PF: Samarco conhecia o risco de tragédia em Mariana

Camila Severo (HP)

Investigação da Polícia Federal apontou que risco da barragem Fundão estourar existe desde 2012 e que erros ocorreram desde a construção com materiais diferentes daqueles do projeto

A Polícia Federal afirmou, na conclusão do inquérito sobre o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em Minas Gerais, que a direção da Samarco sabia dos riscos de rompimento da barragem pelo menos três anos antes do ocorrido. Segundo a PF, acionistas da Samarco cogitaram, em 2012, remover a população do distrito de Bento Rodrigues, devido ao risco da ocorrência de uma tragédia.

CONSTRUÇÃO

As irregularidades, apontadas pela PF durante as investigações, começam na construção da barragem, que foi feita com materiais diferentes do projeto inicial, e vão até seu rompimento. Segundo o delegado, Roger Lima Moura, na construção “para as galerias de drenagem, onde estava previsto brita e rocha, usaram restos de minério fino e estéril. Essa galeria, depois, acabou cedendo. Teve de ser tamponada”.

No relatório também foram inclusos áudios de conversas telefônicas e trocas de email do sistema de comunicação interna da Samarco. O então diretor de Operações, Kléber Terra, alertou que, no caso de uma ruptura, o fluído “viraria uma pasta e alcançaria a comunidade”, que estava a menos de 2 km de distância do reservatório.

Para Moura, “eles sabiam do risco de que Bento Rodrigues poderia ser atingido. Temos inclusive documentos internos e conversas falando se iria ou não levar os estudos para o licenciamento ambiental”.

A barragem de Fundão começou a operar em dezembro de 2008, e em 2011, o então presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, falou sobre a ameaça que a barragem representava ao distrito, e que a equipe deveria apresentar “algo que corrobore com uma baixa probabilidade de um evento”. Também diz ser mais fácil criar outra barragem do que investir em um material necessário para Fundão. No entanto, a barragem sofreu repetidos “alteamentos” durante os últimos anos.

Em 2012, conversas mostram que a direção da empresa cogitou remover os moradores de Bento Rodrigues, com medo de uma provável ruptura da barragem de Fundão. Neles, Kleber Terra, afirma ao gerente geral de projetos da época, Germano Lopes, que “acionistas querem tirar Bento de qualquer jeito”, e que achava “que a turma [acionistas]tá superestimando os danos com as estruturas atuais”.

Lopes responde que os estudos de ruptura da barragem não deveriam ser inclusos em um pedido de licenciamento ambiental, “a menos que sejamos obrigados por força da lei”.

Para a polícia, a Samarco tentou “esconder os possíveis danos que tinham conhecimento que poderiam acontecer a Bento Rodrigues, para obter o licenciamento”.

TRINCAS

Já em 2014, Terra informou a Vescovi, sobre o surgimento de trincas na barragem de Fundão. “Em Fundão apareceram umas trincas no maciço [parede externa]onde desviamos o eixo… nada sério, mas requer intervenção”. Vescovi responde: “O que??? Ai, ai, ai… Fica esperto”. E pergunta que tipo de trinca era, “só no maciço ou conecta com o interior da barragem?”. Terra responde: “Só no maciço”.

Em março de 2015, Lopes fala sobre duas trincas que surgiram em Fundão, uma em junho de 2013, outra em agosto de 2014, resultado da alteração na geometria da estrutura. “É importante salientar que o recuo tornou o sistema de drenagem existente menos eficiente”, escreve o ex-gerente geral de projetos. Segundo a PF, este recuo no topo, a que se refere Lopes, se deu onde ocorreu a ruptura, e de acordo com o inquérito, a Samarco aumentou a produção na barragem, mesmo sabendo do problema.

Em 18 de novembro de 2015, dias depois do rompimento, Terra informou a Lopes, que o piezômetro, equipamento que monitora a estabilidade da barragem, não estava funcionando no dia do rompimento em quatro pontos.

O supervisor de monitoramento das barragens da Samarco, Wanderson Silva, também falou sobre o equipamento com um funcionário identificado como Léo. “Você lembra de um equipamento, um piezômetro, que tá mais afastado?”, indagou. Léo afirmou então: “a gente colocou um instrumento lá, Wanderson, porque, não sei se você lembra, quando começou as observações do dreno, a gente estava suspeitando daquele piezômetro 7 que estava com índice um pouco elevado. A gente estava duvidando da consistência dele”. Silva ainda questiona: “Onde que está essas leituras? Nós não analisamos ele hora nenhuma, porque nem sabia que ele existia”.

VALE

Nos dias 23 e 24 de novembro e 3 de dezembro, técnicos do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) fizeram vistorias na barragem do Fundão e na mina da Vale, que ficava ao lado da barragem. Nestas visitas os funcionários do DNPM relataram que a Vale “não poupou esforços para dificultar” as fiscalizações.

Na investigação a PF apurou que a Samarco avaliava documentos e locais antes, para saber se eles poderiam ser periciados, atrapalhando as investigações, e que a Vale determinava à Samarco a quantidade de rejeitos da Vale que seriam declarados. Em 2015, foram lançados pela Vale 27% do total de rejeitos, enquanto ela afirmou ser apenas 5%. Para a PF a quantidade foi fundamental para a ultrapassagem dos limites de segurança.

A PF ainda afirmou que o alteamento da barragem, procedimento para que seja possível a colocação de mais rejeito de minério, atingia em média, 20 metros ao ano. Conforme um estudo da polícia, para represas como a de Fundão o alteamento não poderia ultrapassar 10 metros/ano.

Além do ex-presidente, seis diretores da Samarco foram indiciados por crimes ambientais, por danos contra o patrimônio histórico e cultura e por homicídio por dolo eventual, onde se assume o risco de matar.

O laudo pericial encaminhado pelo Ministério Público de Minas Gerais concluiu que o rompimento da barragem ocorreu pela ruptura progressiva não drenada.

A Polícia Federal concluiu, ainda, que um Plano de Ações Emergencial mais detalhado foi contratado pela Samarco, mas não foi implementado porque a empresa o considerou “complexo e caro”.

O inquérito coloca ainda que os áudios analisados demonstram o quanto ainda estão sob risco as estruturas remanescentes.

O rompimento de Fundão é considerado o maior crime ambiental da história do país, a lama da barragem varreu o distrito de Bento Rodrigues, matando 19 pessoas e, em seguida, cimentou a bacia do Rio Doce. O que a Samarco e suas controladoras, Vale e BHP Billiton, fizeram até o momento foi um incrível esforço para se livrarem do crime que cometeram, uma vez que tinham pleno conhecimento do desastre que estaria para ocorrer (e ocorreu).

O calvário do Rio Doce (foto: Leandro Couri)

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