Lama em Mariana: “O Supremo Apocalipse”

Rodrigo Leste:

Muito se escreveu, analisou, questionou sobre o lamentável episódio de Mariana. Mas trazemos aqui, em primeira mão, os fatos vistos e acompanhados por quem esteve no local na hora exata em que a tragédia aconteceu. Diego Moura nasceu em Imperatriz, Maranhão; veio estudar em Belo Horizonte e acabou ficando por aqui. Tornou-se fotógrafo e atua como freelancer. Estava na região de Mariana no fatídico 5 de novembro de 2015, tirando fotos para um livro que está sendo preparado sobre a região. Por obra do acaso ou do destino, tornou-se testemunha ocular do maior crime ambiental da história do Brasil. Segue seu impressionante depoimento:

Estava indo no meu carro de Santa Rita Durão, distrito de Mariana, onde havia feito algumas fotos, para Camargos, uma vila com meia dúzia de casas espalhadas ao redor de uma igreja gigantesca. Depois de fotografar o que me chamou atenção, segui por uma estrada de terra no sentido de Bento Rodrigues. Quando passei por um ponto de ônibus, reparei que tinha um sujeito ali chorando. Estava aos prantos mesmo. Parei, dei uma ré, e fui saber o que estava acontecendo. O homem falou com a voz engasgada:

— Minha família toda morreu!
— Como assim? — perguntei.
— Todo mundo morreu. A barragem acabou de estourar e inundou Bento.
— Que barragem?
— A da Samarco.
Tinha dois outros homens no ponto, que também começaram a falar.
— Morreu todo mundo no Bento (Rodrigues).
Não perdi tempo:
— Vamos lá.

Resolvi, junto com os outros dois, moradores de Camargos, não levar o morador de Bento Rodrigues: ele poderia sofrer uma comoção maior ao se deparar com a família toda morta. Explicamos a situação para ele que acabou aceitando. Entramos no carro e seguimos.

Em menos de um quilômetro, tivemos primeira visão da lama. Ela tinha arrasado um sítio localizado em uma baixada, ao lado da estrada. O sítio foi invadido pela lama. Era uma coisa densa, pesada, e ainda estava em movimento.

Descemos do carro para ver melhor o estrago. A casa principal do sítio, que fica no pé de um morro, um pouco mais alta em relação às outras construções, teve apenas o primeiro andar atingido pela lama, mas o resto todo foi completamente inundado. De uma casa pequena, talvez a casa de farinha, só dava para ver o telhado. Um caminhão foi coberto pela lama, só aparecia o teto da cabine, o resto estava soterrado. Tentamos enxergar se tinha alguém no lugar, mas nem sinal de gente ou de bicho. Fiz algumas fotos e partimos.

Não rodamos nem 100 metros e logo avistamos no alto de um morro, a alguma distância da estrada, dois homens que acenavam. Os caras de Camargos os reconheceram: era o pai e o filho, donos do sítio que foi inundado. Pareciam estar bem. Acenamos em sinal de despedida e seguimos para Bento Rodrigues.

Rodamos um pouco e topamos de frente com um verdadeiro rio de lama. Foi aí que eu tive a verdadeira dimensão do estrago. Era um rio de lama grossa, de quase 100 metros de largura, arrastando troncos, galhos, detritos em geral. Passou até um botijão de gás, que ia sendo arrastado pela correnteza. Foi aí que caiu a ficha da potencia que era aquele negócio, um troço apocalíptico.

Um dos sujeitos que estava comigo no carro, falou duas coisas que me impressionaram: disse que a ponte que fazia a ligação entre Camargos e Bento Rodrigues, devia estar enterrada a uns 30 metros abaixo do rio de lama. A segunda coisa louca que falou é que o rio de lama corria no sentido inverso ao do riacho que passa ali, sobre o qual ficava a ponte. Ou seja: por uma estranha razão, que desafia as leis da física, o rio de lama corria inversamente, no contrafluxo do riacho. Quando pude, em outra ocasião, confirmei com o pessoal de Bento que este estranho fenômeno de fato ocorrera.

“O supremo apocalipse”

 Nessa hora, quando estávamos embasbacados diante de tanta lama, o moço que estava chorando no ponto de ônibus, chegou. Pegou carona em uma moto e estava mais desesperado ainda acreditando que todos da sua família tinham morrido. Até hoje não consegui saber se o pessoal escapou ou não…

Minha vontade era chegar em Bento de qualquer jeito, mas todos que estavam ali e conheciam bem a região, disseram que era impossível, por causa da lama. Fiz várias fotos e voltei para Camargos onde encontrei uma equipe de biólogos a serviço da Samarco. Eles estavam tendo acesso a maiores informações pelo radio. Foi aí que eu soube que a barragem do Fundão tinha rompido e que o episódio era de enormes proporções.

Decidi chegar a Bento Rodrigues através de outro caminho, passando por Santa Rita Durão, através da estrada asfaltada que liga Mariana a Santa Bárbara, uma volta de uns 40 quilômetros. Quando cheguei em  Santa Rita já tinha muito carro, um fuzuê danado, polícia, etc. Continuei no sentido do Bento e encontrei com um pessoal, funcionários uniformizados de uma empreiteira, que estavam numa Kombi. Eles estavam justamente em Bento Rodrigues no momento do rompimento da barragem. Um deles falou emocionado: – Escapamos por pouco, moço. Ouvi o barulho de árvores caindo, o mato sendo arrancado pela força da lama. Foi o barulhão que nos salvou. Pulamos pra dentro da Kombi e fugimos a tempo.

Diego prossegue:

Dali, onde estava, junto com o pessoal da Kombi, tive o visual do caminho da lama. Desci mais um pouco e deparei com uma muvuca de carros, bombeiros, gente aflita andando de um lado pro outro, todos dando palpites, querendo fazer alguma coisa. Um caos. Desse ponto tive a visão panorâmica do que tinha verdadeiramente acontecido no Bento, uma coisa apavorante, era o supremo apocalipse.

“Se fosse um engenheiro da Samarco, já tinha chegado alguém para salvar ele.”

 O sol já tinha se posto, mas mesmo assim fiz mais fotos. Consegui descer mais um pouco, a pé, e tive então a idéia completa da devastação: era uma área enorme totalmente arrasada pela lama. Via-se apenas o telhado de algumas construções, o teto de alguns carros. Sobressaiam na paisagem umas “ilhas” formadas por mangueiras altas que despontavam no meio do lamaçal.

Havia um fluxo intenso de helicópteros, deviam ser mais de cinco, que iam de um lado para o outro. Sobrevoavam a região e pousavam atrás de um morro, talvez num campo de futebol, uma coisa assim.

A lama ainda se movimentava, criando formas pavorosas. A agonia das pessoas era tentar fazer com que os pilotos dos helicópteros vissem os lugares onde tinha alguém que ainda poderia ser resgatado. Consegui avistar, ao longe, um cara desesperado, se equilibrando no teto de um carro. Um sujeito, ao meu lado, soltou essa: — Se fosse um engenheiro da Samarco, já tinha chegado alguém para salvar ele.

O fotógrafo, diante da noite que já havia caído e da impossibilidade de fazer alguma coisa, decidiu voltar logo para Belo Horizonte. O sinal do celular na região era muito fraco e ele precisava enviar as fotos que havia feito o quanto antes.

Deixo para o próprio Diego a avaliação de tudo que viveu e presenciou:

Pensando naquilo tudo que aconteceu, o que me chamou mais atenção foi o fato do pessoal de Camargos e do Bento falar várias vezes que não era surpresa nenhuma o rompimento da barragem. De alguma forma, todos ali já esperavam por isso há muito tempo. Lembro que em Camargos, um morador da região, inclusive funcionário da Samarco — ele estava até de uniforme —, contou que presenciou uma discussão entre um diretor da empresa, de primeiro escalão, e um funcionário da área de segurança. O assunto era a garantia de segurança das barragens. Lá pelas tantas, quando a conversa esquentou, o funcionário fez esta pergunta para o diretor: — Já que é tão seguro, então por que o senhor não mora com a sua família ali, na região abaixo da barragem?

Compartilhar