A Resposta do Rei D. Manuel I – O Venturoso

Rodrigo Leste

Capitão-mor, Pedro Álvares Cabral,

carta rei - charge

Acabo de receber a triste notícia que destes com os costados numa ilha enfiada lá onde Judas perdeu as botas! Como explicas esse vexame? Logo tu, que eu julgava ser o mais preparado dos meus comandantes. Pensei que irias direto às Índias e voltarias de lá com as naus abarrotadas de especiarias, pedras preciosas e oiro, muito oiro. Deixa o Fernandinho, Rei da Espanha, saber, que logo vem me gozar. Ele e a Isabel.

E esse teu escriba, o tal de Caminha?! Me manda um calhamaço duma carta só para me falar do achamento de uma ilha! Ilha de Vera Cruz, bela porcaria. Além disso, o gajo ainda tem a petulância de se meter a me dar conselhos: “o que vossa Alteza deve fazer, é salvar essa gente.” Devo é salvar o meu pescoço. Os credores, Cabral, não dão sossego, batem na porta do castelo dia e noite sem parar. Tudo porque fiz dívidas enormes para financiar expedições como a tua. E a paga? A paga é o conselho de que devo plantar nessa ilhota de meia pataca. “Em se plantando, tudo dá.” Esse Caminha é mesmo um desaforado, vê lá se eu vou perder tempo com plantações! Diz a esse atrevido que da próxima vez meto-lhe numa masmorra com as mãos presas a ferros para que fiquem atrofiadas, assim, o gajo nunca mais vai poder escrever uma linha sequer.

Agora que a besteira está feita tu vai tentar salvar alguma coisa arrancando tudo que encontrar pela frente nesse raio dessa ilha. Pegue todas as plantas que podem valer alguma coisa, principalmente as árvores. Precisamos de madeira, muita madeira, para os navios e tudo mais. Pegue também esses tais pássaros coloridos, podemos passá-los nos cobres e diminuir um pouco do prejuízo que me causastes. E dá um jeito de chegar às Índias o quanto antes, pois cada dia teu nos mares me custa uma fortuna.

Do teu decepcionado Rei, Dom Manuel I, o Venturoso, que hoje está mais para desaventurado.

Compartilhar