A salvação da lavoura* (cap. 1 – INTERPRETAÇÃO ENERGÉTICA DA GÊNESE E DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE INDUSTRIAL)

Gilberto Felisberto Vasconcellos

A situação dramática do homem brasileiro é que o trópico, sendo tão rico e dotado de excelente energia, continua palco de uma sociedade miserável.

Fato escandaloso da  civilização do Brasil é a contradição entre a melhor energia do cosmos e o povo passando fome, de modo que muito da nossa loucura vem deste desconvívio entre a fortuna dos recursos naturais – natureza viva e solo – e a depauperação dos setores majoritários da população. É sobre esse tipo de “atraso” que os melhores intelectuais brasileiros tentam oferecer explicação: nós na história da humanidade. Então o ponto de partida é uma espécie de fenomenologia colonial e, consequentemente, o divórcio entre natureza e cultura que caracteriza a alienação do ser colonizado. (até aqui na pág. impressa)

No século XVI nos tornamos colônia européia na zona geográfica dos trópicos. A Europa nos trouxe o trabalho escravo e o processo colonizador cuja base energética era o negro escravo e a mula. O engenho de açúcar a serviço da metrópole de além mar. Passados quinhentos anos, é mister abordar o processo colonial sob o ângulo da crise energética e ecológica em curso hoje no mundo.

O sociólogo Gilberto Freyre salientou com brilho e ênfase o mundo que o português criou, mas ainda falta proceder à investigação sobre o desempenho civilizacional do luso nos trópicos do ponto de vista energético. E para isso ninguém mais abalizado na atualidade do que o cientista Marcello Guimarães, o geólogo mineiro formado na Escola de Ouro Preto no início da década de 60, cuja trajetória profissional se destaca pela singularidade no conhecimento científico dos trópicos, porque vai do subsolo geológico à floresta, tendo um notável saber de experiência feito, como dizia o grande poeta Luiz Vaz de Camões, a quem nosso Luis da Camara Cascudo considerava “o mouro indispensável”, sublinhando em seu livro “Prelúdio e Fuga do Real”: foi o mouro que provocou a formação moral portuguesa. E a primeira etapa energética no Brasil se deu com o moinho d’água, que é uma invenção mulçumana.

Este livro compõe conversas e diálogos mantidos com Marcello Guimarães, cuja atividade profissional se inicia na Petrobrás, depois na empresa Andrade Gutierrez, 4 anos na Amazônia, na Acesita da floresta energética durante 8 anos, em seguida na Vale do Rio Doce e na Secretaria de Tecnologia Industrial (Próalcool) junto com J.W. Bautista Vidal, no Departamento Nacional de Combustível (hoje ANP, Agência Nacional de Petróleo) e, finalmente, como acessor do presidente da CEMIG.

Marcello na ANP

Marcello: cientista e lavrador da energia dos trópicos (foto: Leo Drumond)

Este livro é mais dele do que meu. Minha função foi a do repórter abrindo as oiças para ouvir um excepcional cientista, talvez único no mundo, que lidou com todas as esferas da atividade energética: petróleo, carvão mineral e carvão vegetal.

Só faltou a energia nuclear, mas esta felizmente já foi descartada como substitutiva dos combustíveis fósseis. O “ovo atômico” não deu certo no fornecimento de energia elétrica. Ninguém mais acredita em “átomos para a paz”, ou na insana palavra de ordem: “sem energia atômica apagam-se as luzes”.

Na verdade, Marcello Guimarães só não se ocupou em sua atividade de cientista foi com o vento; mas o eólico, como ele mesmo diz, é fraco na região de Minas Gerais, que é o seu umbigo do mundo, conhecida em todos grotões e reentranhas, palmilhada palmo a palmo, por isso ganhou o justo epíteto de o Guimarães Rosa da geologia mineira, porque agora a travessia é a passagem do petróleo sujo para a biomassa limpa. Aliás, o Guimarães já está em seu nome.

Nascido em 1938 no Cedro do Abaeté, à beira do rio Indaiá, Marcello Guimarães foi buscar as premissas históricas e energéticas à explicação da diferença social e econômica entre o Hemisfério Norte e Hemisfério Sul, através de um raciocínio claro, linguagem de sábio, trazendo uma nova interpretação da superexploração capitalista do trabalho que castiga a totalidade da sociedade brasileira.

“No planeta terra em virtude de um condicionamento geológico, que foi determinado por uma inclinação diferenciada do eixo da terra em relação ao sol, ocorrida inicialmente no período carbonífero e depois no triássico, houve um acúmulo de vida, de que resultou o acúmulo de matéria orgânica geradora dos combustíveis fósseis nas regiões hoje conhecidas como temperadas do planeta”.

Esta é a primeira vez que me deparo com uma explicação das origens da sociedade industrial de fazer inveja a Marx, a Weber e aos seus discípulos latinoamericanos nas ciências sociais e econômicas.

Marcello Guimarães estabelece um diagnóstico das causas do nosso atraso a partir da distinção entre as regiões frias ou temperadas e as regiões intertropicais.

“Os combustíveis fosseis – carvão mineral, petróleo e gás natural – ocorrem em jazidas superconcentradas nas regiões acima do trópico de Câncer e, em menor parte, abaixo do Trópico de Capricórnio.”

Quanto à noção de trópico, é preciso levar em conta a seguinte ambivalência: situadas entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, as regiões tropicais dispõem de uma fonte de energia solar geradora de exuberantes formas de vida. Essas formas de vida podem ser as causas das doenças tropicais, mas também a origem da energia chamada biomassa, a qual movimentará o planeta depois da exaustão dos combustíveis fósseis.

Marcello Guimarães tem um plano para Minas alcançar auto-suficiência energética através da biomassa agrícola, tirando da crise cerca de 400.000 propriedades rurais que hoje estão à beira da falência naquele estado. É o autodesenvolvimento.

O plano “álcool-leite-cachaça” de Marcello Guimarães propõe criar dezenas de milhões de empregos na área rural, o que é uma estratégia para esvaziar a megalópole, palco de violência, de marginalidade e de loucura.

Cito-o: “é mais fácil produzir álcool do que cachaça. É mais barato produzir álcool do que leite. É mais fácil e mais barato produzir ambos de forma conjugada e tendo como subproduto adubo orgânico.”

O problema é que os boçais e idiotas acreditam que o petróleo seja a última energia do planeta.

Minha esperança é ver um dia Marcello Guimarães governar estas Minas Gerais.

Não estou hiperbolizando nada.

Autêntico mineirão de elevada densidade humana e intelectual, Marcello Guimarães não é chegado a receber elogios bajulantes, mas sem dúvida ele merecia ganhar o prêmio Nobel por ter feito simultaneamente o diagnóstico do atraso do Brasil e indicado o caminho para alcançar o autodesenvolvimento, em que é possível o pleno emprego.

Santa Luzia_MG, Brasil...Centro de Processamento de Merenda Escolar de Santa Luzia. O Centro distribui merenda para 29 escolas municipais da cidade, atendendo mais de 18 mil alunos diariamente. ..Processing Center School Meals in Santa Luzia. The Center distributes meals to 29 municipal schools in the city, serving 18.000 students daily...Foto: BRUNO MAGALHAES / NITRO

autodesenvolvimento e pleno emprego: a receita da fartura para o povo brasileiro ( foto Bruno Magalhães)

“A Energia tem sido na história o principal fator de libertação material do homem, tanto a energia do vento quanto a da água, mas é na energia da madeira que ele encontrou o maior potencial natural à sua disposição.

Desde os primórdios da civilização, a energia solar – armazenada pelas florestas – vem sendo utilizada com sucesso pela humanidade. Inicialmente a simples energia à lenha e, depois, a do carvão mineral resultante da fossilização de florestas inteiras.

Mas o uso da lenha e do carvão, em suas condições sólidas, não tinha ainda respondido à grande necessidade de mobilidade do homem. Foi a descoberta e o conseqüente uso do petróleo que viabilizou o deslocamento do homem e seus produtos sobre o planeta.

O conhecimento de que as reservas de petróleo seriam esgotáveis em prazos curtos, não trazia grande preocupação aos países detentores do poder energético, uma vez que a descoberta da energia nuclear parecia ser a panacéia que iria resolver todos os problemas energéticos, liberando grandes quantidades de petróleo para o seu fim nobre e insubstituível: a locomoção.

Porém, em pouco tempo, a consciência da característica antidemocrática da energia nuclear (que exigia sistemas crescentes de segurança, culminando em Estados totalitários) e a impossibilidade do controle dos resíduos nucleares, não permitiram o desenvolvimento desta energia nos moldes preconizados.

A outra possibilidade seria o retorno em larga escala ao uso do carvão mineral, o que foi ensaiado pelas grandes companhias de petróleo; mas a substituição do petróleo criou tantos problemas ambientais que a substituição foi considerada inviável.

Portanto, as alternativas para o petróleo estavam fadadas ao insucesso, trazendo pânico ao mundo industrializado totalmente dependente do petróleo.

Além disso, cabe lembrar que todas tentativas feitas até hoje quanto à utilização da energia elétrica para as funções de transporte, resultaram em soluções de menor importância, primeiro pelas dificuldades técnicas e segundo pela disponibilidade, relativamente pequena, quando comparada com a necessidade de petróleo”.

O leitor tem aí a justificativa histórica irrefutável da hora e da vez dos países tropicais, ou seja, o motivo pelo qual a energia renovável da biomassa é a alavanca que moldará o futuro do Brasil neste século XXI.

A massa vegetal, agrícola ou florestal, transformar-se-á em energia, alimento e adubo. Este é o caráter revolucionário da nova agronomia sob a égide da biomassa: a terra converte-se também em produtora de energia. A floresta energética é fonte de um combustível sólido renovável, o qual pode substituir tanto o carvão fóssil importado na siderurgia quanto o óleo combustível utilizado na indústria. A floresta energética também é pródiga na geração de um combustível líquido: o etanol da madeira. E, por fim, a biomassa florestal produz energia elétrica.

“Um hectare de floresta equivale a 5Kw instalados. Assim, um plantio de 1.000.000 hectares pode gerar a energia de uma usina de 5.000.000 KW. A implantação de 100.000 Km2 de florestas, ou seja, 10.000.000 de hectares, em um período de 20 anos, cria um total de 2.000.000 de empregos diretos na atividade florestal”.

Uma das características fundamentais do pensamento de Marcello Guimarães é o seu traço afirmativo porque ele pensa menos no que falta do que no que temos. Seu ponto de partida é a seguinte pergunta: quais são nossos recursos abundantes e estratégicos? Quanto a isso, o recurso mais abundante é o homem desempregado e sem tecnologia. Trata-se de uma guinada radical. O que está em pauta não é a tecnologia avançada, nem o capital internacional, nem os equipamentos sofisticados, o que está em jogo é a grande extensão territorial do país com sua cobertura vegetal e seu clima, isto é, o recurso físico.

É a retomada de Euclides da Cunha sob o ângulo da ciência geológica: a interação do homem com a terra. Com o objetivo de reverter o quadro de expulsão do homem do campo e o inchaço das metrópoles. Que sejam sublinhados o clima, o solo, a divisão fundiária, as cooperativas de leite. É isso o que ele denomina Pronal. Segundo Marcello Guimarães, Minas Gerais é a região que detém maior facilidade para a implantação do programa de autodesenvolvimento, pondo fim ao atual modelo concentrado de população.

A escola do pensamento da biomassa traz outro modo de ver o mundo, diferente da visão condicionada pelo carvão mineral, petróleo e usinas nucleares. A perspectiva da mudança da matriz energética não deixa de afetar o conhecimento do que temos sido desde abril de 1500.

Segundo Marcello Guimarães, foi a concentração de energia fóssil no Hemisfério Norte que definiu o futuro da humanidade a partir de 1800, “período em que se desenvolveram a máquina a vapor e o uso siderúrgico de carvão mineral. A energia concentrada em jazidas, que se converteriam em minas e indústrias, iria engendrar no início de 1800 uma nova aglomeração urbana denominada cidade industrial. Neste novo agregado populacional e industrial configurou-se o poder do dono da mina e da indústria versus os trabalhadores.”

A escola da biomassa coloca no âmago da análise histórica o trinômio energia, capital e trabalho. Não foi por acaso que Karl Marx, no período fóssil de 1800, cercado de minas e indústrias, conceituou a luta de classes como motor da história.

A interpretação de Marcello Guimarães sobre a gênese da sociedade industrial sublinha que o mais importante impacto da energia fóssil no desenvolvimento das nações foi o seguinte: “o carvão mineral deu nascimento às cidades industriais, mas não esvaziou o campo. O fenômeno das megalópoles é fruto do petróleo e, mais especificamente, da produção de adubos nitrogenados. Com essa energia se inviabilizou de vez a agricultura tradicional em todo o mundo, determinando a migração para os grandes aglomerados que constituem hoje o mais grave problema para a humanidade: as megalópoles. Nestas não há condição de segurança e convivência pacífica entre os habitantes de qualquer país da atualidade”.

Isso significa que a questão moderna por excelência é o poder gerado pelos donos das minas de carvão mineral e, depois, do petróleo: “Com o domínio da jazida e da mina veio o domínio da energia que iria acionar todas as máquinas até os tempos atuais. Mas tudo isso foi conseguido através de um novo componente que definiria o futuro dos próximos três séculos, ou seja, a tecnologia moderna”.

Eis a sua lapidar definição: “a tecnologia é o resultado de aplicações de conhecimentos científicos na utilização de recursos estratégicos e abundantes”. Nisso reside o cerne do raciocínio de Marcello Guimarães na explicação do processo de dominação colonial. É que na altura de 1800 o recurso energético, disponível e estratégico, era representado pelas jazidas de carvão mineral, petróleo e gás natural. Foi esse recurso energético o fator responsável, junto com a correspondente adequação tecnológica, que permitiu aos países que o detinham no Hemisfério Norte darem o salto histórico, apossando-se de “toda a indústria mecânica, ferroviária, naval, elétrica, e, principalmente de armamentos. A partir do controle da tecnologia, dominaram os outros países, inclusive aqueles que vieram a descobrir jazidas importantes em épocas posteriores. Dessa defasagem tecnológica ocorrida entre os países possuidores de grandes jazidas de combustível fóssil e os que não as tinham, resultou a situação de domínio econômico e político em que estamos vivendo hoje em dia. O problema é que o desenvolvimento tecnológico não ocorre somente nas áreas de produção industrial, mas principalmente na organização empresarial e política”.

A tecnologia só tem chance de desenvolver com produtos estratégicos. O produto é considerado estratégico quando é vital para a comunidade que faz uso dele, de modo que deve ser de largo consumo e de baixo custo. Na história do capitalismo o avanço tecnológico em torno de matérias primas estratégicas ocorreu com o carvão mineral, o petróleo e o gás. O segredo desse processo é social e político. “Quem domina os recursos de matéria prima de modo geral domina também a tecnologia de produção e uso do referido produto”.

Nesta época de apagão feagaceano, cujo lenitivo busca-se no recurso da termoelétrica, convém prestar atenção na lúcida formulação de Marcello Guimarães: “ Vejamos o caso da termoelétrica a gás. Elas fazem parte do processo de desenvolvimento tecnológico do petróleo a gás. A instalação de uma usina é uma fase final de venda de equipamento e do processo de funcionamento. Então implantar uma usina termoelétrica a gás não reflete nenhum ganho tecnológico para o país comprador da usina. Pior ainda é quando o país compra também o combustível.”

Ora, se o país quisesse desenvolver a tecnologia da biomassa, ele teria tudo para fazê-lo.

O Brasil é o único país do mundo que possui esta matéria prima em quantidade suficiente e em preços competitivos para gerar um processo de desenvolvimento tecnológico.

Portanto, o Brasil – e em especial Minas Gerais – tem as pré-condições para liderar em nível mundial a tecnologia de uso energético da biomassa.

O pensamento autônomo e descolonizado entre nós está diante da tarefa de contribuir para eliminar a desigualdade tecnológica, mas para eliminá-la não basta determinado país possuir recursos naturais e estratégicos. O imperativo é superar a defasagem tecnológica no sentido mais amplo possível. E mais do que isso: trata-se de escapar da dominação daqueles países que alcançaram o privilégio de terem saído na frente. Na escola da biomassa está banido o engodo de importar “tecnologia de ponta”, nem tampouco se fala em “transferência de tecnologia”.

O pensamento de Marcello Guimarães está centrado na busca dos caminhos e oportunidades para o Brasil obter seu almejado autodesenvolvimento. É da perspectiva do trópico que ele olha o cenário contemporâneo mundial. “Antes de tudo existe um determinismo físico: as jazidas já dão sinais de esgotamento. Os EUA  consumiram 90%  de suas reservas de petróleo e hoje sobrevivem energeticamente através do domínio dos outros, principalmente do Oriente Médio, conseguindo-o pela guerra”.

Este dado é absolutamente incontestável: as jazidas fósseis dos últimos trezentos anos – a base energética sobre a qual se ergueu o edifício tecnológico e a dominação do capitalismo industrial – encontram-se nos seus derradeiros estertores.

O totem petróleo está derruído. “O outro caminho que os Estados Unidos têm seguido é da mesma forma precária, ou seja, eles continuam a produzir energia elétrica utilizando-se de carvão mineral cada vez de pior qualidade, o que coloca em risco o seu meio ambiente e o equilíbrio térmico do planeta. Indício de insanidade é os Estados Unidos autorizarem suas multinacionais do petróleo a depredarem o santuário ecológico do Alaska”.

A esse beco sem saída da política assentada na exploração da energia fóssil é que aparece simultaneamente outra determinante física: a nova forma de energia que deverá suceder as jazidas fósseis é a biomassa, cuja produção somente é possível – com balanço energético positivo – nos países tropicais de clima quente e úmido.

Marcello Guimarães está convencido de que a biomassa “ocorre de forma dispersa, sendo praticamente impossível seu domínio por grupos oligárquicos ou mesmo por qualquer país. Por mais poderoso que este seja. As tentativas de tratarem a biomassa com o mesmo modelo utilizado no carvão mineral e no petróleo estarão fadadas ao insucesso devido aos problemas de monocultura e a impossibilidade de concorrerem com os pequenos produtores numa atividade de deseconomia de escala, isto é: quanto maior, menos rentável e mais problemático”.

Isso significa que a biomassa traz em si um novo modelo de ocupação do território e de distribuição de renda, modelo esse capaz de moldar uma nova sociedade mais democrática. Daqui se pode inferir que a história do capitalismo é a história da concentração de energia. É por isso que limpa, descentralizada, criadora de empregos e de novas tecnologias, a biomassa energética deverá necessariamente conter o exacerbado crescimento das megalópoles.

O traço diferencial da biomassa como forma de energia é o seu caráter descentralizador, diferentemente das minas e jazidas fósseis responsáveis pela concentração de renda e de poder. Os países industrializados com combustíveis fósseis induziram os países tropicais a adotar técnicas inadequadas ao solo tropical, desprezando a disponibilidade de luz, de calor e de umidade. É por isso que não se atentou para o emprego do adubo orgânico, dando preferência ao consumo de adubo químico das multinacionais, adubo esse que mata a minhoca e os microorganismos do solo, de modo que é total a dependência dos agrotóxicos das multinacionais. São evidentes as implicações nefastas para a alimentação, a saúde e o vestuário.

Quanto à produção tropical da indumentária, Marcello Guimarães faz a defesa das fibras vegetais, pois “as fibras sintéticas baseadas no petróleo estão cada vez mais sendo objeto de repulsa dos que podem optar por um tecido mais natural e adequado ao corpo humano. Não resta a menor dúvida que o algodão se tornará a fibra prioritária no mundo futuro”.

O modelo de autodesenvolvimento baseado na energia da biomassa é de dimensão totalizante, abrangendo a alimentação, o vestuário e a saúde. É preciso não esquecer que temos os minerais que dão o sustentáculo à construção civil: ferro e calcário. “Na agricultura, na indústria de sal e principalmente na produção de alimento, o calcário é o insumo vital”. Há também na composição de adubos minerais como o fósforo e o potássio.

Na produção de minérios merecem destaque o nióbio e o titânio, de modo que diante desses recursos vegetais e minerais extraordinários de que dispõe o país, cabe fazer a pergunta crucial: por que até agora um projeto nacional dessa envergadura não se materializou em níveis municipal, estadual e federal?

O diagnóstico do nosso atraso está feito, assim como a proposta para superar as mazelas do subdesenvolvimento: a dor, a fome, a miséria e a humilhação. A biografia de Marcello Guimarães entra nesse processo, pois há 30 anos ele vem pregando no deserto sem encontrar ressonância por parte das lideranças políticas. Ele atribui o obstáculo que entrava o conhecimento do potencial de felicidade social da biomassa ao sistema de comunicação, sem o qual não há condição da opinião pública ou da força nacional ser mobilizada, porquanto o poder de informar é fundamental. Acontece que esse poder está sistematicamente dirigido e controlado pelos interesses do colonialismo, que atua não apenas por intermédio dos representantes ou empregados das multinacionais.

A ideologia do colonialismo é a forma pela qual a mídia se desenvolve no Brasil, mas outras instituições culturais, inclusive as universitárias, não têm uma visão correta do que seja a natureza física dos trópicos. O grande problema apontado por Marcello Guimarães é que o projeto de autodesenvolvimento da biomassa requer a montagem de seu próprio sistema de comunicação que seja descentralizado e autônomo.

Até o presente momento não apareceu ainda nenhum órgão de comunicação que tenha assumido a bandeira da biomassa. Não por falta de clareza no pensamento ou de ausência de capacidade de persuasão; de resto, a dificuldade desse projeto civilizacional é colocá-lo em prática, pois depende de algum político que não aparece, ou senão de que algum representante da escola da biomassa que venha a ser alçado pelo voto à direção do Estado.

A escola de pensamento traz diagnose e proposta para os trópicos como berço de uma civilização solidária. É mister no entanto inquirir sobre o seu enquadramento político e ideológico, pois – a julgar pelo que fórmula Marcello Guimarães – o socialismo parece não ser o pré-requisito imprescindível à instalação da biomassa energética.

A abordagem energética traz novas luzes à compreensão da história, colocando em outro patamar o desenvolvimento desigual entre as regiões do planeta, assim como explica a oportunidade que se delinea para os trópicos neste século XXI.

“É falso o conceito de divisão do mundo entre Ocidente e Oriente ou mesmo entre capitalismo e socialismo.

Uma tentativa de se contrapor a esse conceito estaria num outro dualismo também artificial de Norte e Sul.

O que existe na realidade é uma divisão mais profunda entre o mundo da região temperada e o das regiões inter-tropicais.

A sua principal característica é a imensa diferença entre o grau atual de desenvolvimento das populações que habitam estas regiões.

Nas regiões temperadas temos os países desenvolvidos, industrializados, possuidores ou dominadores de imensas reservas de combustíveis fósseis: carvão e petróleo.

Na outra região, nos trópicos, estão os subdesenvolvidos: a região da pobreza, da miséria, das pragas, das doenças e da fome.

O que teria levado o mundo a esta situação díspare? O que propiciou o desenvolvimento de uma região e o atraso da outra? Qual é a alternativa para os trópicos?

À primeira vista, podemos considerar que a carência sazonal das regiões temperadas teria levado o habitante destas regiões a um esquema de planejamento e provisionamento para a estação fria.

O homem desta região teve uma maior exigência de previdência, pois do contrário teria imensas dificuldades na estação morta. Esta condição o teria levado aos níveis importantes de economia e acumulação. Por outro lado, o período de repouso e consumo lhe traria tempo para o estudo e a engenhosidade.

A necessidade de aquecimento no inverno o levaria a se precaver armazenando combustíveis que deveriam estar disponíveis para o consumo na época fria; isto teria levado o homem destas regiões a procurar, descobrir e posteriormente dominar mais de 90% das reservas de combustíveis fósseis (carvão e petróleo) do planeta.

Dispondo de combustível de alto poder calórico, criou a máquina a vapor e depois o motor de explosão interna. Dominado o motor, veio o desenvolvimento industrial e o consequente domínio da agricultura.

Usando a abundância de combustível fóssil, dominando a mecanização agrícola, foi fácil a liberação da força de trabalho para as cidades e as atividades secundárias e terciárias.

A fase final deste desenvolvimento é o domínio da tecnologia de comunicação e processamento de dados e a consequente dominação cultural”.

E agora que o tempo do petróleo revelou-se finito?

Qual o lugar e a função dos trópicos na evolução da humanidade?

Está cada vez mais evidente a fragilização do modelo energético e civilizacional das regiões frias e temperadas, valendo-se indiscriminadamente dos combustíveis fósseis esgotáveis e poluidores: petróleo e carvão mineral.

Não é à toa que um artista europeu como Pier Paolo Pasolini escreveu na década de 70 um romance retratando o século XX intitulado “Petróleo”. O hidrocarboneto cede a sua vez para o hidrato de carbono na região do trópico, com a utilização ampla e perene da limpa e indestrutível energia solar, captada diretamente ou através da fotossíntese. Este é o desafio energético das regiões tropicais, deixando de lado o plutônio e a importação de tecnologias obsoletas de processar energia fóssil. A nova concepção do homem situado nos trópicos chama-se autodesenvolvimento. Não há outro caminho para a sociedade brasileira. A propósito dessa descoberta, escreve Marcello Guimarães:

“Parece incrível, mas na realidade foi somente a crise do petróleo que nos permitiu visualizar com clareza a nossa situação e dos países ditos desenvolvidos. A partir dessa crise e do pânico ocorrido nos países da zona temperada é que foi possível ver claramente a produndidade do preconceito em relação à inviabilidade da vida e do desenvolvimento nas regiões tropicais”.

A maldição que persegue a existência social, já colocada em foco por Hegel, é a separação entre ação e pensamento. De um lado, o intelectual ou o artista sem capacidade política e, de outro lado, o político sem capacidade intelectual. A isso dá-se o nome de diálogo de surdos.

Marcello Guimarães vem tentando há 20 anos convencer os políticos sobre o ocaso dos combustíveis fósseis e a necessidade de substituí-los pela energia renovável da biomassa. Conversou um dia até com o todo poderoso ex-ministro Delfim Neto quatro horas em Brasília. Ao fim da conversa, Delfim encerrou o diálogo: o petróleo não vai acabar!

A ciência dos trópicos está esperando a vinda de um messias, digamos assim, um messias político da biomassa. Mas até agora nada. Os governadores e prefeitos das grandes cidades acreditam na panacéia do gás natural com a palavra de ordem imbecil: todos os carros das grandes cidades devem ser convertidos a gás. É a democracia Fiat 1000 a gás. Os idiotas, desinformados evidentemente, não sabem que o gás vem do petróleo e que no mundo existe menos quantidade de gás do que de petróleo.

Como vivemos num país colonizado, nosso olhar está obsessivamente dirigido para fora. E dos Estados Unidos chega a notícia de que as indústrias automobilísticas estão produzindo um carro movido a um bi-combustível: gasolina e álcool. Acontece que o álcool do Estados Unidos é o álcool feito de milho e milho depende do petróleo porque toda a agricultura norte americana é feita com adubo nitrogenado e, segundo Marcello Guimarães, 1Kg de nitrogênio gasta 2Kg de petróleo, de modo que o álcool a milho não é a solução.

E a solução?

A solução está aqui nos trópicos, mas os habitantes dos trópicos estão aparvalhados e perdendo o bonde da história. A situação é desesperante.

Acorda humanidade tropical!

Feira - Óleo s/ tela de Tarsila do Amaral

Feira – Óleo s/ tela de Tarsila do Amaral

*Gilberto Felisberto Vasconcellos, A SALVAÇÃO DA LAVOURA – Receita da Fartura para o Povo Brasilieiro – Casa Amarela – São Paulo – 2002.