O Paraíso na Terra

Mario Drumond

Liberdade é libertar (Álvaro Vieira Pinto)

“A terra natal, mesmo que seja uma aldeia” – escreveu Machado de Assis – “é sempre o paraíso do mundo”. Assim é, e de tal forma, que o alerta do poeta Rodrigo Leste em seu livro-poema publicado em 2008 sob o título A Infernização do Paraíso, quase não se fez ouvir em sua terra natal.  Na concepção mesma da obra, percebe-se a indignação do poeta se produzindo na angústia de uma absurda solidão. Só encontrou eco em alguns de seus conterrâneos, em especial nas vozes históricas, e também em seus tempos, indignadas e solitárias, dos poetas Carlos Drummond e Dantas Motta. Ao sair à luz, na plenitude da euforia consumista que vem anestesiando a consciência nacional, a obra percutiu menos que uma pequena gota no oceano de conformismo que reinava (e reina) no paraíso mineiro.

Mas sua energia original iria paulatinamente ultrapassar as fronteiras provincianas e alcançaria resposta e consequência na redação da Hora do Povo, tribuna de resistência anti-imperialista, e o alerta angustiado do poeta foi eleito como tema (gancho) desta edição de lançamento do América do Sol. Decidiu-se então que esta página seria pautada na questão da mineração no Brasil e nos infortúnios que nos tem trazido a opressão imperialista e a entrega de nossas riquezas pelas mais diversas e pusilânimes administrações públicas a que temos sido submetidos nos últimos 50 anos em todos os níveis, municipais, estaduais, regionais e federais.

Resolveu-se também que o suplemento seria trimestral e por pouco o América do Sol não se lançou em outubro de 2015, por coincidência, alguns dias antes do desastre de Mariana, que devastou “o verde das nossas matas”, amargou o Rio Doce, ceifou vidas humanas e infectou o já não muito límpido Oceano Atlântico. Uma devastação causada pela imprudência humana equivalente às mais atrozes jamais registradas, incluindo-se as causadas pelas guerras ou pelas poderosas forças da natureza. Tudo pelo cobiçado “ouro das nossas minas”.

Foto: Diego Moura

Foto: Diego Moura

A tragédia, premonida no poema tema desta edição, colocou nua em pelo a famigerada política extrativista de minério para exportação a que vimos retrocedendo historicamente, neste país, mais de dois séculos em pouco menos de duas décadas. Retrocedemos, com toda a força do “progresso”, aos tempos coloniais da primeira revolta da nacionalidade pela mesma causa, a que ficou conhecida como Inconfidência Mineira e que foi liderada por Tiradentes, cujo martírio hediondo comemora hoje 224 anos! Mas liberdade é libertar. O opressor é, antes de tudo, um oprimido. Livre é quem liberta; quem luta para libertar. Tiradentes foi um homem livre que liderou homens livres. Sua referência, sempre forte, nos eleva e releva a denúncia do histórico e do atual quadro de desditas em que nos achamos e enfrentamos.

Quando criança, aprendi que minha terra era a terra do leite e da vaquinha no pasto farto de capim gordura, a terra das quitandas e dos queijos deliciosos, do fogão de lenha e da nossa famosa cozinha. Éramos camponeses felizes, graças a Deus!

Na adolescência, tomei consciência de que éramos a terra da liberdade, da rebeldia e da inteligência. Éramos revolucionários inquietos, graças a Tiradentes! E a Marx, Engels, Lenin, Mao-Tsé-Tung, etc, não devemos olvidá-los.

E ao longo da maturidade, os horizontes foram se ampliando e, aos poucos, enfrentando e rompendo a poderosa manipulação da informação censurada a que somos cruelmente submetidos, fui tomando consciência de que a terra de Tiradentes, a minha terra natal, era também a terra de Jupiaçu, de Tupac Kapari, de Francisco de Miranda, de Sucre, de San Martin, de O’Higgins, de Artigas, de Morazon, de Alfaro, de Marti, de Zapata, de Sandino, de Che Guevara, de Chavez e, acima de tudo, a terra de Simon Bolívar, para mim, o maior gênio de todas as Américas, o “general de homens e mulheres livres”, o libertador dos libertadores da nossa América, a América solar, da Patagônia ao Rio Grande, a América do Sol.

“América do Sul / América do Sol / América do Sal”

Li num artigo de Gilberto Vasconcellos que Hegel previu uma longa guerra entre a América do Sul e a América do Norte. Segundo o artigo, no prognóstico do célebre filósofo, desta guerra sairia vitoriosa a América do Sul. Penso que tal guerra está em andamento a passos cada vez mais ligeiros. Atualizando Hegel, podemos nos referir a tal confronto como a guerra da América das Sombras contra a América do Sol. Fico com o filósofo: – Venceremos!

Fonte: Museo Torres Garcia

Fonte: Museo Torres Garcia

Belo Horizonte, 17 de abril de 2016.

 

 

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