergunta é outro gênio, também caboclo e tupiniquim, inventor que a história ainda afirmará como mais importante que James Watt – o cientista político, geólogo e roceiro Marcello Guimarães.

Marcello se baseia numa argumentação tão simples como fundamental: “O petróleo é o poço, o petróleo concentra” – diz ele – “é fácil cercar o poço e defendê-lo, além de se necessitar pouca gente para tirar dele o petróleo em larga escala; é um combustível que serve fundamentalmente ao capitalismo. Já o álcool espalha, necessita áreas abertas e muita gente para produzi-lo; ele será o combustível do socialismo”.

Marcello e sua micro-destilaria (foto: Leo Drumond)

Marcello e sua micro-destilaria (foto: Leo Drumond)

É aí que chegamos à sua micro-destilaria. Marcello não inventou uma destilaria de álcool de pequeno formato – esta a humanidade conhece desde que aprendeu a dominar o vapor. O que ele inventou foi a sua aplicação em um processo de produção que se ajusta perfeitamente aos propósitos socialistas, os quais a humanidade agora terá de pôr em prática, a partir de seu próprio e humano instinto de sobrevivência.

As reservas mundiais de petróleo estão findando e, com elas, o capitalismo. Em desespero, a burguesia capitalista, pelo poder que ainda mantêm, tenta se apropriar da produção de álcool, e, não podia ser de outra forma, nos moldes capitalistas. Produção altamente mecanizada, em escalas enormes e ocupando áreas gigantescas que precisam, antes, ser devastadas.

“Um esforço inútil e predador” – pontificava Marcello com conhecimento de causa, ciência e inquestionável experiência – “as plantations capitalistas são inviáveis sob todos os aspectos: econômicos, políticos, sociais e científicos. Já conhecemos os resultados nefastos dos monocultivos, mas não fica só aí. Quanto maior a área plantada em torno de uma megausina de álcool menor será o saldo energético obtido com a sua produção em relação à quantidade do mesmo álcool (ou de petróleo, enquanto existir) que se necessita consumir para cultivar e transportar a sua matéria prima seja ela qual for. Sob o ponto de vista capitalista, as megausinas só são viáveis nos primeiros anos, e mesmo assim, no caso brasileiro, graças ao trabalho semiescravo que ainda se consegue arregimentar para as colheitas e às políticas governamentais para a terra, todas favoráveis aos latifúndios. Depois a terra começa a pedir cada vez maiores quantidades de fertilizantes e agrotóxicos (à base de petróleo) até se exaurir e se transformar num deserto, o latifúndio do nada”.

A invenção de Marcello Guimarães está, em seu aspecto mais genial, na utilização de uma micro-destilaria simplíssima e de facílima fabricação como motor de um ciclo produtivo criado para pequenas propriedades rurais, entre 10 e 30 hectares. A partir de conhecimentos corriqueiros aos ambientes rurais no Brasil e em adequação com a terra e as águas correntes, ela viabiliza um mini-ciclo agropecuário, com o concurso de entre quatro a dez trabalhadores, capaz de produzir alimentos orgânicos de bases animal e vegetal que não só dariam auto suficiência à propriedade como gerariam excedentes para os mercados locais e matérias primas para pequenas e grandes indústrias. Além disso, a propriedade teria auto suficiência energética e geraria, na micro-destilaria, cerca de 200 litros de álcool/dia. A este ciclo ele deu o nome de “autodesenvolvimento”.

Segundo ele, veterano conhecedor do solo e das terras mineiras, somente em Minas Gerais é possível, em pouco tempo e com uma reforma agrária bem resolvida, sem maiores traumas políticos, estabelecer-se um milhão de propriedades como estas. Isto significaria, de imediato, um potencial de cerca de cinco milhões de empregos nas áreas rurais e uma produção de combustível líquido e limpo em torno de 200 milhões de litros de álcool/dia (mais ou menos a metade da produção diária de petróleo de um país como a Venezuela). Sem contar as enormes produções de leite, laticínios, hortigranjeiros e frutíferos que passariam a ser viabilizadas nessas mesmas propriedades, gerando, em conjunto, quantidades (com qualidade) suficientes para atender todo o mercado nacional e ainda exportar.

Se passarmos a uma escala nacional, o Brasil se tornaria rapidamente uma potência produtora de combustível líquido muito maior do que a Arábia Saudita e com uma produção de alimentos capaz de abastecer mais da metade da população do planeta.

Tudo isto ele demonstrou na prática em sua propriedade modelo, no município de Mateus Leme, a 40 km de Belo Horizonte. O processo atende às necessidades de energia, emprego e alimentos, e ainda incrementa a diversidade ecológica da natureza exuberante que caracteriza as nossas terras. Marcello chegou a sofisticações que o levaram à produção acessória e complementar de vários subprodutos de seu labor criativo, a saber, alguns deles: cipós e ervas medicinais, chás e infusões curativas, várias castanhas e especiarias, à piscicultura científica e subprodutos da pesca, e ao aproveitamento racional de sobras e rejeitos como matérias primas para fertilizantes e adubos orgânicos, além de inúmeros outros aproveitamentos que a inventividade do roceiro-cientista poderia ter levado ao infinito.

Em sua experiência de autodesenvolvimento, ele conquistou a suficiência financeira e o desligamento da Copasa e da Cemig (empresas de fornecimento de água e energia elétrica em Minas) para a sua propriedade-laboratório. Não necessitava nela de nem uma gota de petróleo e derivados. E chegou a produzir uma excelente cachaça, a Coração da Cana, que este autor teve a oportunidade de degustar tendo por tira-gosto aspargos colhidos na hora (a célebre iguaria mais conhecida por fresh asparagus) e preparados no fogão de lenha pelo próprio inventor. Era um cientista e um intelectual ao mesmo tempo, e a maior parte de suas teses ele as escreveu com o sulcar da terra pela enxada com as próprias (e calosas) mãos.

Marcello e a Cemig (foto: Leo Drumond)

Marcello e a Cemig (foto: Leo Drumond)

A invenção de Marcello é a descoberta da ideia lógica para o socialismo, cuja vitória já se faz iluminada nos horizontes da realidade mundial, se a humanidade pretende permanecer vivendo e convivendo neste planeta.

Ela soluciona o problema da expansão, diversificação e multiplicação da pequena propriedade rural e da agricultura familiar, viabilizando-a financeiramente e possibilitando-lhe sobrevivência ecológica, auto suficiência energética e alimentar, independência econômica e liberdade política.

Ela traz para o século 21 “os trabalhos e os dias” de Hesíodo e a vitoriosa disciplina revolucionária e produtiva proposta por Mao Tsé Tung em sua Revolução Cultural.

O futuro que ela promete não sublimará o inventor a altares mitológicos ou divinos, mas se valerá da consciência e do conhecimento da história para reconhecer o valor e a imortalidade do seu gênio.

James Watt é o autor de uma ideia lógica para uma ideologia passageira e obsoleta que agora agoniza submersa em suas próprias contradições. Marcello Guimarães o é para a humana idade que hoje renasce, sempre foi, é e será eterna.

Gilberto tem, ou não, razão?

* Texto inédito, escrito em 2005.

(1) Gilberto Felisberto Vasconcellos, A Salvação da Lavoura, Casa Amarela, São Paulo, 2002.

 

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